para ramon
acho que na época eu
nascia,
o que sempre me pareceu
um
privilégio antecedido
por uma desgraça
coletiva.
posso dizer
que, pela minha lembrança,
eram os amigos dos meus
pais que morriam.
todos me pareciam muito
velhos,
mas sei hoje que eram
jovens
e que isso era basicamente
algo
que acontecia aos que
eram jovens
na época em que eu
nascia.
naquela época eram as
grandes viagens,
amigos queridos, sempre
os mais carinhosos,
os que me levavam a
comer coxinha com guaraná
e contavam histórias hilárias e estavam sempre
com os olhos vermelhos
– acho que de tanto rir.
eles viajavam sem
perspectiva muito clara
– não para uma criança –
de que voltariam,
o que me deixava com
raiva de todos eles,
com vontade de que todos
eles morressem.
mas agora tudo isso
que poderia ser bonito
soa triste e venerável.
uma coisa que acontecia
aos jovens,
matava os novos e os
desbravadores.
não era isso que meus
pais me diziam,
eles falavam de
primatas e selvas africanas.
é o que eu imagino
agora: jovens mortos,
mas, como eu era
criança, eram velhos,
mas eram velhos que
dançavam muito.
nasci na década dos
mistérios mortíferos
e hoje penso nisso como
uma camisa
rasgada que se gosta de
usar porque
é a que deixa nosso
corpo mais bonito.
Um comentário:
Lembro das propostas de Drummond com o "Sentimento do Mundo". De lá para cá o mundo ficou pequeno, terrivelmente pequeno e corriqueiro. E dificil basear-se em mysterios que parecem cada vez mais caricatos, em metafísicas que carregam bandeiras e/ou agendas. A ciência pulverizou a si mesma, não há mais um desejo ou sonho de homem universal, apenas o profundo conhecimento que nos leva a ruas sem saída... Como há tanto tempo se tenta pelos físicos teóricos, unir as quatro forças básicas, tentamos nós os poetas pós-contemporâneos, unir sem muito sucesso mas com muito desassossego e madrugas insones o universal e o particular.
um grande abraço irmão
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