15.7.16

“meia-noite em buenos aires”


tua flor de aço
despeja bolhas
em meus pés.
nós corremos
tuas ruas como
se fôssemos
os pegadores
de carteira de
charly garcia.
urramos calos
e nunca será
a rua correta.
amar os calos:
afirmativa una
de nossa ruína.
repare, amor
aqui os gatos
gritam como
se fossem eu.

2.7.16

“poema aos dentes decaídos de auxilio lacouture”





rugas pregam peças nas tuas vontades magnânimas,
estás sempre a caminho de um outro acontecimento,
não paras nunca, não caminhas a pés vistos, há lama
nas calçadas da tua inóspita decisão de se abandonar
a uma tentativa divergente dos hospícios e das curas,
mas és uma pedra no vaso microscópico de um pênis,
és tuas roupas de frio espancadas pelas engrenagens
de limpeza, que estão à disposição das nossas usinas.

tua nova pele expele a água cinza do primeiro rótulo,
tuas coxas sedentárias são pilastras imorais do tempo
em que corrias contra o vento e não pensavas ainda
nos dentes decaídos de auxílio lacouture, pilastras
verdadeiras do que se tomba por tamanha beleza.
agora teus heróis juvenis estão amargos ou mortos,
andas confuso com relação ao pedaço que deixaste
e o pedaço (assustadoramente frio) do que és ainda.

deixaste o que só seria possível se estivesses morto
e te inauguras aos trancos nesta inédita dimensão,
veja bem, ainda não sabes quase nada da primeira,
mas a vida sempre foi o braço ríspido empurrando,
as frases possessas que tornam os humanos frágeis,
a boca que pende diante do que se pendura suicida.
assustado tu escreves à máquina de óculos escuros,
esperando dissipar os vapores da terrível maravilha.

17.5.16

“te amo, garota plutônica”



quando me agarra pelas bolas,
quando puxa a faca ou me ignora,
eu fico tonto sem saber o que fazer,
eu viro os olhos, eu rezo mantras,
me torno lentamente um sicofanta,
porque eu te amo, garota plutônica,
ou talvez eu seja viciado em você.

quando te vejo, gótica de pracinha,
intensa, psicopata, bruxa, sombria,
um vulcão siciliano cai sobre mim,
estou na chuva, na boca de fumo,
nem sei mais o que sou, não durmo,
porque eu te amo, garota plutônica,
minha vida é apenas uma rima ruim.

eu te acompanho pelos cemitérios,
eu lambo a tua casca antiga e séria,
tua raiva, teu descontrole me guiam
no beco sem saída da paixão raivosa,
deusa vulcânica, te apanho na fossa,
porque eu te amo, garota platônica,
sou um gato de rua diante do teu cio.

30.4.16

"gala dali"



gala dali em seu leito de morte,
gala dali na companhia de um jovem
amante lindo cabeludo e roqueiro.
gala tem medo, gala diz: “tenho medo”.
o jovem segura as mãos frias de gala.
o quadro treme, o relógio derrete.
dali de fraldão ostenta um bigode branco.
o que acontece depois que eu morrer? –
gala pergunta em seu leito de morte.
o amante roqueiro respira e responde:
você fecha os olhos e quando abre os olhos
se depara com uma grande escuridão.
então, de repentemente, você vê cristo.
gala suspira e começa a chorar com raiva.
matrioska, boneca russa desmantelada.

19.3.16

"deirdre"





a puta ancestral,
coração estilhaçado,
mataram com punhal
teu lindo namorado.

e tu agora vives nua
nas planícies verdes
do meu sonho celta.

tua mitologia ruiva
rosna feito um cão,
a carne que deseja
o crime do palato.

a boca assassina,
rock n’ roll suicida,
entranha de deus,
linda e desbotada,
esmalte descascado,
como cada um de nós.

a puta ancestral,
coração estilhaçado,
mataram com punhal
teu lindo namorado.

“a propósito dos últimos acontecimentos”





aqui estamos nós, os cercados, mais uma vez.
somos outra vez os sionistas dos anos trinta.
somos outra vez o rapaz de vermelho linchado.
somos outra vez a quenga que deve morrer.
somos outra vez o veneno dos dentes podres
de velhos eunucos e suas mulheres cocainômanas.
somos outra vez os curdos no topo da montanha.
somos outra vez a execução do nariz de palhaço.
somos outra vez a gangrena violácea do apuro.
somos outra vez a tremedeira do ser em pânico.
somos outra vez o caminho dos beligerantes.
somos outra vez, vai acontecer outra vez ainda.
somos outra vez os caracóis debaixo da pedra.
somos outra vez a beleza do grito avacalhado.
somos outra vez a memória curta dos umbigos.
somos outra vez as mulheres com o grelo duro.
somos outra vez a parabólica viral do coisa ruim.
somos outra vez os cães de bandana vermelha,
sangue vermelho dos cães de bandana vermelha.
somos outra vez os corredores salivantes do ódio.
somos outra vez, há quinhentos anos outra vez.
somos outra vez a vergonha daqui a trinta anos,
um sísifo quando baixa a guarda e cai de queixo.




16.12.15

"lucha libre"



vestimos roupas coloridas
às vezes muito incômodas
no calor dos estádios cheios,
nossas sungas florescentes
denotam a doce brutalidade
de nossas barrigas enormes,
dos nossos braços de ouro.
enfim tudo é um espetáculo,
o aplauso também é cuspe,
sabemos com calos próprios.
nos apelidaram calor latino.
nossas deliberações em nada
têm a ver com nossa carga.
aguentamos o peso do riso
enquanto dobramos ossos
e criamos rubras varizes
no entardecer do espetáculo.
na rua jamais nos confunda
por nossa passada cabisbaixa,
por nossos narizes quebrados.
porque lutamos a lucha libre
nossa luta é bem mais um filtro
e já não há de fato porque lutar.
a coragem de fato se evanesce
em golpes cenográficos, urros
e bocas sedentas de água doce.
tão frágeis em nossas sungas
florescentes nós florescemos,
apenas para amainar as cinzas.

15.9.15

“costela remix”


lentamente as mudanças
drásticas elas lentamente
fraturam nossas costelas.

sutil rusga no hemotórax
sempre muito lentamente
vai perfurando os órgãos
por dentro de espartilhos
como os que endoidaram
muitas damas da realeza.

cair da positiva tentativa
de ser nobre e ser santo.

as ruas são as pororocas
e tua nobreza vagarosa
lentamente se converge
na imagem alquebrada
de um adão ou sagitário
cujas flechas por dentro
evadem-se da turbulenta
carne cinza de mangue
de um estúpido coração.

mas que todos algum dia
fomos estúpidos e isso é
o que viabiliza ao santo
flutuar por sobre idosos
na fila das emergências.


  

25.8.15

“shoá”


a câmara de gás fica ao lado
do necrotério, que fica ao lado
do crematório.

ouvimos as histórias
que vêm da sala de estar,
em vozes de velhos soturnos.

são corpos duros amontoados
no quarto escuro da violação
de todos os pendores.

são vozes mortas
na imensidão vermelha
do apocalipse que faz a vida.

as vozes dos velhos soturnos
estão cansadas, mas não cessam
enquanto não dormimos.

mas não se esqueça
que há senhas bloqueadas
para impedir que as crianças
prevejam seu futuro.

a câmara de gás fica ao lado
do necrotério, que fica ao lado
do crematório.

15.8.15

"robôs em fuga"


mais uma vez aqui
e já há tanto tempo,
na agressividade seca do instante,
no acelerador de partículas da alma,
no refúgio dos corações enferrujados,
nas bolas de fogo dentro dos bolsos,
nos narizes vermelhos de amor e ódio,
nos catarros do receio,
na síndrome das pernas agitadas
e na boca imensa cheia de tiros.

mais uma vez aqui
e já há tanto tempo,
hóspede na terceira classe
de um trem descarrilado,
robô em fuga lenta
da chuva ácida de xangai,
mitologias esfareladas
com restos animais à mesa,
junto apenas na distância
que nos separa do horizonte
de toda esperança.  

na vergonha de não conseguir
e na vergonha de seguir tentando não
conseguir para permanecer vivo,
mas vivos estamos, pensamos todos,
é preciso não conseguir para estar vivo,
é preciso saber sempre pela metade
e da outra parte fazer o calvário
muitas vezes silencioso e sem músculos,
de doce passagem tumultuosa,
com imensas dificuldades, por saber
muito mais do que seria bonito saber.

12.8.15

“goya”





capturados entre exigências contraditórias,
levados a construir compromissos laboriosos,
sob regicídio e terror, alguns “esclarecidos”
sofrem represálias, surdos e melancólicos
adoradores de furúnculos, legislados na arte,
empalados por certa benevolência deicida,
abastados colecionadores de convicções liberais.

ainda assim a impressão de termos nascido
para outro mundo, sem sono nem repouso
enquanto não tivermos concluído o assunto,
sem chamar isso de viver, a vida que levamos,
pessoas cujas marcas nos quartos de pernoite
são marcas de cigarro nos lençóis brancos
muito limpos onde  perturbações dormitam.

enterrá-los e calar-se, assim são as semanas,
absurdos se repetem dos dois lados do front.
não sabíamos então reconhecer as profecias,
então as máscaras diziam a verdade recôndita
escondida na fachada mentirosa da face nua.
carvões quebrados pelos inimigos das Luzes,
consequência inelutável de banhar-se nelas.