13.1.17

“dança da chuva”


chove enfim na cidade,
na cidade em pânico,
depois de dias bíblicos
num deserto de gólgota,
depois de meses de gelo,
de anos de convulsões
inúteis e maravilhosas.

mas, agora, neste segundo,
o calor arrefece, a água
impõe o cheiro de entranhas,
que sobe e lava o pútrido
parado de meses, o gelo
sujo de meses, os anos
estomacais de milênios.

agora pelo menos posso
estar nu ouvindo cair
o que não se sustenta
e cai como um morto
em meus braços, penso,
mas em muitas casas,
neste segundo, enquanto
bato as teclas, outros
antiquados, espantados
com o calor dos dias,
com o gelo dos meses,
com o vômito dos anos,
também eles devem estar,
eles hão de estar fodendo,
em homenagem ao sol
que dá lugar a lua cheia,
que hoje, gigante, não vira,
numa atípica sexta-feira treze,
um segundo longe do terror,
aproveitando a brecha,
fazendo a fuga no deserto,
quando me dou conta de que
tenho perdido, na guerra,
isqueiros placidamente.

que isso tenha duração aqui
até os próximos incêndios.

31.12.16

"cabaço"


ainda falo veementemente
sobre a perda do meu cabaço,
capa frágil que me protegia
da inevitável humanidade.

sem crânio volto ao gólgota,
com o esqueleto aposentado.
a montanha-russa dos dados
já não faz o mesmo sentido;
já não faz o mesmo sentido
falar sobre isso agora.

eu não inventarei
um novo sentido.

entrei calado num país manco,
me diverti aos prantos
com o fato de não ter criado
nada com que se ganha algo.

corre as gavetas o azeite único
do último navio que se afasta,
migrando no tronco firme
de uma longa dinastia anã.

não ganho, nunca perdido,
me envolvi com certo fogo,
certo charme de incêndio.

na minha opinião recolho,
dos repolhos que, feios, são
sempre muito nutritivos.

então eu reponho a face
no lugar da metade sobrante
porque ainda estou aqui,
nos meus anos oitenta,
nascido charrua natural
na lembrança da membrana
violada que rompe o crânio.

mas ainda não sou eu aqui,
este ainda não é o meu país.
é apenas mais um cabaço
possesso gritando em vão,
anões distantes, sujo rastro
na magenta de um vulcão.

25.12.16

"nossas pedras"



na escuridão da estrada
estão as pedras inevitáveis
do crescimento, no sentido
de passagem atropelada
e sem explicação sólida.

na clareza do amor
também há pedras,
porque se algo é criado,
vem sempre da pedra,
a coisa que não sabemos,
a coisa que muda o curso,
a coisa que assassina,
chamada pedra máxima.

estamos na escuridão
da estrada agora e,
por enquanto, as pedras
que nós sabemos
estão nas nossas mãos.

mas elas virão sem desespero,
as pedras inevitáveis, pedreira,
as pedras maiores que amassam
e as menores que se infiltram
no sangue e debaixo das unhas.

e quando vierem, é provável,
estaremos de olhos fechados
e as pedras em nossas mãos,
fechadas de medo e de fúria,
justificarão nossa esperança,
uma última vez ainda e mais,
o sangue da carne apedrejada.

24.12.16

"poema azul para paul celan"





ao romper do osso,
jaz o equilibrista azulado
com a corda na volta do pescoço.

um pente de areia varre
os ossos velhos rompidos,
entre as unhas sobram
filetes de coisas mortas.

nas papoulas do esquecimento
jaz o homem-tocha, azul.
na peruca das horas
nasce o filho sem olhos.

as sobras do passado
carregamos entre as unhas.

nas cutículas do tempo
carregamos o amor, azulado.

se roemos vorazmente,
osso com osso, unha com dente,
é porque o domador
de leões foi engolido vivo.

o passado desgovernou-se
em presente marinho
e no filete do sangue,
no filho sem horas,
na sobra das unhas,
no tempo dos ossos,
trazemos o amor, azulado.

23.12.16

“um poema temeroso”


– ó meu deus é preciso!
saber filtrar a nobre experiência
de tudo que perdura no caldo
da experiência humana
correspondente a ti próprio,
que és um pouco de todos
e um muito do que não há.

mesmo assim reténs aos atropelos
pelo mínimo cada vez menor
que tens de humano reconhecível
e não usas lanternas no escuro
dos labirintos que nunca houve
a não ser na tua calva têmpora
que agora se cansa em calo
de emoção represada,
de emoção despejada,
de emoção desprezada.

porque não sabes o combate
para fazer valer os sonhos
e cantar fardos noutra língua.

– ó meu deus é preciso!
saber lamber a nova língua
que, monstro mitológico
num preâmbulo pouco
aguardado no mundo,
suspende teu coração fraco
com mil dentes de medo.

12.12.16

"elegia ao fim do mundo"


um jardineiro é sempre
uma motivação.

eu não acharia ridículo
mais armadilhas,
um aspecto importante
que fica de fora.

dentro de todo jardim,
uma motivação,
para não achar ridículo
um jardineiro.

armadilhas são jardins
que motivam
o jardineiro a ficar fora.

revirar a terra
é como revirar os olhos.

verter o sexo
no estupro da papoula,
o áspero que
já não sabe mais chorar.

o sexo revira
a terra do olho áspero
em papoulas
de divertidos aspectos.

motivamos,
estuprados, bílis fiel,
áspero revirar.

que o jardineiro limpe
o ainda motivo.

estupradas armadilhas:
o ainda choro
do jardim motivacional.

os divertidos
revirados fora do sexo,
terra no olho
de papoulas decoradas.

25.11.16

"O make me a mask" (Dylan Thomas) TENTATIVA #1



“Maquila a máscara”

Maquila a máscara e o muro que isolem teus espiões
Dos afiados, esmaltados olhos e das garras de óculos,
Curra e rebelião nas enfermarias da minha face,
Mordaça de árvore caída que bloqueia inimigos expostos
Da língua de baioneta através da indefesa ladainha carola,
Da boca presente, trombeta de mentiras que sopra docemente,
Forjado na velha armadura em carvalho o semblante idiota
Para amparar os miolos cintilantes e pilhar os examinadores,
E um pesar de viúva manchou com choro o vergar dos cílios
Para vendar beladona e deixar que os olhos secos reclamem
Os que traem, de sua derrota, as chorosas mentiras
Pela curva da boca nua ou pela risada guardada na manga.

***

“O make me a mask”

O make me a mask and a wall to shut from your spies
Of the sharp, enamelled eyes and the spectacled claws
Rape and rebellion in the nurseries of my face,
Gag of dumbstruck tree to block from bare enemies
The bayonet tongue in this undefended prayerpiece,
The present mouth, and the sweetly blown trumpet of lies,
 Shaped in old armour and oak the countenance of a dunce
To shield the glistening brain and blunt the examiners,
And a tear-stained widower grief drooped from the lashes
To veil belladonna and let the dry eyes perceive
Others betray the lamenting lies of their losses
By the curve of the nude mouth or the laugh up the sleeve.

19.11.16

"cine cinedade"


estou aqui porque não é suficiente,
minha empáfia, medo do cu na roda,
já não são suficientes as entranhas,
o que deus ganha com minha morte,
o passado na cabeça feito um bugre,
as lentilhas da minha maior paixão.


sou árabe, minto, sou um siciliano,
aqui estou como carne de combate.
um tigre lento com dor de estômago,
mas fecho os olhos e olhos amarelos
não se veem em ocasião de coca-cola;
vejo pasolini esquartejado em sacolas.

13.11.16

"mais do que seria bonito"



mais uma vez aqui
e já há tanto tempo,
na agressividade seca do instante,
no acelerador de partículas da alma,
no refúgio dos corações enferrujados,
nas bolas de fogo dentro dos bolsos,
nos narizes vermelhos de amor e ódio,
nos catarros do receio,
na síndrome das pernas agitadas
e na boca imensa cheia de tiros.

mais uma vez aqui
e já há tanto tempo,
hóspede na terceira classe
de um trem descarrilado,
robô em fuga lenta
da chuva ácida de xangai,
mitologia esfarelada
com restos animais à mesa,
junto apenas na distância
que nos separa do horizonte
de toda esperança.  

na vergonha de não conseguir
e na vergonha de seguir tentando
não conseguir para permanecer vivo,
mas vivos estamos, pensamos todos,
é preciso não conseguir para estar vivo,
é preciso saber sempre pela metade
e da outra parte fazer o calvário
muitas vezes silencioso e sem músculos,
de doce passagem tumultuosa,
com imensas dificuldades, por saber
muito mais do que seria bonito saber.

"sempre chove quando saio para a vida"


diante dessas coisas que acontecem
enquanto penso que não estão acontecendo,
ou dessas que não acontecem enquanto penso
“incrível que isso esteja acontecendo comigo”,
sempre chove quando saio para a vida.

o projeto marona está à beira da implosão,
precisamos contar as feridas e os cortes da última inundação,
calcular a peste do contato do chorume com o sangue aberto,
mas nem bem amputamos as partes podres
e já estamos mais uma vez ali, sob dilúvio.

quando chove as baratas ficam com medo,
eu tenho pavor de baratas, talvez por isso,
sempre chove quando saio para a vida,
saltitando porque é preciso atiçar o corpo
para poder, assustado, mas sem medo,
percorrer as feridas e cortes de mais uma inundação,
apenas para ver minhas contemporâneas, as baratas,
anos-luz mais fortalecidas e preparadas
– as baratas desabitam – dentro de mim

vencendo o combate contra mim que não sou eu,
velozmente chocando-se umas com as outras
porque estão com medo, imagino como deve ser
correr pelas ruas feito “barata tonta”, com medo.

diferentemente de nós, que não temos nada que nos esmague,
e sabemos disso perfeitamente sob gigantescas solas adestradas,
mas não são mais nosso comando, nosso medo, não são mais nós,

e penso em como deve ser para uma espécie maior,
gulliveriana, digamos, o que haveriam de pensar
esses seres gigantescos ao nos olhar tão calmos
sob o dilúvio, no entanto, terríveis em pleno sol
de novas ideias ainda mofadas, com a faca na mão,
com a rosa entre os dentes, com a morte no bolso,

com o choro do boicote pálido,
                  sem amor que não seja palavra,
                                   sofrendo golpes que produzem cancros,

correndo e se chocando uns com os outros
e muitas vezes atingindo algo bonito e perigoso
que não tem nome e quando chove as pessoas chamam
vontade de – e nessas horas em que chove
e quando as pessoas pensam vontade de –
elas nunca se movem, mas, entre enganos agressivos,
uns fazem sextilhas platônicas,
outros afiam navalhas que guardam
em velhas caixas herdadas de homicídios genealógicos.

tem quem nade ou alimente fios elétricos na cabeça,
eu mesmo nem sei o que ando fazendo,
sensação de que tenho sido empurrado para o bem,
com todos os pensamentos terríveis cada vez mais claros,
como navalha brilhando no oceano, essa chuva,
a implosão dos sentidos controlados.

o amor está prestes a vomitar, até que dorme
enquanto estamos parados porque houve um acidente,
famílias com mil olhos, todas se arrastam para ver o sismo,
para ver o sangue, mas ninguém ali suportaria algo assim.

de todo modo, o amor pede tua mão, está prestes a vomitar,
mas é uma força irreconhecível que te aproxima hoje do bem.

diante dessas coisas, o amor pedindo socorro, belchior foragido,
              o nariz de prata de angenor reluz na vala comum –
              as baratas de repente se acalmam, há valsa nas crateras.

4.11.16

“duas pessoas sem recursos conversam sobre ir à Grécia”



trazer os barcos
é tarefa marinha
arrastar contra
toda correnteza
todos os detritos
algo que netuno
foi abandonando
no decorrer da
parábola-coisa
que permanece
sonolenta por
dentro do riso
que não se pode
evitar quando
água começa
a jorrar dentro
de narinas cheias
a carga dos barcos
a sobrenatural
tarefa impossível
arrastar os barcos
domar a correnteza
jamais afogar-se
ser o mar, ser deus.