8.11.18

“gatos sonhando”



agora que estou triste
e pensando em desistir
sabendo que não posso
olho para os dois gatos
ao meu lado no lavabo.

digo que eles são meus
mas sem saber de nada
eles sabem que não são.

não sabem meus gatos
esses que meus não são
que é afinal o fascismo.

enquanto eu sinto como
se entrasse pela primeira
vez na disneilândia fatal
os gatos ficam na janela
tomando a chuva forte e
eles não se abalam nunca.

mas e quando formos nós
na janela sob chuva forte
o que será de nós então?

no sonho o famoso poeta
pacifista ele me torturava
me dava um esporro e ria.

acordo e olho os gatos ali.
se tremem não é por medo
sonham com a teta da mãe.

4.11.18

"pastoral”



é preciso, com ternura,
saber ser destruído.
não pendurar holofotes
ou o pescoço nos erros.
aprender a tremer
se for para tremer
e dançar com vidro
dentro dos sapatos.

tu agora andarás
pelas ruas como
quem procura algo
no chão, em tempo
vais reparar: todos
caminham assim.

um balão de gás hélio, uma ternura,
vez por outra, em forma de coração,
escapará à mão da criança pequena.

pequenos seres que, maiores,
vestirão no teu lugar a coroa
de espinhos do teu egoísmo,
das vezes que odiou porque
não soube amar a ti mesmo.

agora ainda será possível esquecer
– das largas ruas escuras da tua
esperança sem parentesco virá
o velho vento frio da paranóia
ao meio-dia da maior escuridão.

nem de longe será a primeira vez,
mas é a tua vez e é sabido: pesa
sempre mais nos fracos como tu.

nos que sabem no que acreditar,
mas não sabem ainda quem são.

e pensar que tu ainda tens
dois gatos e um amor prometido.

é preciso saber escorar a queda
no quarto fúnebre do espírito:
saber teu destino de alma parda
e tua falta de fome sem pânico
já é sinal de manicômio à vista.

o caos que se apresenta é como
um bolo de chocolate
no paladar da tua oferenda.

nada a dizer,
cansado de escutar,
um amor apenas.

com uma pedra acaricias
a nuca do teu destino.
é preciso estar
de olhos bem abertos
quando se perde a visão.

mas não tem agora tirésias
no refugo do tempo escasso.
cada um de nós andará sozinho
com cada um de nós no bolso.
inventaremos novos códigos,
talvez o fascismo ainda tenha
algo incrível a nos ensinar.
até aqui carregaste contigo
uma hiena no peito e apresentas
todos os membros completos:
precisa ser suficiente por ora.

delicadamente tu levarás o tombo
sem poder ser ainda um especialista.
fará girar com muitos outros a corrente
lubrificada com sangue quente e fezes
de poucas grandes famílias louvadas.

é preciso, com ternura, comer as fezes,
dirão em breve, haveremos de tampar
os narizes e, fanhos, cantar outra vez
a fraternidade entre os seres humanos,
a boca sem feiúra da fome aniquilada.   

29.10.18

“surgirá a flor”



as mãos já não alcançam o desejo, o seio do problema
tornou-se um câncer bonito do qual se orgulhar.
depois de tantos anos erguendo a taça do riso fácil
esquecemo-nos de que na taça pode haver veneno
e que o ressentimento é um veneno que se toma
querendo que o outro morra – agora aprenderemos.

será talvez preciso enfiar uma pá em nossas idéias,
trazer a estima por deus no braço aberto da carne.
seremos chamados de loucos, nos sentiremos loucos,
e dessa brutalidade surgirá a flor do câncer bonito,
brotará de nossa loucura uma alavanca para o afeto
pois quem nos chama de loucos já não tem mais nada.

21.10.18

“comunista fdp”


aposenta aqui tua pena que te esqueceu
e mesmo as palavras que usarás agora
não dizem nada e nunca disseram muito.

resvala a língua no cinza brutal da seca
com que te proteges de um mundo ruim
por entre as chances pálidas de um vulto.

sorri ereto a fórmula que te abandona,
fecha os olhos e sente tuas veias fracas.

agora amas e precisas aprender a morrer.

talvez agora seja preciso usar a força,
então faz a prece íntima da tua dúvida,
corre até o abraço do impossível degelo.

é tempo de sorrir aos pálidos pela cor
que o futuro retirou de ti antes mesmo
de poder asfixiar o presente com táticas.

que gelada é a planície do teu afeto, qual
cataclismo implodirá tua face no vácuo
coletivo de todos os planos do mundo?

o vermelho escolhe sempre qual a cor
do sacrifício na escuridão de uma vitória,
quando cada um goza sozinho o que vem
depois bater à porta em cobrança de paz.

quanto não te custou, surda, a paz da tua
autocelebração doentia agora que já vais
pelo ralo com todas as tuas promessas?

na sombra dos dias felizes de flagelo
inchava o monstro vestido de solidão.
o vermelho do teu martírio no adesivo
em busca de um porrete ou um abraço.

aperta o teu melhor sorriso e deseja isso,
que apertes até o fim teu melhor sorriso,
na jaula temporária do teu maior medo.

8.10.18

“wagner tiso e a ascensão do fascismo em hell de janeira”


e ainda assim não seria melhor se não soubéssemos.
certas vitórias se comemoram melhor em silêncio.
isso sou eu falando para mim mesmo me despedindo
com os olhos ruins de outros companheiros inéditos
pensando que bom poder reconhecê-los, que alegria
poder estar vestido como eles, triste como todos eles.
nós nunca ganhamos em silêncio, mas, hoje, em silêncio,
ganhamos uns aos outros, nos olhamos pela primeira vez.

por exemplo: a livraria está vazia, toca jazz de elevador.
entra então, cabisbaixo, de camisa vermelha, wagner tiso.
sobe as escadas, parece ofegante, até o café, atira-se ali.
e, dentro da desgraça, pela primeira vez dentro do gesto,
eu sou igual a wagner tiso, isso me dá felicidade triste –
sou mestre nos enlaces da felicidade triste, como a chamo.

corro até o som central da livraria, adeus jazz de elevador!
nunca mais ouvirei uma música que não tenha o sangue
de todos os corações tristes do mundo e mudo a música,
ponho milton nascimento, que canta eu sou da américa
do sul, eu sei vocês não vão saber, e eu acho engraçado,
nunca soubemos tanto como é ser daqui – wagner pede
uma taça de vinho, a música não parece ter feito grande
efeito, ele bate timidamente o pé, no ritmo certo, como
quem parece dizer claramente: o wagner tiso agradece.
então vejo os mesmos olhos de todos os meus amigos
e também de todos os que não são ainda meus amigos,
mas, pensem bem, camaradas, essa pode ser a chance
de sermos finalmente camaradas mais que fantasmas
de causas particulares nos armários da nossa frustração.

depois pus milagre dos peixes e depois clube da esquina.
depois escrevi para um amigo mineiro: acho que estou
vendo wagner tiso chorando enquanto o mundo acaba.
então isso quer dizer que o mundo ainda não acabou,
diz o meu amigo ou sou apenas eu mais outra vez
falando coisas para mim mesmo, o mais provável
é que ele nem mesmo estivesse chorando de raiva,
mas talvez de nós quase termos conseguido – ouça –
mas tudo escorreu na vaidade do umbigo afetuoso.

então wagner tiso finalmente se levanta para ir embora,
corro para a porta como se eu mesmo estivesse partindo.
ele passa por mim cabisbaixo como entrou, eu penso:
levante a cabeça, maestro, o mundo ainda não acabou.
mas não falo e isso sou eu – será daqui em diante assim?
dizendo a mim mesmo o diálogo que poderia nos salvar.


6.10.18

“à espera de um milagre”


você precisa agora se disfarçar de alguma coisa,
não porque você seja falso, talvez um pouco pernóstico,
mas porque você não sabe o que deveria fazer,
essa coisa em movimento amedrontado que é você não sabe
e mais uma vez o mundo está acabando e todo mundo
se recolhe e explode por dentro: é o fim eles dizem
e você precisa de alguma forma se disfarçar,
porque você não sabe quem é e isso é muito grave,
pessoas muito próximas que entram e saem parecem
saber exatamente ou pelo menos mais que você
sobre o que é ser alguém sem nenhum disfarce.

mas aqui está você mais uma vez à sombra do vulcão,
você não engana como groucho marx ou fassbinder,
talvez as pessoas outras tampouco saibam bem
o que é que acontece quando se perde a imagem
capaz de ultrapassar o mundo para dentro de cada um,
que é cada um na solidão invencível das multidões.

mosquitos saudáveis gostam muito do teu sangue,
disfarça tua medusa no incêndio do teu passado,
escreve o texto e dorme porque na rara manhã
você carrega livros impossíveis dentro da cabeça
e se disfarça daquilo que só existe para não te salvar.

3.9.18

“museu histórico nacional / setembro de 2018”



contra todos os fogos, o fogo
azul de nossas veias falidas.
porque somos todos museus
em chamas, crânios antigos.
não antes a vergonha solitária
de escrever em vez de chorar.
a cidade ainda é mais bonita
do que as nossas entranhas.
não existe estado, tudo é um
espelho do que levamos aqui
a cada lance de cabeça triste
no egoísmo de tão serena bílis.
aqui nossa boa falência, fizemos
um fiasco de uma invenção ideal
para uma espécie melhor que nós.
mais triste que a história em chamas
é a incapacidade que vamos adquirindo
de rezar virtualmente uma velhacaria
enquanto juntos nos comemos vivos.





26.8.18

"debaixo estou eu alejandra"




faço as pazes com a falha,
teu olho cinza me acalma
dentro do inferno de ferro
que sobrevoa nossos dias.

fugiste pelo mundo, deste
tantas voltas – fiquei aqui.
a mil por hora tu dormiste,
sentada e triste no poema.

eu olho para tua tristeza,
engulo tua voz madrasta
que range feito essa porta
que se abre para o exílio.

é tua a tristeza mais linda,
ficas linda assim horrível.
não me admira tu teres
levado isso tão a serio.

eu também teria amado
a morte, erguido os olhos
para as rachaduras nítidas
na harpa do riso mortal.

amanheço calmo de ti,
tua carne barbitúrica
arremete em todo lugar
contra meus sonhos.

alheia à dor do mundo
entraste no teu buraco
com brios cossacos
na voragem do luto.

te aceito aqui bem morta
como um anjo cinza.
teu sexo feito a mão
sobre o rosto sem traços.

verde úmido de bosta antiga:
húmus ereto do meu descaso.
gongo infantil, cocktail mental;
fantasmas em doce ereção.








18.8.18

“quando começamos”



quantas vezes não pensei em ti
antes de conseguir começar o que pensei e era:
eu preciso começar imediatamente
os tempos estão soturnos não há brecha
veja o labirinto não tem saída
amigos eu gostaria de ajudá-los
eu gostaria que me ajudassem
eu preciso desesperadamente
entender eu não tenho forças
para ser eu mesmo nem pensar
uma dose um tiro um tapa você
precisa mudar e parar de pensar
em mudar quantas vezes mesmo hoje
se contarmos apenas hoje foram já
muitas vezes eu não mereço tudo isso
eu preciso de mais ou pelo menos alguma coisa
porque não tenho nada e com nada vim
sem nada sairei e do nada vim e para o nada voltarei
ok então o amor esse atraso de maturidade
mas o que é isso rapaz sem essa ideia
não se começa nada então comecemos por
amor meu escudo minha espada meu maior medo
quando surge quando some quando empilha
que impede de começar e
quantas vezes não pensei em ti
antes de começar a pensar
em como seria começar por ti
a partir de ti reverter minha história
quebrar o muro do labirinto estar nu
diante do pensamento que diz é preciso começar
não  posso começar a pensar em começar é o fim
se começar e aqui vamos nós outra vez se começar
púrpuras repetições em volta do pescoço se começar
mas ah meu bem começar como é bom começar
e parar de pensar as mil vezes sobre quando e como começar
se a partir de ti ou inventar tudo antes mesmo de ti
e mil vezes dentro de ti me enganar e começar
sem pensar a inventar dentro de mim
o que se começasse nunca mais teria fim.

15.8.18

“poema limpo”


abandonado de idéias é possível que se veja
a espessura lisa de uma identidade rasgada em tiras
as máquinas flácidas das emoções de aleijão
quando as sirenes penetram o fígado
e os cascos pisam fundo uma esteira mecânica
de acertos velhos e impossíveis conveniências
                                             eu quero também voltar a morrer
– sentir de novo aquele gosto cinza –
e sei que não posso e não irei mas resvala
em meus sentidos essa paixão pelo medo
que me deixa mudo sempre diante
de qualquer inteligência boquiaberta e talvez fosse
impossível não fosse esse cabresto de ouro
vaga colisão de ambivalências controláveis
em suicídio lento cheio de esperanças
de um vulto maravilhoso às quatro da manhã

armas químicas de madrigais
               no inferno seco dos neurônios
a solidão ímpar da burrice
              o freio invencível do escárnio

na derrapagem de um enigma que se esparrama
naquilo que vai morrer de tanto se acertar
e periga não haver mais idéias genuínas
é o que dizem somos dantes sem dentes
numa irrupção de egos sub-cômica
em festas regadas a tinta guache
em nossas almas violadas de silêncios
                                                          intransponíveis
dos quais rimos entre nós sempre nas vezes
em que chove muito e ficamos ilhados
então não podemos desesperar a fuga
esse amor entre estranhos
                                              vendados que decidem pelas mãos
porque é preciso ao menos dois para não saber nada
entanto as palavras fogem pelo corrimão dos milagres forçados
a tolice mansa senta-se no trono de um adeus que falta
em vibrar nos bolsos do casaco de poeta
                       do qual se diz: é um casaco de mendigo

raspas de compreensão nas sobras do almoço sobre a mesa
chegaste ao ponto de ter uma mesa e isso te envergonha
no ritmo do milagre também é tua a derrapagem
nos lugares escuros que ainda amas e que te fizeram
miséria preciosa de uma terrível humilhação
nas caneletas do medo escoar a água das montanhas
aquelas mesmas da queda infinita e sem cura
e juntas as mãos se apóiam em fé reversa
já não está em seu domínio a nova semelhança
as luzes brilham mas as mãos não alcançam
no pudim do tempo senta bunda sadia mas tu
como pedinte tens a elegância de um deus ruim.