23.3.22

"pomar de morangos"

 

joelhos são grandes traidores,

foram feitos para durarem,

pelo menos entre humanos,

não mais de quarenta anos.

 

minha mãe morreu bem cedo,

de câncer no cólon do intestino,

acho que era esse o nome dele,

mas prometi a mim mesmo que

jamais tiraria a prova do nome.

 

quando fiz trinta e seis anos,

idade em que se foi minha mãe,

minha médica, que sabe bem

como minha mãe morreu,

olhou para mim e me disse:

você está na idade do câncer.

 

não achei muito delicado,

nem tampouco auspicioso,

mas achei muito engraçado

que exista idade para tudo.

 

então examinei, como indicado,

o cólon do meu intestino grosso,

enquanto pensava num intestino

que estivesse bastante injuriado,

reclamando de tudo à sua volta,

sendo grosseiro com as pessoas;

na hora aquilo me deixou calmo.

 

mas mesmo que eu estivesse

na idade ideal para o câncer,

o cólon do intestino grosso –

ah, minha mãe, ai de mim! –

era um pomar de morangos.

 

foi o que disse a doutora,

enquanto eu saía de maca

achando tudo engraçado

porque estava sob efeito

da anestesia e aquilo era

o que sonhei a vida toda

como o pico do prazer e

também uma boa notícia

e todas as vezes que corri

atrás disso me drogando,

não cheguei perto dessa

vontade de levar comigo

meu pomar de morangos

guardado no meu coração.


mas sobre meus joelhos,

naquela época tão antiga,

eu jamais havia pensado.

 

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