12.8.18

“no dia dos pais”



você desaparece para sempre
a cada encontro desde sempre.
essas curvas a que damos nomes
de pessoas, cidades, continentes,
desaparecem na borracha quente
dos afetos, do que segue entrando e saindo,
deixando para trás a culpa
de não ter sido muito porque não foi possível
ser de uma vez tudo que era possível ser.

não se pode querer o que é dado:
o desejo extermina o mérito.
fomos dados um para o outro,
nascemos um para o outro por isso,
para estarmos disponíveis,
ainda que às vezes mortificados,
um para o outro a toda hora.

outra vez não fiz o que você pediu,
não esperei a poeira do caos baixar,
não contei dias, não pude ser muito.
eu nunca fiz o que você pediu e veja,
aqui estamos nós dois mais uma vez.

de certa forma, te ouvir, como sempre,
mesmo quando nunca houve uma saída,
me ajudou a ganhar um pouco de tempo.

aqui em casa, agora, os gatos dormem,
eles dormem de dia e azucrinam à noite,
estou ouvindo leonard cohen, porque ele
sempre me lembra você, veja você, toda
aquela alfaiataria judaica super-chique,
e mesmo assim ele me faz pensar em ti.

os gatos dormem a tarde toda, mais ainda
quando ponho essas músicas com violino,
e meu amor está em ti porque eu vim dele.
logo mais almoçaremos desatentos juntos,
as pazes refeitas porque se pode abraçar,
e pensaremos um no outro mais uma vez
sem nos dar conta de que esse pensar agudo
e bastante estupefato um no outro é a força
do sangue na passagem perigosa do segredo.


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