4.5.07

"Tão triste quanto um prelúdio de Claude Debussy"

Estou doente do coração. Mas não são apenas palpitações arrítmicas, é uma explosão repentina que de repente pára. E quando pára o mundo fica escuro. E isso tudo é tão banal que eu não posso parar de pensar no assunto. Mãos e bons-votos de sabedoria estão por toda parte: existe bondade numa flor amassada no asfalto. Mas o que procuro debaixo dos tapetes? Disseram que era uma felicidade difícil, mas eu sou tão fácil que tenho medo de dizer “vamos juntos”. Porque me disseram que era uma felicidade difícil, então passei a desconfiar das palavras. E meu coração adoece: pobre membro supervalorizado, escravista de veias e mitos. É chegada a hora fúnebre, onde amigos já não são cavernas tranqüilas, e a dor já não muda de freqüência, e de repente me pego dizendo “deus, por que te neguei tantas vezes?”. E o dia está mesmo tão propício. Tudo parece sufocado. Por que fui ler Clarice Lispector? E mesmo as coisas coloridas estão murchas, como se estivessem enjoadas após uma série de abortos diários. Tudo de repente – enquanto tento rasgar meu peito – ruma para o mesmo lugar. E é essa coisa truculenta, maciça, é essa unidade de constatação, que chamei felicidade difícil. E pensando nisso, deito a mão no meu coração, peço calma, peço com delicadeza dessa vez, aceito a derrota. Mas ele não pára nunca, e está doente. Ele não pára nunca, está vendado, lhe amassaram as plaquetas do mistério, confiscaram o vulto secreto da sua mão veludosa que protege a todos e desfalece quando não há perdão. Desejei a tudo amargamente, e num castelo de ouro cercado de uivos fiz a cama do meu precipício. Vejo agora a fumaça que sai da minha boca, tão desordenada que nunca varia. E eu, sempre tão ordenado, sempre tão inalcançável – só depois da felicidade difícil – grito a mim mesmo coisas que não vêm dos homens. Coisas que eu mesmo não entendo, e não é minha própria voz, e dizem alguns que a voz muda de tom antes de morrermos ou virarmos santos, mas não sou ambicioso. Onde foi todo mundo? Não, Silvia, o gás não será aberto. Eu fujo de mim mesmo passo a passo – esse inatingível clichê – para dentro de mulheres que nunca conheci, em cujos olhos procuro o que nunca foi tocado, mas agora me observa como olhos vermelhos numa floresta escura. Eu sou aquele que foi sempre demitido, mesmo que nunca tivesse tido um emprego.

6 comentários:

cristiano fagundes disse...

Fala, biba!
meu caro, que putas saudades de você! Não desvalorize esse seu membro tão nobre...o coração...
Como vai o trabái?
Por aqui cheio de novidades e iniciativas...encontremo-nos!
Meu celular foi pro cacete, estou esperando um novo, mas o fixo continua fixo, combinemos um porre em qualquer dia desses,
abrações,

peixe disse...

nem todo mundo sabe dar beijo no asfalto

dani disse...

quando eu leio teus textos como esse eu fico morrendo de vontade de viver a vida que eu não vivo. ou que eu vivo sem querer viver e quando te leio quis ter vivido o que vivi sem querer, e então eu vou viver sim, eu vou viver, quando meu coração parar, eu vou explodir.

leonardo marona disse...

dani, querida, sempre me emociona qualquer comentário teu. talvez porque eu os entenda uma metade, e a outra eu invente. talvez porque revela-se um espírito em chamas. talvez porque simplesmente eles parecem verdadeiros e entranhados de sentimento e urgência. isso, viva. queime lindamente no ar. só não fique muito longe.

ju, adorei a festa, a praia, não ia há séculos, foi muito bom tudo, inclusive o chocolate que peguei nas Lojas Americanas, enquanto sua amiga experimentava sutiãs e vc comia pastilhas garoto. me ligue sempre que estiver por aqui.

e vc, cris, depois me diz se os caras lá do RSF, os Mohammeds, se eles conseguiram a extradição. eu fui no site. tu sabe minha hora de puta, como é. mas se topar um dia almoçar por aqui pelo bairro - é bem agradável e às vezes passa um vento morno - vc sabe como me encontrar. ligue e apareça, vai ser legal. precisava da tua opinião num assunto. então eu te ligo na semana nova.

beijos a todos, no asfalto.

Anônimo disse...

seu texto tá muito bom, Leo.
vc tá escrevendo cada vez melhor. se cuida. gosto de vc pra caralho.
alvaro

Anônimo disse...

pq eu gosto tanto de vc?? pq vc faz bem?? deve ser por isso...
seus textos me fazem viver.