18.9.05

"Conhaque, Bukowski e a Mulher-Lobinho"

1. Morte e Danton

No final da peça Ele não sabia quem era Danton. Saiu um tanto confuso, pensando: “uma hora Danton é covarde... Outra hora é um bêbado... Depois vira uma puta! Outras três putas: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Então, de repente, Danton é um sujeito que diz: ‘hoje estive sentado na pedra do Arpoador fumando um cigarro. Fiquei ali olhando o mar... Pensei que eu não era nem uma gota daquele mar... E quantas gotas tem o mar! E eu me acho tão importante, tão importante... vocês não imaginam o quanto... Nossa que papo ridículo’”. E esse foi o fim da morte de Danton. O começo do movimento da classe artística pelas veias venenosas do teatro do Sesc, Copacabana. Mulheres com muita maquiagem e pouca cor, mais a intensidade dos confusos e nenhum parafuso no lugar certo, o que, parece, sempre serviu às artes e aos psiquiatras para passarem as férias em Positano, bebendo bebidas fumacentas e ouvindo calipso. Mulheres para você se casar com elas e morrer dignamente, diariamente: embriagado, sentado, tendo tido (ou sonhado com) um ataque cardíaco na sua sacada de frente pro mar – numa mão um bilhete de despedida, “simplesmente não agüentei mais... boa sorte” – no apartamento, centro da sala, mais nenhum móvel, apenas uma muda de roupa – na outra mão uma rosa partida – sangue de festim que escorre pelo tapete de corda trançada e isso era tudo o que Ele conseguia pensar olhando aqueles rostos sorridentes que falavam sem parar de inventar emoções para um domingo meio sábado, enquanto subia as escadas do subsolo para o submundo, que apesar de sub, está no nível do mar.

2. Noite de sexta-feira

A rua parecia um cenário mal desmontado. As pessoas não andavam, pareciam escorregar pelas ruas, se escondiam de alguma coisa. Havia homens vendendo lingüiças fritas e corações de galinha feitos na brasa de uma lata de óleo. Não havia sorrisos nos rostos de mais ninguém. Ele e Ela saíram do teatro para a rua e viram que o mundo de verdade era preto e branco, não menos bonito por isso, nem menos complexo, apenas tinha menos cores, as outras fomos nós que inventamos e parece que até hoje insistimos na mesma invenção. Sentaram-se para comer num restaurante mexicano, com uma “comida leve”, segundo Ela, o que a Ele pareceu uma contradição em termos, e ao seu estômago mais ainda. Ela pediu tacos com carne de sol e tomates picados embebidos em azeite. Ele pediu uma cerveja já que uma salvação seria cara demais. Uma amiga estava numa mesa ao lado e acabaram se juntando, os três. A amiga não tinha nada dentro dos olhos. Nem tristeza nem alegria. Nem uma pista. Seus ombros formavam um cabide torto numa armação de metal. Bufava sem parar e acendia um cigarro no outro. Um sujeito tocava Djavan num violão e uma platéia apática devorava seus tacos e suas vidas enquanto ria e olhava para baixo, ou para muitos lugares sem enxergar nenhum.

- Parece que arrancaram o saco desse cara! – disse Ele irritado, batendo a lata de cerveja na mesa e esticando o pescoço, referindo-se ao sujeito que tocava Djavan.

- Estou exausta... Vou pra casa – emendou a amiga entediada.

- Não quer ir dançar com a gente? – disse Ela. – A gente vai no Bukowski.

- O que é isso – disse a amiga como se de fato não fizesse questão nenhuma de saber.

- Uma bodega que toca rock antigo – disse Ela.

Ele ficou pensando como era triste um sujeito que, depois de escrever alguns livros e morrer de leucemia, se torna símbolo de tudo aquilo que mais desprezou em vida.

- Não gosto de bodegas – disse a amiga.

- Você precisa de uma pica, eu acho – disse Ele batendo a lata na mesa ao som de “Flor de Liz”.

- E você precisa de uns tapas – disse a amiga jogando uns trocados na mesa e erguendo-se bruscamente, de modo que tropeçou e caiu de joelhos.

Ela tentou levantá-la mas levou um tapa na cara. “Ei!”, gritou, “o que eu te fiz, cacete?!”. A amiga apenas olhou para os lados, ficou parada um tempo, depois saiu assustada, na mesma hora em que o sujeito que tocava Djavan fez uma pausa para um gargarejo. Ele riu e pagou o que faltava da conta. “Vamos fazer uma pequena pausa agora”, disse o sujeito do violão.

3. Conhaque


Ela tinha na bolsa um cigarro que ainda era ilegal, apesar de todo mundo usar e movimentar a maior parte da economia mundial, que também é ilegal assim como o cigarro, apesar de todo mundo usar também para movimentar suas contas poderosas nas Bahamas e suas instituições filantrópicas no Nepal, que também são ilegais, e poderíamos ficar a noite toda nessa lengalenga até chegar a conclusão de que o ser humano era ilegal e, por conseqüência, também eram as suas leis. Eles decidiram que fumariam metade do cigarro no caminho e outra metade lá dentro do bar. Era uma e meia da manhã. Os olhos não permitiam que o mundo fosse bonito. Caixas empilhadas nas ruas. Mendigos se coçando debaixo de trapos. Grunhidos dos infernos vindo dos cantos mais escuros. O barulho distante mas constante dos ratos mastigando as sobras do mundo. Sacos de lixo virados. Gatos que jamais perdem a classe, mesmo famintos. Fiapos de macarrão. Líquidos escuros, pastosos, pessoas espalhadas pelo chão cheirando cola. Ninguém tem nada a oferecer. Ninguém se olha. Olham por cima dos ombros, para cima, todos precisam de tempo para amar. O problema é que o tempo exige amor demais para que você aprecie seu efeito físico. Pararam na porta de um bar chamado “Bar Virgem Santa”. “Uma virgem que fode os pecadores”, Ele pensou, mas disse “que merda, está fechado”. De fato, a grade estava puxada até em cima. Sobravam para os olhos apenas um espaço aberto de luz, por onde via-se um grande tapete de carne arenosa, pendurado por dois ganchos no teto, e uma fileira de garrafas de vidro com um líquido transparente, em cujo rótulo lia-se “licor de alcaçuz”, em cima de uma prateleira remendada com esparadrapos. Vozes falavam em algum dialeto incompreensível dentro do bar. Ela se aproximou da grade e deu três batidinhas no aço com a mão. As vozes pararam lá dentro.

- Vocês ainda podem vender um conhaque? – disse Ela

- Quem é? – perguntou uma voz.

- Marisa – disse Ela. – Duas doses de Domecq, por favor – e estendeu uma nota de cinco reais na ponta dos pés.

- É três e cinqüenta a dose, Danuza – retorquiu a voz de dentro do bar. Risadinhas.

Ele entregou mais dois reais a Ela, que novamente se esticou para alcançar o espaço aberto da grade, dizendo: “Marisa...”. Duas mãos passaram dois copos de plástico cheios até a metade com um líquido cor de ferrugem, que também calhava ter gosto de ferrugem envelhecida em álcool de cozinha. Eles brindaram antes de beber, mas isso não melhorou o gosto do líquido. Na frente do Bar Bukowski, um homem muito magro, já bem calvo, muito curvado e amarelo, entrava no seu jipe Pajero acompanhado de uma loira imensa, com uns três membros originais dentro do corpo. “Pajero é carro de quem tem pau pequeno”, ele falou e deu um gole, no que precisou enrugar o cenho.

4. Intimidade

Ele falava para Ela sobre a amiga entediada que tinha se sentado com eles no mexicano.

- Isso é muito estranho. Num dia você chupa o cu da mulher. No outro ela te trata cheia de formalidade... O que é a intimidade?

- É isso...

- Isso o quê?

- Você dizer esses absurdos e eu ter que ouvir. Isso é intimidade.

Brindaram. Como os copos eram de plástico, fizeram um barulho meio plect quando se chocaram e um deles rachou.

5. Crianças

Na porta do bar estavam dois seguranças, ambos massas exageradas e quadradas, um de bigode e sem cabelo, outro de cabelo e sem bigode, os dois com os pés escorados, cada um de um lado, com as mãos enfiadas nos bolsos. Ele e Ela observavam um pouco afastados, ouvindo as músicas que tocavam lá dentro, nada muito prometedor: Franz Ferdinand, Blur, Cure, Nine Inch Nails, em suma, nada que um velho safado fosse gostar de ouvir. Ele olhou para Ela.

- Essa música é uma merda... Esse DJ é uma merda. Acho que vou me apresentar ao dono quando entrarmos... Posso escolher músicas melhor do que esse cara.

Mais um brutamontes saiu pela porta de entrada e se juntou aos outros dois. Este, um sujeito de camisa preta muito apertada, do tipo que de longe parece forte, mas é pura banha. Um taxista estacionou o carro na frente da entrada e saiu do carro, se juntando aos três. Começou então uma conversa amigável entre os quatro, quando a massa de bigode perguntou ao gordo que pode parecer forte à certa distância se ele já não tinha usado essa mesma camisa preta na noite anterior. O gordo hesitou e os outros imediatamente começam a rir e se bater uns nos peitos dos outros. As risadas eram risadas infantis, do tipo que você não imagina um senhor de bigode dando. Em sua defesa, rindo, o gordo deu um tremendo tapa na nuca da massa de bigode e este olhou para ele com a língua entre os dentes, o segurou pelas duas pernas e os dois foram ao chão, rindo muito, mas vermelhos de trago e de tapa. Os outros dois ficaram assobiando e batendo palmas, enquanto os amigos descarregavam sua energia rolando no chão sujo às 2 da madrugada. Ela olhou para Ele.

- Parecem duas crianças.

- Coloque 4 homens juntos e você tem uma guerra ou muitas risadas – disse Ele. – Coloque 4 idiotas juntos e você tem um jardim de infância ou um manicômio.

6. Mentira

Logo na entrada, Ele e Ela viram que o bar estava vazio e isso sim, parecia bem real. Eles subiram então ao segundo piso e encontraram muitas mesas e cadeiras vazias e uma menina de cabelo laranja sentada com a cara mergulhada numa poça de saliva. No balcão estavam o dono do estabelecimento, um garotão loiro com cara de assustado e as sobrancelhas muito juntas, olhos levemente envesgados, mais a mulher do garotão, uns dez anos mais velha que ele, loira também, sem muito tempero mas com muito decote, os peitos murchos mas uns belos olhos, e com os cabelos engordurados puxados para trás, além de um sujeito já bastante embriagado que se apoiava no balcão com as duas mãos e enfiava a cabeça quase na cara dos seus interlocutores para lhes falar algo sobre a empresa de desodorizadores da qual era sócio-proprietário, e que vinha crescendo no mercado. O sujeito gritava sem necessidade e falava cuspindo. O garotão raramente dizia palavra e, quando dizia, dizia olhando para cima, como um suspiro. A mulher do garotão era com quem um cliente deveria falar e era ela quem conversava sobre desodorizadores com o bêbado. O bêbado tinha um aerosol na mão.

- Bom Ar é concorrente! – gritava. – Vocês tem que usar o Gleid, que é onde trabalho... Esse sim, neutraliza primeiro, depois dá o toque de lavanda, baunilha, flores do campo... Sabe, estamos crescendo no mercado...

Ele pegou o cardápio. Nada era muito barato. Nada como Ele imaginava que seria na Los Angeles dos anos 50. No final do cardápio aparecia escrito: “Para os Bukowskianos”. Ele deu uma checada: “vodca, rum, tequila, conhaque, uísque, vinho e suco de tomate”. Ela chegou perto Dele.

- Nossa! Alguém bebe isso e consegue fica em pé depois?

- Não. É mentira...

7. Coisa Rara

Voltaram ao andar de baixo. Ele se dirigiu ao balcão e Ela foi dançar. No balcão estava um sujeito que sempre esteve ali no balcão. Um sujeito muito forte da cintura para cima, mas com pernas de vareta, o que mostra que na verdade ele não é forte, mas sim um balão moldado. Você mede a força de um homem pelo tamanho do seu antebraço, pela circunferência do seu pescoço e, claro, olhando para suas pernas e para seus olhos. Os muito fortes, normalmente, têm pernas finas e olhos pequenos, porque usam esteróides mas trabalham apenas braços, costas e peitoral, abandonando as pernas às portas da verdade. Era o caso do grandalhão do balcão. No entanto, ele usava uma camisa clara muito colada ao corpo, que dava asfixia só de olhar, além dos cabelos empapados em gel, num topete infame. Em frente a ele havia um casal, no lado externo do balcão. Um outro sujeito do mesmo feitio, bem forte nos braços, ombros e peitoral, portanto, com uma camisa muito apertada, mas mirrado da cintura para baixo, com gel nos cabelos para cima. O que diferenciava o segundo forte do primeiro forte eram apenas duas enormes costeletas. A mulher ao lado do de costeletas era muito bonita, cheirosa, cabelos alisados, brilhosa, sobrancelhas milimétricas, e não havia nada nela que pudesse despertar qualquer interesse, pois não havia nada nela que você já não tivesse se cansado de ver nas revistas. Ainda por cima mascava chiclete de boca aberta e só olhava para cima e para o forte número 1, do lado de dentro do balcão. Ele achou a cena muito estranha: a mulher olhava pro de camisa apertada, dentro do balcão, estando acompanhada pelo de costeletas, do lado de fora, enquanto que o de costeletas também olhava pro de camisa apertada no lado de dentro do balcão, falando um com o outro com muita intimidade. Ele reparou que o do lado de dentro alisava com os dedos discretamente o braço do sujeito acompanhado pela mulher perfeita e sem graça. A mulher tentava seduzir o do lado de dentro, porque isso era mais arriscado, afinal não era o seu homem, mas este, por sua vez, não dava a menor trela. Então ela tentava seduzir seu próprio homem, o que não tinha lá muita graça, mas era mais certo. Entretanto, ele também não dava a menor trela e continuava conversando e sendo alisado pelo de camisa apertada por detrás do balcão. O mais ridículo era que os dois faziam isso tudo de maneira muito séria e máscula, num estilo YMCA defasado, ou seja, eram bibas mas não podiam afrescalhar. Ele concluiu que era raro dois homens conseguirem enganar uma mulher daquela maneira descarada, mas depois viu que aquela não era uma mulher em que se pudesse basear para nada.

8. Mulher-Lobinho

No meio da noite, depois de algumas caipirinhas quentes, feitas por um sujeito que já tinha saído no tapa com dois clientes naquela noite, Ele se perdeu Dela e ficou encostado na parede, flertando. A clientela era composta basicamente por bêbados retirados dos contos do escritor que dava nome ao bar, bichas enrustidas, sapatas assumidas, e era basicamente isso mesmo. O bar já tinha enchido e rapidamente, de modo que não demorou muito para que uma menina se encostasse ao seu lado, com uma cerveja na mão. Ele a olhou rapidamente, mas naquela escuridão qualquer olhar seria um erro analítico. Ficaram assim, virados para frente, mamando suas latas de cerveja, encostados na parede. Uma hora a lata Dele terminou, então Ele a jogou no chão e a amassou com a sola do pé. A menina prontamente lhe entregou sua lata, sem dizer nada, e continuou olhando para frente como um boneco de marionete japonês. Ele deu um grande gole na cerveja e se virou para ela, que não olhou para Ele. Tinha os cabelos escuros e lambidos, usava um vestido meio fora de estação e um chapeuzinho desses de festa de aniversário para crianças, feito de cartolina, com uma língua de sogra na boca. Parecia resignada ou completamente biruta, ou os dois, combinação bastante comum. Ele achava que beberia a lata inteira sem que ela desse por nada quando, de repente, ela o pegou pela mão e o arrastou até o balcão do bar. Chegando ali, se virou para Ele e lhe deu um beijo na boca, muito melado e com cheiro de vômito velho. Não se olharam imediatamente depois.

- É seu aniversário – Ele perguntou depois de um minuto ou dois sem falarem nada.

- Um amigo...

- E então, você vai fazer alguma coisa daqui? Não parece que tá se divertindo muito...

- Na verdade não vim pelo aniversário. Vim porque queria comer alguém.

Ele sorriu. A menina parecia decidida, apesar de indisposta. Então viu através da luz de néon do balcão do bar que ela tinha as gengivas muito grossas, lhe cobrindo os dentes. Servia de qualquer forma.

- Serve eu? – disse Ele.

- Claro – disse ela. E foram para casa dele.

Quando deitaram na cama, ela parecia desacordada. Ele já tinha achado estranho seu comportamento no caminho, parando de posto de gasolina em posto de gasolina “para fazer pipi” e voltando com uma nova garrafa de cerveja. Fumava demais. Viu que era gorda como um pernil. Não havia mais o que fazer a não ser continuar em frente e terminar o mais rápido possível, de preferência sem escoriações. Mas quando Ele viu toda aquela carne esparramada na sua cama, com os olhos fechados e um sorriso suicida, pensou “onde diabos fui me meter”, então viu que era seu próprio quarto, apesar de não reconhecê-lo imediatamente. As paredes dançavam. Ou talvez fosse sua cabeça. A menina não cheirava nada bem, reparou. Nem sabia muito bem o que fazer. Apenas permanecia esparramada com os olhos fechados e aquele barrigão fofo para cima. Arrancou o vestido da moça com certa violência, para ver se isso estimulava nela qualquer reação voluntária. Nada aconteceu. Passou então à calcinha, uma rede de pescar caranguejos. Mãe de todos os deuses, o cheiro que sentiu! Sempre pensando que não havia o que fazer a não ser seguir em frente, arriou a calcinha, prendeu a respiração e deu de cara com um absorvente coagulado de sangue. Foi quando a menina deu por si e puxou com muita força a calcinha de volta até a cintura.

- Você devia ter me dito – Ele disse. – Mas não tem problema.

- EU é que sei se tem ou não tem problema – ela disse num tom professoral, ou de uma puta cara.

- Tudo bem... Deixa eu ver... Você joga gamão?

Foi então que ela começou a chorar e a chutar a cama, com as perninhas roliças soltas no ar. Ele a segurou com força e ela parou, mas seus olhos continuaram como se fossem independentes do resto do corpo.

- Ei, era uma brincadeira... Se acalma aí!

Imediatamente ela ficou carinhosa, mas de forma pouco convencional, de modo que se grudou ao corpo Dele, lhe entrelaçou as costas com as pernas numa chave e quase lhe arrancou a orelha com os dentes. Talvez porque estivesse muito bêbado, Ele ficou excitado. Abriu as pernas da mulher e arrancou sua calcinha com força. Foi quando tudo ficou escuro e apenas se ouviam os murmúrios de choro da mulher: um choro de humilhação. Tentando não se abalar com aquilo, apesar de já bastante nauseado, Ele começou a apalpar a buceta dela, mas não encontrou nenhum espaço para entrar ali. “Então era isso o tempo todo”, Ele pensou. Os pêlos muito negros e enrolados da buceta se ligavam aos da virilha e cheiravam muito mal, esquecidos pelo tempo em desuso. Depois de alguns minutos com a mão ali, finalmente encontrou os grandes lábios que, como reparou, eram grandes mesmo. Mas a essa altura já estava com o pau flácido como uma centopéia. Dormiu sobre a mulher. Acordou no dia seguinte, com o pai da moça aos gritos no telefone celular. “Pai... Não, pai! Pai... Eu tô aqui na Cíntia, pai”, dizia a moça, com um sorriso desesperado. “VOCÊ NÃO MINTA PARA MIM!”, gritava o pai do outro lado, com a voz parecida com a de um âncora de telejornal. Ao fundo ainda era possível ouvir os berros da mãe, que chorava muito alto com a voz esganiçada. “Então é dali que vem esse choro insuportável”, Ele pensou calado. “EU LIGUEI PRA CÍNTIA JÁ... E JÁ LIGUEI PRO IML INCLUSIVE, VOCÊ SABIA?! E O QUE PENSA VOCÊ DISSO?”, disse o pai sem deixá-la responder. A cama estava molhada e o cheiro lembrava morte, mesmo que Ele não soubesse como poderia fazer tal associação, já que nunca havia morrido. Depois de desligar o telefone, Ele acompanhou a moça até o elevador. O elevador chegou e Ele lhe deu um beijo na testa, como querendo dizer “tudo bem, não se preocupe”. Ela entendeu o recado e soltou mais algumas lágrimas, como querendo dizer “perdão”.
Semanas depois, Ele cruzou com a mulher num bar, acompanhada de várias amigas. Olhou para ela mas, antes que pudesse acenar, ela virou a cara e saiu de lado, puxando as amigas, que riam como maritacas no cio. Mais um caso de amor desperdiçado... E Ele ficou contando palitos de dente e pensando no caso e no amor – nada lhe vindo à cabeça a não ser o desperdício das vidas solitárias – enquanto pedia mais uma dose barata de morte líquida e reciclável.

5 comentários:

Anônimo disse...

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HISTÓRIAS HILÁRIAS!
COMO RENDE UMAS IDAS AO BUKOWISK, NÃO?

luiz disse...

muito foda leo leo, principalmente o intimidade. esse parágrafo final eu também achei do caralho.