11.4.10

“rasguei a testa quando fui ao banheiro”

chego como quem chega da guerra,
a testa aberta em vermelho explícito
demonstra que se apanha e bate-se,
e é mais ou menos o que resta, fora
a intrépida vontade de se fazer fogo,
e como não há fogo, há chuva, sento
no parapeito da ternura em chamas,
e devo então me embrutecer porque
os ferimentos não são meus, e sem
ternura me agarro à falha milimétrica,
seguro junto ao peito o erro plácido,
me agarro, na casa vazia, às gaiolas
sem pássaros, abertas, enferrujadas,
e não tenho mais os prantos externos,
estou sem divisa tanto quanto carente
da divisa preciosa que se fará farelo,
estou salgado por dentro, os punhos
estão cegos à procura de uma parede,
estou sem música, sem luz, estou só,
sem os movimentos teatrais repletos
de mentira e ódio e amor e safenas,
sem a fricção delicada entre corpos
que não sabem porque seguir acima,
mas seguem porque parados nada
subirá mais uma vez como bomba,
e preciso dessa bomba como aquele
que sabe que, mesmo não querendo,
perderá as pernas, portanto, finca
firme o pé supérfluo na direção crua
do tempo duro no qual as granadas
são apertos de mãos sem malícia,
e devo sentar sob a nona sinfonia
com guelras em vez de estômago,
apenas chuvas e destroços, e nós
não estamos mais ali, não há nós
frágeis a ponto de serem perfeitos.

sobrarão olhos diante das fêmeas
que não vamos jamais tocar e que
nos fazem gritar por nossas mães
em sonho, e nos trazem trêmulos
de volta ao útero seco da primeira
virgem nua que fazemos em reza,
fecundada por uma paz reticente.

Um comentário:

Eduardo H. Arjuna disse...

angústia...de que? por que?...belo e confuso como toda busca por si.