29.8.08

"uma cena como outra qualquer"

É só dobrar a Marquês de Olinda com os pelos do braço eriçados porque você está ouvindo Nick Drake cantando what would happen in the morning whem the world it get so crowded that you can’t look out the window in the morning e isso te emociona de uma forma patética então o peito infla, os pés parecem muitos, mas basta dobrar e olhar para debaixo do viaduto que você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer de cada dia num lugar onde estão todos à espreita, prontos para correr ou te enfiar uma faca pelas costas, e basta olhar, não com muita atenção, para o viaduto em frente à saudosa Rua Marquês de Olinda, provavelmente em homenagem a um saudoso vigarista, e você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer, roupas gastas balançando ao vento sobre pedaços de coisas ainda misteriosas e cerca de oito meninas de rua, já acima dos seus quinze anos e com corpos fortes como os daquele tipo de cão de corrida, você verá cerca de oito dessas meninas sem a moral ainda muito bem definida cheirando cola de sapateiro e rindo enquanto outras duas se dão socos aleatoriamente, como numa rinha de galo – algumas já sem forças, mas ainda bondosas, tentam apartar a briga e têm igualmente os cabelos repuxados e as cabeças arremessadas ao chão, e de repente outra mulher, puro osso, mais velha, se aproxima e segura uma das meninas-lutadoras pelo braço e não há mais tempo para ver a cena, é preciso seguir em frente quase como um fluxo mecânico, e na seqüência há um policial entediado ouvindo lorotas de um velho vendedor de flores que à noite, discretamente, trafica cocaína a gordas donas de casa, há duas noviças pedindo a fiado um cigarro num boteco e talvez se ouça uma troca de tiros, uma secretária que recebe flores do patrão sodomita, existem homens invisíveis lavando vidros sobre os prédios que se envergonhariam das tramóias que escondem, se pudessem, mas não podemos então seguimos, e estamos atrasados para um compromisso de vida ou morte, ao lado um senhor que teria sido um belíssimo Duque de Winchester raspa freneticamente com uma tampa de garrafa a tampa do esgoto municipal, com uma gana de torcer os dedos e pingar a testa ele raspa olhando fixamente para a inutilidade do seu esforço, ele não tem nenhuma sinfonia para ouvir, amigos com quem debater futilidades da vida comum, ele perdeu os filhos e os netos, ele raspa porque não agüenta mais, e isso não é nada de novo, uma cena como outra qualquer e dois garotos espertos entrando na loja de conveniências para roubar balas de fruta, e eles sabem que podem ser pegos, mas a vida é um velho oeste ilimitado, então resta seguir e tentar absorver o mínimo, uma freira conversando com um bêbado, as flores da tarde ainda não nascidas, mas alguns já velhos demais esperando impávidos por um milagre e eu me sinto velho e uso a mesma calça há oito anos, uma excelente calça, eu penso, e isso me enche de confiança, então se começa a estalar os dedos porque talvez seja aquela música muito bonita que John Lennon fez para o filho life is what happens to you while you’re busy making other plans e aquilo me parece mais uma vez extremamente enigmático, mas não há tempo para mais nada, resta apenas entrar no edifício, desmarcar o compromisso o qual já se perdeu, sentar e escrever sobre algo que já não é mais meu – e é de quem quiser.

2 comentários:

peixe disse...

leo, vim te dar meu novo endereço, mas ninguém tem, então qq hora apaga esse comentário aqui.

to com saudade do alcool com você, ele anda habitando demais em mim. qq dia aparece.

beijo e sei la o que

peixe disse...

sei lá se a parada foi, mas tó aí: www.eunumingo.blogspot.com