6.5.08

"a última morta"

para Vó Zula

você tinha metro e meio e não me deu muito,
mas me deu tudo o que tenho e não agradeço.
tua força italiana ou judia, teus filhos homens.
chocava-me o modo como teu rosto murcho
dizia sem palavras sobre palavras nunca ditas.
fumava escondida, mas sabia bem da tragédia
de não se poder esconder nada do coração nu.
você foi sem adeus ou frangalhos de ausência.
é preciso um poema quadrado para falar de ti.
certamente mais se via nos teus olhos violetas,
na tua mancha fértil de incertezas tão seguras.
você foi minha lava genética, e foi tão pouco.
e quando se arrastava levava de mim o rastro.
você que foi avó, mãe, eu apenas, agora pasto.
um nada cheio, além do que se possa rastrear.
“minha pequena”, eu nunca disse e digo agora.
não agradeço o que não posso, estou em mim,
para lamber teus olhos, dizer o que não se diz,

e então fazer da tua imagem lápide, sem grito.

3 comentários:

cristiano fagundes disse...

Meus pêsames, bicho.
Gostei muito.
Se tua vó tinha bom gosto, teria gostado.
Um abraço.

mary disse...

aceite os meus também...
mary

natércia pontes disse...

eu nao sabia...
um beijo pra tu, querido.