18.11.06

"Latrocínio na Cidade Baixa"

Sentados onde os estupros aconteciam, pessoas enxergavam coisas reversas através de planetas escuros. Lentes de solidão adocicada, folhas amarelas vomitando pólen, cinzas amarelas amarelas cinzas, segundos suicidas em reviravolta, heranças hesitantes do marinheiro de Whitman, alguns outros pintados de batom esmurrando cérebros, garotos raquíticos com anemia exibindo seus shorts de basquete. Algumas meninas mais bonitas e bem formadas já não sabem como se posicionar e ainda assim continuar no mesmo hemisfério. Aquela mão cheia de dedos que sobe por dentro dela, um punhado de grama lhe tampando a cortina dos olhos, essa poeira névoa coquetel de frutas cristalizadas, essa síndrome sobrevivente, essa poeira... Todos mortos, com óculos pretos, mascando a própria bochecha através de unhas decibéis.

Aftas como séculos de restos dos desejos múltiplos e irrealizáveis. Saltos como a espuma da loucura de alguém. Alguém que talvez houvesse passado a mão na sua jaqueta beat – eles a arrancaram como se fosse o precipício: para longe dos seus quinze anos. De resto – o céu escorria verde mofado de suor sanguíneo – estavam também ali seus traços procurando farpas de sol diante da cegueira lunar. Sua pele marcada pela reclamação da emergência populacional em castas. Talvez a terra verde solar na testa morna da menina pobre que recobrou seu fôlego gelatinoso num chafariz mentolado. Uma mesma menina que, poucos passos antes, tinha me roubado a jaqueta das idéias também. Agora enxugava o soluço cartilaginoso do adeus hesitante, o suor que pouco antes me inventou um livro que eu li tão rápido quanto fiz o último movimento antes do soco na barriga, para não ter que dizer a ela, levada para longe, depois que me deu sua luz, a mesma luz que me falta quando penso nela agora, trapo de brim: morta e escalada por nuvens aflitas.

E assim pude ler o pergaminho do seu tempo. A atitude é tudo o que importa justamente por ser estúpida. Escutava-se o desesperado lamento das coisas que se moviam em silêncio. Valsa muda de ingênua comoção em atitudes metabólicas. Todos bravos idiotas anjos antipáticos cativantes alcoólatras sensíveis que perderam a emoção porque se tornaram cúmplices dos escravos (dela) e depois os próprios escravos (ela sendo arrastada) e era justo. Garrafas em punho enquanto eu pensava em mim mesmo como uma grande farsa fragmentada em rostos sem fim, como o dela, ali, a boca monstruosa, o estômago parindo o medo, uma programação infinita de um mundo incompreendido, engaiolado em si mesmo, esparramado sobre as tripas do meio-fio.

Sua jaqueta, seus quinze anos, minha estrada fatiada em lágrimas de farpas e dúvidas permanentes, quando bem repartidas num filete de carne.

Acordo com quinze olhos fartos dentro das idéias sonolentas e firmes. Cansado de tanto que o nada tentava nadar e nadava tanto que nada acontecia entre tantos entretantos.

Cansado – totalmente cansado – dessa mentira pavorosa em letras preocupadas com fins históricos, que se amontoam como vermes nas prateleiras que assistem ao estupro. Dessa inútil contradição de espécies disciplinares (talvez uma sirene, talvez uma posta) da disparidade absoluta entre coisas tão bem-colocadas.

Desisti de esperar e fui, embora meu fantasma mais sensato tenha me aconselhado a escolher o caminho do aconchego teórico. Pobre viúva virgem, com frio prostituto, sem sua jaqueta... Te levo para casa. Não, não se canse ainda. Vive-se o que se pensa, e não o contrário. Sem fim que o fim é parar. Somos todos essas caixas vazias, essas saias insaciáveis, essas pernas suadas de passos mudos e latentes em assoalhos distantes e fiéis, esses corpos coloridos estendidos em tesão agudo frustrado guardado placidamente para o livre entendimento de feridas hemofílicas intactas através de categorias para o fim dos tempos. Mas não há fim dos tempos. O fim dos tempos é agora, está sendo, já foi, não há motivo por que falar no fim dos tempos. Somos o tempo e como ele somos também seu fim e começo. Não se preocupe com o fim dos tempos, querida, posso te chamar de querida, não posso?

Carnes secretas entranhadas em cada esquina esfaqueada. Entre cada cerca contaminada de passos tortos por um desejo comum. Um carro de janelas abertas cheirando a acordos ditatoriais através de charutos molhados. Um pedido de perdão do exterminador. Uma rosa, pelo romance. A explicação dos moinhos de vento numa parede com tinta acrílica. Um salto em órbitas oftalmológicas. Um bar com o nome do pintor preferido. Cabeças nos colos de poetas, uma briga de casal – a mulher bem mais velha se defendendo de um canalha saxofonista – um sorriso, outro, mais outro. Dois apertos de mão, uma canção chorando em pânico. Gritos espremidos em sussurros pré-matinais. Outros tantos corações apertados e divinamente satisfeitos – desamparados pela história dos homens, pela derrota dos sonhos prévios, pelo alvoroço das flores mortas (levadas pela gilete do vento) as quais amamos como flores rançosas, e a quem devemos tudo. De quem precisamos nos livrar: o adeus de cada dia.

Precisamos vê-los todos partir como jaquetas – eram dois, três? – sem lenços ou rodeios. Nada disso importa agora. Tudo é possível quando os sonhos deixam a realidade pequena. Adeus a tudo que está morto. Para haver o novo dia em que o sorriso patético dê lugar ao grito primitivo do diálogo, mesmo que diante do espelho: duas carreiras, dez braços apontando para a – mil braços! um milhão! – mesma direção sem dizer adeus, pensando bem (pensando?) sem dizer perdão. Dez braços reduzem a distância do sonho. Dez sonhos reduzem a distância do espaço. Dez passos reduzem a distância do soco. Mas não é ela ali, sou eu.

Acordo recíproco e completo de alma, mas em outro caminho distante do seu trançado de brim: no estômago secreto da minha mais honesta mentira vermelha. Que me escorre pelas bainhas.