13.7.06

“poema vazio”

um poema como
um canto quieto
à meia luz.

como o rastro lento
de um caramujo
solitário.

como as patas
de uma garça
no lodo.

como a flor
desidratada
dentro do livro
roubado.

um poema à revelia
que através da dúvida
inaugure a fantasia.

um poema como
camisas penduradas
no varal do deserto.

um poema como
uma menina triste
penteando os cabelos
na janela gradeada.

quero um poema
vestido de branco
para dormir de olhos
na cama ao meu lado.

quero um poema
sem nenhum fonema
onde as palavras
possam descansar
do seu significado
sem serem metrificadas.

quero um poema
com a força
de um cuspe.

com a honestidade de
uma folha em branco.

quero um poema sem pranto
um poema sem calamidades.

um poema da cor do vento
que se instale feito sombra
e no fim do dia se apague
para a digestão dos sonhos.

poema que permaneça
docemente no seu
esquecimento afetivo.

um poema com nuvens
no lugar de linhas.
um poema enferrujado
de tanto esperar.

o poema que quero
só pode ser escrito
dentro de cada um.

4 comentários:

Anônimo disse...

... que lindo, adorei!

peixe disse...

poema.

peixe disse...

quero um poema qualquer.
sujo, mendigo, roubado.
chorado, sofrido, mimado.
que venha de putas, cachorros, pedófilos, anônimos, transsexuais.
quero um poema ao menos
que seja meu.
só meu.
preu guardar no fundo do peito.
e dormir
com a sensação
de um orgasmo humano.
poessessão.

O Lobo da Estepe disse...

Nao gostei do comeco. Quase desisti de ler. Mas apostei que melhoraria e me dei bem. De um pouco antes da metade ao final eh excelente. "...com a honestidade de uma folha em branco..." eh bom demais.

Abraco!