10.3.06

"O Tamanho do Pobrema"


O dinheiro de quem não dá
é o trabalho de quem não tem
(Berimbau; Vinicius de Moraes e Baden Powell)
Há uma semana que os jornais repetem manchetes como “Toque de Recolher”, “Rio de Janeiro cercado pelo exército”, “Ainda não encontraram os dez fuzis”, “Bandidos atiram em tropas à luz do dia”, e não se fala mais nas mortes dos garotos que iam andando aos Cieps e ficaram sem cabeça, ninguém parece preocupado em saber quem matou aquele menino que esperava no ponto de ônibus – até porque é óbvio quem o matou. Essas pessoas são obrigadas a se refugiar nas próprias casas, a maioria gente muito mais honesta do que as que jantam no Gero e tomam o café matinal no Garcia & Rodrigues, antes de saírem com seus amantes para jogar tênis e faturar em ações da bolsa de Tóquio.

Aos que não têm voz, resta recolher os corpos. Não há um jornal com coragem para atacar essa ação absurda, que é a tomada das ruas da cidade pelo exército federal, o que, obviamente, deveria ser responsabilidade do governo estadual e não do exército nacional. Por quê? Muito simples. Porque 90% dos compradores do Globo são compostos justamente de pessoas que se tranqüilizam com a “grandiosa ação das nossas destemidas tropas”. Porque querem voltar a andar nas ruas tranqüilamente com o Rolex e com o sapato Prada que roubaram de quem não tem nada, indiretamente, através de maracutaias de sonegação de imposto e evasão de divisas.

E do que sobrevivem os jornais? Para quem eles são escritos? Não para a mãe do menino que é obrigada a chorar em frente a uma gaveta de cemitério que mais parece uma caixa de sapato. Nem para o dono de bar que é obrigado a fechar cedo para não morrer com uma “bala perdida” na cabeça. Muito menos para os velhos senis que morrem em casa porque não podem se arrastar por entre as balas até um hospital. Não, os jornais servem para massagear as classe abastadas, as mesmas que os produzem irresponsavelmente. Servem para dizer ao possível investidor que tudo vai se resolver logo, que recuperaremos a dignidade desta cidade, que, portanto, podem assinar os cheques. Que podem ficar despreocupados agora, vamos cercá-los, manteremos esses bichos nos seus cativeiros. E ninguém diz o óbvio: o combate do exército só seria eficaz se fosse feito nas fronteiras de onde vêm as drogas e boa parte das armas. Mas é justamente ali que os nossos melhores pracinhas fazem seu ganha pão, com vista grossa para o que entra e sai. Ali está a questão complexa que nenhuma entidade ordeira parece querer abordar. Preferem brincar de soldadinho nas favelas. Assim montam uma boa imagem com os poderosos ociosos e maquiam as primeiras páginas.

Lula toma chá e sorri como uma criança pobre numa carruagem ao lado da Rainha da Inglaterra, enquanto seu país escorre pelo ralo. Garotinho tem lá os seus crentes, não precisa se meter com mais doença social. César Maia prefere Nova Iorque. Prefere maquiar o Largo do São Francisco para o casamento do filho almofadinha com a filha daquele outro bandido, o Francamente Moreira Franco.

O caso é que o exército está nas ruas para recuperar dez fuzis que o próprio exército, membros influentes dele, negociou diretamente com os traficantes, como sempre aconteceu. Não existe nenhuma notícia em “10 fuzis desaparecem de uma unidade militar”. Apenas agora, por uma questão de logística (talvez tenham consultado o Duda), os pracinhas mudaram de conduta. Resolveram fazer o povo de cobaia. Botaram as manguinhas de fora para impressionar a sociedade alienada louca pelos seus cocos à beira-mar. Cercaram a bandidagem jogando gente pobre, honesta e trabalhadora (equação comum) no mesmo balaio.

Sei que é exaustivo falar nesse assunto. Normalmente não uso este espaço para isso. Mas é que hoje conversava com a Suely, que trabalha aqui em casa, dia sim, dia não, sobre como achava absurda a ação do exército federal nas favelas. E ela, com a calma dos desiludidos, cabeça baixa e sorriso infernal, me disse:

- Ali no Gardênia agora tá muito pior.

- Ali onde você mora?

- É.

- Você quer dizer, a relação com o tráfico é pior?

- Lá tem tráfico não, que os homem da Mineira não deixa, não. Quem trafica droga morre. É pior.

- Então qual é o problema?

Ela me contou a seguinte história. Na favela da Gardênia Azul, onde ela mora, na Zona Oeste, perto da Cidade de Deus, que virou filme apenas para ser esquecida, conforme se esperava depois do fracasso no Oscar, os bandidos são sensíveis com as mães de crianças na faixa dos seis anos. Eles aparecem em incríveis carrões niquelados (carro de rico, em suma), levam meninos e meninas saudáveis na faixa dos seis anos que estejam indo para a escola, arrancam todas as suas tripas e abandonam os corpos em valões comuns, ocos por dentro, ao lado do seguinte bilhete escrito à mão: “Mamãe, não doeu nada”, junto a um cheque de mil reais, “para os custos do funeral”. Os órgãos saudáveis são aproveitados e, muito provavelmente, a julgar pelo rabecão niquelado que ronda as ruelas, vão parar nas entranhas de filhinhos de papai – que, claro, não têm a menor culpa, as crianças – no exterior ou quem sabe até na Vieira Souto. Desesperada, porque tem um filhinho, Lucas, de seis anos, Suely me disse:

- Se pegam o Lucas é melhor logo eu me matar de uma vez. De casa ele já não sai. Ontem mesmo acharam um bebê no lixão. As vizinha chamaram pra ver, mas eu não fui, não. Não consegui ver, não.

E isso não aparece nos jornais, porque quem compra quer só saber quando vai poder usar a bolsa Louis Vuitton que é a última moda em Paris.

ps1: almoçando com meu pai, raposa velha de jornal, um tanto cético por costume de profissão, enquanto Suely nos observava debruçada na pia, ouvi ele me dizer que essa história de tráfico de órgãos em favela é um mito, o que ele chamou de “lenda urbana”. Eu argumentei que é mais fácil chegar num lugar desses, falar com duas, três pessoas, e desistir de uma investigação mais profunda, porque isso não venderia jornal. Ele disse que eu estava completamente equivocado, que isso é capa de qualquer jornal e que ele, inclusive, já tentou emplacar essa matéria, quando era editor de um impresso, e não deu em nada. “Mas a Suely disse que tinha ontem um monte de gente em volta do corpo de uma criancinha estripada”, eu falei. “Você viu?”, ele perguntou a ela, e ela disse que não, que não conseguiu ver. “Conhece alguém que perdeu o filho assim?”, ele continuou. “Não...”, ela disse. “Mas certamente conhece alguém que viu...”, concluiu a velha raposa. Ela apenas baixou a cabeça. “Um monte de gente... ontem... indo até o lixão ver...”. “Infelizmente, uma criança aberta ao meio não é mais notícia”, ele disse. E com voz cortante, Suely falou: “Se for o meu filho, é a pior notícia”. Sem se abalar, meu velho se levantou para escovar os dentes e ir a uma reunião. Eu fiquei na mesa porque não sabia no que acreditar: se numa mãe ou numa notícia.
ps2: no exato momento em que estava escrevendo o texto principal, antes do almoço, ouvi o barulho de três fortes estalos vindo de fora. Corri até a sala e disse ao meu pai, que assistia ao Animal Planet na televisão: “Isso é tiro”. Pela janela da sala, vi dois sujeitos no chão. Dois negros, um engravatado de camisa branca com mangas curtas, sapato encerado marrom claro, calça de linho com cinto afivelado. O outro com uma camisa de mangas curtas xadrez esfarrapada, calça de brim preta e tênis branco, ambos de cabeça raspada. Havia um táxi parado ao lado e alguns policias que, com os dois sujeitos de bruços no chão, pisavam nas suas costas e conversavam enquanto curiosos se aglomeravam e o camburão não chegava. Pelo que entendi, os dois tinham entrado no táxi, renderam o taxista que, espertamente, quando passou pela casa de um velho marechal do exército que mora na esquina da minha rua e tem uma guarita policial particular, pulou fora do carro e saiu correndo, sabendo que os policiais iriam agir rapidamente. O camburão levou horas. O sujeito de gravata argumentava sem parar, com as mãos para cima. Do outro, mais esfarrapado, eu apenas via os dentes brancos trincados de dor. Tinha levado um balaço no calcanhar e estava com a cara colada no chão. Antes de entrarem no carro da polícia, ainda levaram uns tapas na cabeça, como se fossem filhos rebeldes de pais integralistas.

2 comentários:

cristiano fagundes disse...

Vc não mora no 12° andar? tem certeza de que o sapato marrom do cara estava encerado?
hehehe...
Abçs.

leonardo marona disse...

tenho um binóculo de exército. e uma boa imaginação. ve se pinta nos gemeos na quinta, pra ver o filme.

beijo.