13.4.06

The Poet with the Birds, (Chagall, 1911)


algumas coisas pelas quais ainda vale a pena viver
– ou –
ponderando

depois de muito tempo
uma manhã de sol no parque
em meio às cadelinhas de madame
que fogem das próprias sombras
cães de rua, pombos e gatos vadios
que permanecem de barriga para cima.

os olhos translúcidos dos cães
a indiferença charmosa dos gatos.

um menino numa bicicleta de rodinhas
acenando ao gari que sorri sem dentes.

um sujeito velho e cansado
com um passado de perdas e erros
molha a cabeça amassada de sono
na fonte de bica enquanto se ouve
a dança alemã de Mozart e o velho
dignifica sua miséria quixotesca.

um outro homem empurra uma carroça de cachorro-quente
o sol em coma acima dos escalpos doentes
então um cão perneta que o vinha acompanhando
pára e pula de boca no lenço azul celeste de uma vovó de cabelo lilás.
ela apenas tomba para trás na grama e ri frouxamente.
então o cão perneta dá a volta e se aproxima
lambe as bochechas cor-de-rosa da velha
dá a volta outra vez, agora por trás
e ameaça mijar na botina polida de um milico
que passa em linha sincrônica com mais dois.

como se vagasse sobre o mar acinzentado
o velho vendedor de biscoitos de polvilho se confunde
em forma de mancha com a linha do horizonte.
e através da própria dor ele carrega sua mágica.

para o lado da mata
um quadro de Chagall
no emaranhado das árvores
sob a timidez do sol.

um casal de velhos:

ela
cabelo ruivo
tão ruivo quanto os cinco anos que ela diz ter a menos.

ele
bigode branco
tão bem raspado quanto suas cordas vocais depois do câncer.

os dois sentados juntos no meio-fio
sem se olhar
há muito tempo
sorrindo com leveza
depois de uma caminhada em paz
sem falar nada
cada um com sua lata de refrigerante dietético na mão.

um homem com a camisa laranja da prefeitura
em cima de uma bicicleta laranja da prefeitura
entre o céu cinza da cidade e as cinzas do homem.
um sanduíche de laranja num pão de concreto.

outro casal já não muito mais atlético
(apesar do figurino que a certa distância o faz parecer)
discute por um sorvete que caiu no chão.
na frente deles um casal de namorados que parecem irmã e irmão.

esperar por alguém que não sei quem é
mesmo estando com esse alguém há anos
todos os dias sem saber e por isso querendo.

pelos grunhidos de Keith Jarrett
quando ele criar meu último lamento
abraçado ao seu sorriso cariado.

pelo sorriso sincero
de um estranho entre tantos
bonecos que andam pela rua
atrás de algum sinal.

pelas gavetas esculhambadas de pequenos momentos
pelas janelas que servem tanto para a morte como para o sol.

pelos dois passarinhos que
madrugada passada insone
fizeram seu tipo de amor
sob o meu parapeito.

por todos os olhos
cheios de água e luz
mais eficazes que palavras.

pelo bom-dia
de um mendigo simpático
que me ofereceu um café
e me falou da sua formação
em direito penal.

por aquela menina
muito estranha e espontânea
que se aproximou de mim no metrô
para dizer que tinha um relógio igual ao meu.

pela bailarina
que saiu do sonho
e foi dançar na rua
enquanto eu voltava
do inferno para casa.

pelo homem grisalho
mas feliz numa cadeira de rodas
de quem eu comprei um pacote de balas de frutas falsas
em frente a uma pastelaria onde chineses se escondem
mas também são felizes ao seu modo como vejo
nos olhos miúdos de dois bebezinhos chineses
no colo das irmãs magras.

por alguns minutos na frente do mar
antes que alguém passasse
e estragasse o tempo
ao me pedir as horas.

por cartas sem data
com fotos e lágrimas
dragões amarelos de origami
que alguém que mora longe
ou na esquina do meu peito
postou para mim no correio.

escutar o caos sem dizer absolutamente nada
e que isso não seja estranho ou fatalista.

pelas trovoadas de Sibelius
pelas cavalarias de Borodin
pelo mantra pagão de Coltrane
pela melancólica lava de Chopin
que uma vez ouvi uma viúva que tinha exagerado no batom tocar

por todos os helicópteros de Blakey
(ou Blake)
pelo pranto tresloucado de desamor daquele filósofo dinamarquês
com o queixo pontudo pela contradição de sombras indistintas
por damas histéricas, indóceis e baratas de Raymond Chandler
por Rita Hayworth de maiô cantando para Orson Welles
em “A Dama de Xangai”.

pelas loucas histórias de amor:
entre Van Gogh e Gauguin
entre Cocteau e Radiguet
entre Fante e Joyce
entre Nin e Miller
em nome de Burroughs e Joan
de Jack e de Bob e de Baden e do Capitão do Mato.

pelo ex-lutador de boxe falido, que tinha batido Dempsey,
com quem Hemingway se encontrou à noite numa floresta.

pelas vezes em que uma pessoa
por mais que não se saiba de fato
da fatalidade do fato que se passa
esbarrou acidentalmente no meu desejo.

pela silenciosa respiração de um quarto escuro
pela dor que existe embutida num baixo acústico
ou por um quarto escuro cheio de notas musicais.

por todos os vestígios de solidão
que se escondem dentro das pastas
de belas mulheres com cabelo solto
cheirando como uma manhã úmida
apressadas executivas de coração
confessando seu vazio a telefones
por trás de grandes óculos escuros
no centro da cidade das formigas.

pelas vezes em que perdi o fio da meada
da história errada no momento certo
que eu pensei ser o errado
porque não podia acertar.

por sovacos femininos recém raspados à luz de velas
por vitrines de confeitarias
pelos segundos de pretensa sabedoria
quando eu não me ouço direito mas alguém me ouve.

e
acima de tudo
pela fidelidade de uma página branca submissa e arreganhada
pronta para ser fundida em sangue com meus pedaços amputados.

3 comentários:

ricardo disse...

leo, eu ainda não li o poema, mas esse quadro do chagall é exatamente o que eu tinha imaginado para o nosso filme.

Mary disse...

pela amizade pura e sincera.
com amor.

Tommy disse...

Como bom puxa-saco-incentivador e, alem disso, velho amigo que adora as suas producoes, entro nesse sitio todos os dias. A principio fiquei desanimado a ler o poema pelo seu tamanho, porque acabei de acordar e a preguica nao saiu de mim, ainda. Mas enquanto rolava a pagina esbarrei em alguns nomes que me chamaram a atencao, entao resolvi encarar. Que bela surpresa. Dos melhores. Beijos.