21.3.06

"Julie London"

Da última vez foi de tirar sangue: uma pena na cueca. Quem era a galinha? Dois dedos de uísque na garrafa. Agressões verbais, seguidas de hematomas no pescoço, intercalados com gritos lancinantes de ódio e paixão. Ele voltou um mês depois. Estava mais magro, tinha sujado a camisa com gordura numa pastelaria chinesa. Viu a pastelaria sendo lavada, um cheiro terrível adocicado, ficou lilás. Correu até a casa dela. Tanto tempo que o porteiro já não reconhecia.

A porta entreaberta. A mesma luz vermelha. A casa escura com exceção de um caleidoscópio de papel reciclado, que iluminava uma mariposa minúscula no teto do quarto. O gato na cama emaranhado nas cobertas. Gato odioso, ele o adorava. Pôs a cabeça de fora e começou a miar mostrando os dentes para a mariposa, que se mantinha indiferente no teto. De início, aos dois novos estranhos, ver a mariposa e falar com o gato: saída mais natural e constrangedora. Logo depois um se levantou da cama, o outro sentou na poltrona, depois outro desencontro, então finalmente se abraçaram. O abraço dele durou mais que o dela. Mas ela permaneceu em seus braços feito uma marionete oriental sem luxo. Depois se largaram. Ele passou então a bater o pé no chão. Os dois sempre riram juntos dessa mania dele de bater com o pé no chão quando não sabia o que fazer. Mas dessa vez não teve risada. Ele tinha vindo atrás de perdão, orgulhoso demais para pedir, burro demais para entender que a questão não era de perdão, era de perda. Mas ele precisava dizer qualquer coisa, que não fosse mais sobre a mariposa. Não disse nada, tirou os sapatos. Então ela sugeriu que tomassem uma cerveja, assim, bruscamente, como na primeira vez em que se encontraram. Fazia dias que ele estava com hipersensibilidade do cólon, o que significava cagar sem parar. Pensou nisso quando aceitou a cerveja, forjando o brilho nos olhos, então respirou fundo:

- O gato cagou aqui.

Então se agachou debaixo da cama e gritou:

- Três cagalhões!

Voltou à poltrona sorrindo, e ela simplesmente coçou o nariz e foi até o banheiro. Apanhou um punhado de papel higiênico e recolheu a merda do gato. Uma bosta seca sobrou, grudada na fenda de uma tábua de taco. Ele disse:

- Ficou uma aqui.

Ela voltou e apanhou com a mão. Deu a descarga. Ele ouviu passos no taco rachado. Ela voltou para o quarto com duas latas de cerveja na mão.

Nada foi dito com muita clareza ou firmeza. Ele tentou um pouco de franqueza. Ela falou que não estava preparada. Precisava secar as lágrimas. Um silêncio imperial estourava as veias das suas mãos sobre o joelho. Ele levantou para trocar as latas pensando em reumatismo. Quando voltou, disse a ela que se arrependia talvez do teor, mas não do conteúdo da última discussão. Mas estavam ambos exaustos. Ela bocejou sem força e foi até a janela ver a lua. Ele, sem saber mais para que continuar andando, enxugou as latas num instante e trouxe de uma vez outras duas. Então ficou concentrado no caleidoscópio. Tocava uma música brega dos anos oitenta no rádio:

- Você gosta disso? – ele perguntou de repente, com o pescoço enterrado, mas delicadamente.

- É... Eu tenho mesmo cara de quem gosta dessa merda – ela disse sem disfarçar o sorriso, um velho charme.

Dessa vez não funcionou. Eram dois pombos de asa quebrada numa arena de tourada. Ela se levantou da cama e foi até a prateleira, onde ficavam os livros e o rádio. Pegou um livro. A rádio saiu de sintonia e começou a chiar.

- Essa porra dessa antena mal colocada – ela disse inexpressivamente. – Esse livro é teu.

A Gorda do Tiki Bar, do Trevisan.

- Você gostou? – ele perguntou forjando interesse, não era dia para verdades.

- Não é meu tipo de leitura.

- Mas gostou mais do que do outro...

- Muito mais.

...

- Você quer que eu vá embora?

- Daqui a pouco, quero sim.

Ele levantou, levou as mãos às próprias ancas e permaneceu assim, de pé diante das costas da mulher. O insuportável barulho das folhas xingadas pelo vento lá fora. A mariposa também o tinha abandonado. A mulher virou meia cabeça. Estava apoiada na janela. Uma nuvem tinha transformado a lua num conto de Allan Poe.

- Você não quer mais uma cerveja? – ela disse.

- Você não quer que eu vá embora? – ele errou.

- Eu disse que quero, daqui a pouco – ela gostou.

- Pouco pra mim não é nada pra você – ele foi embora...

...Até a cozinha e pegou a última lata. Engoliu seco, a testa suada, e cuspiu na pia. Encheu os copos e sentou outra vez no sofá. Tomaram a cerveja em silêncio. Ela bebia como um bem-te-vi. Ele tomou de talagada e começou a amarrar os sapatos logo em seguida. Demorou mais do que o normal. O contato de um cadarço com o outro a irritava profundamente. Tudo nele de repente havia se tornado mecânico e irritantemente previsível. Ele mesmo sabia disso. Mas não sabia o que dizer sobre isso. Era apenas a verdade. Não havia mais o que se dizer além de: “o tempo anda corrido, muito corrido”.

Então ficaram os dois, ainda por um tempo, procurando seus pedaços no chão do quarto. Depois ele se levantou e foi no banheiro. Seu mijo virou uma catarata na latrina. Para ele era sangue, queria que fosse sangue. No quarto ela chorava em silêncio porque no rádio tocava you don’t have to be a baby to cry. O gato havia dormido com a língua de fora na cama.

- Acho que a gente se vê por aí então – ela disse quando ele apanhou a mochila.

Se despediram cordialmente na porta, com muita distância e educação, quando ela segurou a mão dele:

- Não me procure mais – disse o cérebro. – Fica com deus – disse a boca.

- Prefiro ele fora dessa.
Desceu as escadas amuado, sozinho como sempre, irritado e palpitante. O coração com vergonha do peito. Nem tudo era tão mal só porque, no rádio, Julie London cantava nice girls don’t stay for breakfast. Ele assobiou enquanto as lágrimas não vinham. A música terminou e elas não vieram.

Um comentário:

Mary disse...

Leo, como é bom ver você escrevendo assim.
História muito triste que me fez chorar...