18.10.05

"pai e filho conversando sobre a morte"

Quando você morrer eu morro.
Não.
Sim, uma parte de mim.
Não, nunca seremos tão íntimos quanto quando isso acontecer.
Íntimos? Você num caixão... Íntimos?
Sim, pense bem: de perto todo mundo é mais ou menos,
de longe todo mundo é legal, morto todo mundo é do cacete.
E de muito perto todo mundo é insuportável.
...
Por que você não lavou a louça?
Porque ainda estou comendo.
Você poderia comer o dia inteiro.
E você morreria por isso?
Um dia, talvez, provavelmente.
...
Você falando, parece que quer que eu morra.
Você não. Mas eu já quis que duas pessoas morressem.
Quem?
Um sujeito que me roubou e outro que era pelego de uma greve que eu fiz.
Mas você queria que eles morressem?
Queria. Mas não podia matar nenhum deles. Então tive que esperar. Outro dia me ligaram:
um de câncer no estômago, outro morto pela empregada doméstica, a facadas.
...
Mais gente de bem mata ou mais gente de mal mata?
Não existe gente assim.
Como não?
Todo mundo é meio mau. Alguns conseguem ser bons, sempre que têm um motivo. São os que chamamos de canalhas. Outros são ativistas, ou seja, malucos que lutam pela humanidade.
Você é a favor das armas, então...
Não exatamente. Tem um motivo pra você ser contra as armas: os crimes babacas. Sem armas, os crimes babacas diminuem. Esse seria um motivo. O único motivo na verdade.
...
Mas você é contra...
Do mesmo jeito que sou contra os babacas. Não acho a morte um absurdo.
Eu acho. Morreria se você morresse.
Mentira. Isso é desculpa pra não ter que viver.
Morreria. Uma parte simbólica pelo menos.
Você ficaria triste durante um tempo, sua vida mudaria, provavelmente pra melhor.
Eu morreria.
Então você morreria. E seríamos mais dois. Eu penso como os índios em relação à morte.
Como eles pensam?
A morte é tão importante quanto a vida. Talvez mais importante, porque é um elo eterno.
Eu também acho isso. Por isso que, se você morresse, eu me mataria.
Porque você acha a morte mais importante do que a vida.
...
Eu te amo. É tudo.
Eu também. E isso não é tudo.

E o guri foi lavar a louça, disfarçando com o mindinho a lágrima da morte, que ria no canto da pia.

3 comentários:

Mary disse...

fiquei com um aperto no coração com esse diálogo.
"...a lágrima da morte, que ria no canto da pia" é mortal.
Muito bom Leo. Saudades.

ricardo pretti disse...

seco, árido, direto e lírico ao mesmo tempo. muito forte. dá aquele nó no estômago. "belo".

dani disse...

leo. eu não achei trágico! achei engracadissimo, serio. principalemente o diálogo de lavar a louça.