27.9.05

"Meu amor mora dentro de uma bolsa"

Chuva forte, calça larga, tosse seca, catarro na palma, na alma sem guarda-chuva. É sempre assim quando você está desarranjado. O que fazer? A primeira entrada do metrô fechada com grades sólidas e enferrujadas como o sistema de classes. Uns vagabundos mordem pontas de cigarros e pigarreiam debaixo do toldo furado. Me indicam a porta certa, que calha também de ser a errada: por motivos de reforma. É sempre assim com informações espontâneas. Corro para a terceira entrada – o curativo no meio do peito arde com as pulsações do sangue escoado na vontade, meu coração, onde foi parar? – mas pingos são mais rápidos que pernas.

Já no subterrâneo, levo a mão ao peito, conversamos um pouco, massageio seu ego ferido. Pergunto o que há, ele diz que tum-tum, tum-tum, numa fala descompassada, de modo que não entendo suas necessidades. Desde guri é assim. O que há, velhinho? Não vai fraquejar agora, aqui no metrô... Isso não é um filme francês. Nenhuma mulher de lábios grossos, olhos amendoados, cachecol e pêlos debaixo dos braços está te esperando com vento no rosto e uma lágrima paralisada sob os cílios. Não é sua hora ainda, meu chapa. Você precisa gritar por mais uns anos. Não vá rouquejar logo agora. Mais 70 anos, como a quiromante leu nas linhas da minha mão, a esquerda, que é a mais torta. E um filho único ainda por cima, mais um, o que deixa de ser único. “E você quase morrerá aos 58... uma linha estranha... vejo aqui... quase-quase”, diz a moça careca com argolas prateadas de baiana nas orelhas, acariciando as próprias mãos, “mas ainda não... bem velhinho só, e muito só, cheio de dinheiro... menos o do ordenado, que vai te sair por 70 mangos, como os anos que ainda te faltam”.

Portanto, avanço, sentido Zona Norte, Cinelândia, ver um filme no cinema. O trem chega por trás dos pensamentos como uma boa surpresa. Não é o meu ainda. Um velho sem cabelo e com um dente aparece na minha frente e pergunta para onde vai o trem. Penso na resposta ideal, algo como “ele vai para nunca mais, amém”, mas digo “vai até Copacabana”. “Siqueira?”, ele pergunta. “Siqueira”, eu faço com a cabeça. Mas ele não entra.

De um cinema para outro. Será que então é isso? Ficar ao lado de centenas de pessoas vazias dividindo emoções aboletadas sobre sacos de pipoca, assobiando e aplaudindo na frente de uma tela enorme, pedindo silêncio mais alto do que o próprio incômodo... A quiromante diz que não. Que o filho será bonito e saudável. “Então será uma mulher bonita”, minhas sobrancelhas concluem. “Não sei dizer isso, mas serão três”, ela morde a bochecha. Um filho... Outro desgraçado, mais três mulheres... Que bela piada! A primeira, a grande paixão. O corte fundo na carne fibrosa. Mas, se não há cura, a ferida cicatriza uma hora, com o tumor dentro. A segunda, boa mulher. Verdadeira dama. “Dá pra saber se será loira? Gosto das Loiras” – a quiromante torce a cara, dobras na careca, quando lhe pergunto. A segunda me dará o filho. Casamento cristão, camas separadas, sexo quinzenal, duas tentativas de suicídio frustradas, uma artista sensível, temperamental. Quase morre no parto, como minha mãe, e morrerá antes de mim, como minha mãe. A terceira, pobrezinha, não terá tanta sorte. Vai viver bastante, como eu. Terei casos por fora e ela vai sofrer com os longos fiapos de cabelo presos nas minhas cuecas, cheia de uísque e pílulas à espera no portão. Outra coisa: depois de velho vou usar cuecas, pois quem é rico se protege para morrer feliz, sem saber que aquele que se protege demais consegue apenas uma morte cuidadosa. Desmoralizada nas rodas de chá, pois a essa altura já serei rico para tomar chá em rodas, tentará dar cabo da vida de forma besta, pulando na frente de uma moto. Uma costela lhe perfurará o pulmão e nunca mais vai falar direito. Pagarei a clínica para birutas até o fim dos seus dias, incluídos os meus. Na clínica tentará outra vez, com uma tesoura. “Um carma”, diz a quiromante, “todo mundo tem o seu”. Meu filho, rapaz solícito, tentará por ela uma terceira vez, não podendo ver o pai tão abatido, com veneno de formaldeído. Péssima escolha, deixará a pobre presa a uma cadeira de rodas com metade do rosto paralisado em tubos de sucção.

De fato, ninguém consegue esperar pelo amor. Eu mesmo, aqui no metrô, estação Largo do Machado, vejo o amor deslizar vagão adentro, eu sedento, ele lento, sem esperar por nada, pois é só quando aparece, como as tias velhas. Vagão quase vazio: o velho sem cabelo e com um dente que pegou o trem errado, eu completamente encharcado e uma guria magra, sem cor nem muita frente, cabelos pretos ralos e escorridos, olhos puxados mas ocidentais, digo, acidentais, melhor assim, bunda mirrada, pente na mão. Me apaixono por ela quando, de costas, se senta, pernas cruzadas, descruza as pernas para apanhar o lenço que escapa da bolsa para o chão. Nunca vi um lenço cair tão devagar, dançar o tango, penso ajeitando os cabelos molhados e enxugando o rosto com mangas de camisa.

Silêncio no vagão. Aquele lenço de seda, o amor que contêm as finas linhas trançadas... Vejo os pés da guria, livres de sapatos, unhas vermelhas descascadas, a do mindinho apenas um fiapo de cálcio, seus calcanhares dançam por baixo do assento.

São os calcanhares mais bonitos que já vi, penso. Ou talvez seja a primeira vez que vejo calcanhares. Isso o amor: que se vê pela primeira vez e para sempre.

Subimos as escadas para o inferno. Já ouço o estalido das cotias penteadas. Ironia subir para baixo. Primeiro eu. Ela atrás, cabeça baixa, parece preocupada, muitos cabelos presos no pente na frente dos olhos. Micose, anemia, alterações tireoideanas, menopausa – mas parece tão nova! –, quimioterapia?

Tenho duas opções: a escada rolante e os degraus. Penso assim: vou pelos degraus, se ela me vir e fizer o mesmo, então é ele mesmo, o amor. Do contrário iria pela escada rolante como todo mundo. Mas pelos degraus, me seguiria como quem diz: estou contigo, querido, para sempre e por onde for. Subo os degraus. Paro no meio. Olho para trás por baixo do fundilho das calças, quando finjo dobrar as bainhas por culpa da chuva lá fora. E lá vem ela, vagarosa como o lenço de seda, ainda com os olhos baixos, a certeza do amor sincero. Morde levemente os lábios – uma lágrima? Vasculha a bolsa. Está procurando meu amor lá dentro, só pode. Como é bom. Me sinto dormente. Na saída beijo a chuva e espero minha recompensa. Não há dúvidas. Passo por um sujeito encharcado de cabelo encaracolado que parece assistir à cena, emocionado. Tudo bem, camarada, entendo você, também estou emocionado. Pode aplaudir se quiser, não me incomodo, divido contigo meu triunfo.

Me viro. A guria entre os braços do sujeito, ambos chorando na chuva, como se doesse. De repente se separam. Vejo de longe. Não sei se choro ou se chuva. Discutem. A chuva escorre de mim para todos os esgotos vazantes da Praça Mahatma Gandhi. Plafp! A luz espanta gotículas dos cachos dele. Um tapa lhe estala a fronte. Vergonha, humilhação, blefe. Ele se vira e vai embora, ofendido, confuso, arrependido, tranqüilo. Ela fica na chuva com o pente na mão, olhos emprestados do satã. Rompimento traumático – ou o trauma somos nós? Eu sozinho na chuva. Sinto esgarçar minha cicatriz no peito. Com meu coração não converso mais. Que fuja enquanto é tempo. A chuva me encharca mas não sei de onde ela vem, mesmo olhando para cima, se sou eu ou se quem chora é o mundo. Pobre guria, nem tão feia, nem tão linda, que tem meu amor guardado na bolsa. Agora para sempre, até o próximo trem – sonho? Ela corre de volta para dentro da terra aos tropicões. Olho em torno e percebo pela primeira vez que pombos também voam em noites chuvosas. Acordo molhado e morto. 70 menos 1.

5 comentários:

Mary disse...

tá apaixonado?
adoro quando você fica romântico...fica lindo.

um cheiro de Mary

Cami disse...

Gostei muito! Pra variar lindo...

Bill disse...

It enriches first before comover a person its son of the mother ...

natércia pontes disse...

...não sei se choro ou se chuva..
QUE LINDO, LEO!!!!!!
BEIJOS BEIJOS PRA TI

Cinecasulófilo disse...

oi leo, brigado pelo post la no blog. O Aoyama, o japonês do meu deus, meu deus, é SINISTRO. Ele dirigiu EUREKA e A FLORESTA SEM NOME, dois filmes fodas e bem diferentes um do outro. Certamente vai ser bizarro. Vou estar lá amanha no Sao Luiz 19hs. Se eu nao estiver é pq algo muito grave aconteceu comigo (tipo, procurem nos hospitais...)