8.8.26

totem & tatu

 

abraço frígido de um desejo amputado

– amputar ainda assim é manter o abraço.

o abraço é uma festa com mascotes contratados.

escrever para não agir como algo que se arranca,

mas que nunca deve ser feito sem amputação.

não pode inclusive ser entregue por inteiro,

é preciso ser pedaço do que nunca teria sido

se não fosse exatamente a prótese do que se é.

amar vizinho do que não suporta: não suporto, amo.

longe do que gosto sinto falta das coisas insuportáveis.

descanso minhas veias apressadas nas estantes

de um vendaval sempre prestes a puxar caminho,

onde os futuros se guardam em gavetas secretas.

nem bem nem mal o anjo acende um cigarro no teto.

gostoso olhar um anjo fumando um cigarro e refletindo.

pensando que caralhas ou até sendo mais decisivo.

no rastro de uma impossibilidade sorridente admitir

pedaços mínimos de milagres tão fora de moda.

os fantasmas se transformaram em cortina de casa.

tudo passa, nada passa: nuances, nuvens com olhos.

fora da agência do trauma brinquedos na praça enterrados.

há que se povoar o mundo de dentro ele tem bolsas nos olhos.

o fantasma é um amigo: dormimos juntos, mas eu lhe pago.

a culpa do mundo não é culpa de cada um ou do grupo.

a culpa do grupo não é culpa do mundo e de cada um.

isso não resolve, mas me coloca na precisão do poema

após plantar maçãs magras no olho de um atentado:

emblema de negação e luz, escuridão tremenda do raio,

antídoto infectado de uma culpa toda nova, leve culpa.

a chave de ferro do sonho usada em volta do pescoço

e o poema lá, na graxa, como um trauma endividado.


24.6.26

"monstro – poema pálido"


oito horas de uma chuvosa

manhã e parece que morri.

caminho por um bairro nobre

e não posso dizer

que me sinta mal,

não posso dizer nada e tento,

então meu rosto se contorce,

minha espinha humilde torce

meu corpo e diz: não falarás.

 

por não ser eu mesmo nobre

e levar por ali um corpo feio,

ganho a característica exata

de criança agigantada

ou de um adulto anão.

tudo é nobre diante de mim,

o mundo funciona ao longe,

a espécie supera os desafios

e segue um desfile campeão.

 

por que não eu, também,

campeão entre campeões,

na solidão do meu bairro,

de uma nobreza decadente?

 

devem existir, talvez, micro

campeões que possam se gabar

de ter um bairro, uma rua

onde desfilar seu pequeno ápice

na brecha dos bem maiores.

mas me vencem os fungos,

as bactérias, a sarna, o piolho,

faz greve meu sangue milico.

 

tampouco me sinto bem

noutros muitos outros bairros

bem menos nobres, eu até diria

que são bairros perigosíssimos.

 

sempre me senti mal, não mal

por não pertencer ao lugar, mal

porque a espécie como um todo

me escapava deixando uma alta

poeira de pegue-me-se-for-capaz.

 

chove muito, minha doença,

que agora é essa amiga

sem culpa, a mais assídua,

se alegra da mucosa cerebral.


por mim passam pessoas

(será a elas que pertenço?)

sem intenção de me dizer

que também vão elas mal,

mas seus olhos, na chuva,

são agentes duplos, traíras

de uma intenção vencedora.

 

estou sem capa de chuva,

estou na chuva em busca

de uma ração para gatos.

 

sinto falta das pessoas

quanto menos quero vê-las.

comunico-me com vísceras,

então me tenho calado.

 

assisto fora do corpo,

de um camarote vip,

a revolta das vísceras

no desfile dos espiões.

 

a chuva desaba como um grito,

engulo o líquido comum, poça

da qual desdenham os pombos,

água daquilo que nunca poderia,

daquilo que depois nunca pude,

do que não podendo jamais fui

e agora apenas não posso mais.

 

estreito, o mundo não dá

para pôr a mão, amamos

na ponta dos dedos, foge

o grito na ponta dos pés

na medida exata do nojo.

 

bebo na chuva o líquido

florescente de uma lata

com a palavra monstro.

engano e conformidade

lançam um pé no outro

em derrota darwinista.


por engano e conforme

sou agora qualquer um.

um aleijão emancipado

na crista do afogamento.

7.2.26

"este não é um poema de amor"


você é uma queimadura de radiação

na sombra fresca da minha loucura.

chuva que inunda, eu deveria dizer,

as almas sorridentes de água choca

no bairro dos ricos, nos simpósios

que distribuem melhores soluções

em salas fechadas, nós de gravata

no pescoço da palavra consultório.

 

eu deveria dizer, então não digo,

você diz, e quando você diz leve

eu digo levo, mas com todo peso,

porque o amor é arrastar o corpo

de um pedinte no asfalto quente

de uma paz que dobra a esquina.

 

você diz que meus poemas de amor

não são poemas de amor, eu retruco

que o amor é um cu norte-americano

vermelho, inchado, tenso de câncer.

 

rastro de gosma de lesma nas bocas  

dos feudalistas acadêmicos da paixão

dedicados, atentos, a tudo que é bom.

 

assim talvez o que eu sinta não seja

esse amor que você vê e se emociona,

mas algo que desmancha a paisagem

daquilo que, de bonito, deve ser isso:

uma arma de fogo no coração do gelo.