31.10.07

"devaneios à vespera de um encontro"

empato comigo mesmo quando quero vencer a marcha simples do afeto e minha raiva, por mais que sim, não, não cabe, não sou grande o suficiente para morder lábios que não sejam imaginário sangue, e para encarar a própria faringe minha carcaça se apega fácil demais e odeia rádio que se ouve só, e, como Mozart, queria sair por aí perguntando “você gosta de mim?” e poder chorar por uma réplica negativa ou ter uma crise convulsiva se alguém tocasse uma nota de trompete, mas tudo supera a delicadeza e por isso só malucas se aproximam de mim do mim que não é meu, infelizmente, mas gostaria de dizer, ainda assim, para impressionar minha própria fragilidade: “dos trinta filmes que realizei...”, “de fato, dos 15 contos de minha última antologia...”, ou bocas em dúvida por causa de avenidas mudas, tortas, ou espertas demais, ou bichas sérias, o que não me ajuda muito na relação entre o que eu quero e aquilo que eu tenho na minha frente, sem saber no fundo do fato, de fato, que se passa na minha cabeça – isso é apenas uma cabeça? – quanto mais daquela menina com uma rosa falsa presa na orelha, que sorri ainda menos do que eu, e eu a amo, mais porque gosto da palavra que do significado que, burramente, ninguém soube definir assim como se define uma parede branca, sem saber que talvez o amor que já soa ridículo assim quando eu escrevo seja apenas uma parede branca e a mosca morta petrificada na parede branca que eu posso chamar de amor seja eu sem saber que você também tem sua parede, mais falta de amor do que amor em si, já que é tão fácil falar de amor, como se vê aqui.

não que eu goste. mas não também que eu use roupa preta e cabelo com goma, saiba usar a pelve ou camisa de botão aberta florida com cinto de couro, ou um espeto cromado fincado no queixo, ou que dance e abrace todo mundo como se fosse um pretexto para morrer. não consigo extremar sentimentos, respeito seu ritmo ausente de mim. A menos que caia na grama para ser carregado por um senhor barrigudo que parece com o pai que inventei agora e já me tapeou com um sorrisinho sórdido: o que nunca aconteceu e seria meu sonho.

fora o sonho, minha vontade sempre foi beijar uma mulher mais pesada do que eu. ninguém entende isso por isso eu não explico isso, mas é um tipo diferente de enigma sensual. somos iguais no que me diz respeito e nos difere: no caso a dor de ser gordinho. minha cabeça é gorda, sobra gula. pego nas banhas dela como sonhasse com meu próprio desfecho sorridente.

será que sou infeliz? palavras.

se todos bocejam, não me venham falar de chatice. falemos então sobre vaidade.

eu diria: a vaidade é apenas aquilo que se desprende de ti quando você está pensando em outra coisa que você pensa que é a maneira como as pessoas te vêem mas é de fato apenas você mesmo vendo, mas prefiro dizer: “fique aqui”. você diria: “nem pensar”. eu diria então: “você tem uma bela irmã mais nova” ou “como você vai?” você me estapearia. Carlos Drummond responderia: “mal, obrigado, minha irmã é careca”. e diríamos todos “te odeio”. como é estranho e rápido conhecer uma pessoa quando você já inventou ela (seria horrível ter que escrever corretamente aqui) desde o começo.

eu minto
que não consigo
dizer o que sinto
mas sinto
que não consigo
dizer o que minto.

não sei terminar essa
e para dizer a verdade
estou nervoso como o diabo
porque ela me espera
debaixo da marquise
e eu não sei onde estou.

28.10.07

“O momento mágico”

Sim, apenas pela sensação fugaz das linhas se fazendo. Sim, por uma bobagem, pelo espaço preenchido por qualquer bobagem. Por cataratas de bocas se abrindo e se fechando. Pela bobagem singela de um sorriso sem razão. Pela loucura liquefeita nos espaços entre as folhas de um eterno clima outonal. Sim, pela emoção fragmentada de gritos enxertados. Aquele espaço sempre quase mudo, a ponto de se realizar, se afastando. Aquele ranço entre o silêncio idealista e a solidão tácita. Existe talvez quem sabe um “não basta”, não basta apenas garantir uma sabedoria, porque no fim se perde e se nega, mas quem saberá realmente o que um dia chamou-se ingenuidade ou força de espírito? E onde estará em mim o amor de que preciso? Porque é preciso achar, sim, talvez apenas para ver a beleza das linhas se fazendo. Talvez apenas por uma bobagem. Sim, por uma bobagem. Só por causa de um rombo incômodo que repartimos em silêncio aos risos debaixo da fumaça dos cafés de filmes aos quais jamais assistimos, mas com cujas atrizes aprendemos a nos masturbar. Os sonhadores foram banidos para a obscuridade. O tempo é um constante dizer não ao convite de deus e, sim, é preciso ter de volta. O espirro inconseqüente de quem se arrepende da luta e cai, agora sem braços, criando suspiros ordinários de repente remetido ao movimento reacionário de um tempo ainda desconhecido, onipresente, sem saída.

26.10.07

"a felicidade anda bêbada de ônibus"

Entrei no ônibus sorrindo e cambaleando, como qualquer sujeito ao lado de quem se pode dormir sossegado, e fui para o fundo, chacoalhando com os buracos do asfalto mal reformado. Havia no ônibus algumas caras mortas e três meninas no fundo.

Assim que sentei, me virei para trás. Vi o reflexo de uma das meninas, a mais tímida e de cabelo crespo preso, muito nariz, pela janela da lotação. Um reflexo cansado. Ela entendeu o jogo, gostou da brincadeira secreta, olhou de volta pelo vidro da janela. Estava sentada ao lado de uma menina que usava uma luva preta com espetos de alumínio e tinha um tridente enfiado na cabeça, entre os cabelos.

Esfreguei os olhos uma, duas vezes. As três meninas riram. O que estariam pensando? Duas sentadas juntas de um lado. A terceira sozinha do outro, muito séria, cabelo enrolado, a franja que lhe caía sobre os olhos me deixou momentaneamente sem tato: o corpo duro, a vida dura, muito mimo, filha única, muito álcool, pouca troca justa. O melhor tipo para uma pessoa séria desempenhar mal. Ela me chamou mais atenção do que as outras duas juntas: a do reflexo no vidro e a dos espetos na luva preta. Ela era minha alma flutuando por entre os dentes de um sorriso falso. Eu olhava para ela sozinho, do meu banco, cotovelos sobre os joelhos, e ela era um motivo para viver. Um motivo para rir. Era pouco e era tudo. Um motivo para.

Percebi que ria de mim entre os dentes. Começou a me apontar. Pensei: “Então quer jogar? Pois muito bem, vamos jogar”. Olhei de volta e ri o riso mais canalha, aquele que se dá para as balconistas em alguns dias menos quentes, quando se acorda desmotivadamente feliz e até as remelas nos olhos são como que poéticas. Ela olhou de volta e fechou a boca. A franja deu meia volta e foi cair na ponta do nariz. Um sopro para cima e a franja alçou vôo, e com ela foi minha ilusão. Eu ri, eu ri, eu ri. Aquilo. Como era bom. Olhar para ela e rir. Como era simples. Como era mentira. Um riso tão raro, tão procurado por becos escuros e ruas sem saída e fundos de garrafas e vidas sem saída e mortes sem entrada e náuseas escorridas de noites mal dormidas nos pátios de árvores ressequidas da boa e velha vontade de ser esquecido pelo tempo e desintegrado no espaço. Era um riso com tantos pequenos detalhes imersos que senti a obrigação de olhar de volta, boca espremida no desejo de ir adiante, dar o passo à beira do cadafalso, pisar firme o chão movediço e levantar os braços, olhar para cima, para o Grande Palhaço, e dizer que dessa vez passa, que hoje tudo passa, que eu passo.

Ela sorrindo de uma maneira tão pura e indefesa e revoltada com a tristeza que gritava tão mais alto do que as cordas e notas das boas rodas de chá e mesa. Mas rir de volta para ela era tão inadmissível como uma descoberta: de modo que se enfureceu. Levantou, o ônibus como uma centrífuga, e começou a gritar: "Pára essa merda! Pára essa merda! Quero descer! Puta merda!".

As amigas intervieram me olhando com a raiva acumulada em anos de falta de compreensão. Eu só conseguia rir e rir, gargalhava, fazia tempo que não. Ela então veio até meu banco, meteu sua cara bem na frente da minha cara, soprou mais uma vez a franja mal cuidada para longe da ponta do nariz e disse: "Amigo, posso saber qual é a graça?". Eu disse: "Você é". As amigas já tinham se levantado. "Deixa ele, é um bêbado!", gritaram. Olhei para minha menina, querendo convencer a mim mesmo de que era minha, já que era sozinha e eu também só tinha minha solidão, passatempo da raiva compadecida, então disse a ela: "Viu, moça... Ouça as suas amigas... Sou apenas um bêbado".

Levantei porque tinha chegado minha hora, como chega a hora toda hora para todo mundo que tem que ir embora agora e para sempre. Fui andando, cambaleando, escorregando pelo tédio da viscosidade noturna. Parei na frente da felicidade. Ela estava tão perto, tão acomodada, que me deu vontade de ser feliz junto dela, ou renegá-la como a um deus justo. Ela tinha cheiro e gosto e forma. Quem foi mesmo que disse que a beleza é a única coisa divina e visível ao mesmo tempo? Um alemão provavelmente. Os alemães são os mais incríveis mentirosos.

Mas pela primeira vez era melhor ver do que pensar na felicidade. Ela me estendeu a mão num sorriso que borrava a noite de branco, mas era um sorriso morto. Dei a mão a ela e disse: "Muito prazer, eu te amo". As amigas da felicidade, o espelho e o espeto, acharam graça e riram da minha cara. Acho ótimo que eu ainda tenha alguma graça para alguém. A felicidade abriu a boca e ficou assim, com ela aberta, sem me engolir. Depois riu do seu próprio ego inflado e resolveu brincar. Disse por fim: "Muito prazer, meu nome é Graça". "Eu sei... Eu sei...", disse a ela e desci do ônibus.

Olhei pela janela. Ela estava ali, com a cabeça de fora. Tudo rápido demais porque mágico. A eternidade não dura mais que cinco quadros. Nem a beleza. O mundo ainda tinha vida na sua melhor metade. "Fique com deus", li nos lábios da Graça, da Felicidade. "Você...", eu disse de volta apontando, meu rosto como a parte preponderante que some na escuridão da vontade. Até mais ver, Felicidade.

24.10.07

"solidão"

Solidão é quando o prazer se torna uma busca frenética e nos esquecemos de que a busca frenética é que deveria ser o prazer. Solidão é a graça dos ordinários, a desgraça dos sensíveis, o refúgio dos literatos, a estética do desempregado, a paz da fé no que nunca foi visto. São duas camisinhas no bolso e um vinho empoeirado em cima da geladeira. É quando os valores se tornam lágrimas dentro de um copo pela metade e o sorriso honesto está na outra metade que não existe mais, se esfarelou. Foi devorada pelo mundo. Solidão é o pedido de desculpas de um asmático, relações movidas a “com licença”, “por obséquio”. É jogar pôquer virtual, faturar um milhão virtual, tirar as cuecas e dormir sentado. Se pintar de palhaço e escutar Erik Satie, masturbando-se. É babar no travesseiro, acordar suado e virar o travesseiro de lado, para não voltar a dormir nunca mais. São os minutos contados para o sonho cortado quando a gente finalmente voa. Solidão é acordar deste sonho e só lembrar da queda, que nunca existiu. O vapor de uma panela cheia de óleo quente. É abraçar um retrato antigo ou olhar pela janela e ver a si mesmo estirado lá embaixo. E ao mesmo tempo continuar aqui, ajeitando os cabelos que sobraram na frente do espelho, passando talco antes de vestir as meias. É o vício de si mesmo, a maior droga inventada depois do amor. São conselhos para a vida toda, é a vontade do outro por você: “seja feliz”, “você tem tudo”, “é o bastante”... É o bastante? O quê? Tudo? Melhor que nada. Será? O quê? Nada? Não exatamente, nunca exatamente... É observar o tempo e ver uma mula manca fustigada por um mujique russo enfezado e com bigode, suor, chicote na mão. Uma pomba amassada na via expressa, alimento de mais dez pombas. É quando o nariz de um filho escorre sangue e o pai pergunta se ele andou cheirando cocaína. Um pano com álcool, por favor, ou benzina. É quando tudo tem o mesmo sentido, porque todo o sentido se tornou o próprio anacronismo e o anacronismo, a crônica do dia seguinte. É a paciência da barriga inchada de fezes e tédio. É o tédio como virtude, como progressão aritmética, a vida calma de um pedófilo num domingo ensolarado. Ouvir as reclamações dos outros e procurar nelas os buracos vazios das tuas próprias. Convencer os outros de você. Pedir de cabeça baixa. Aceitar com os ombros. Escrever para ler os comentários. Pedir que leiam e comentem. Distribuir panfletos sem assunto. Não falar a quem se ama. Não amar a quem se fala. Aprofundar simplicidades. Suspirar forjando novas dores para que alguém se preocupe contigo. É quando mentira e verdade são uma coisa única, mentira portanto. É quando a punheta é o mais longe de si mesmo que você pode chegar. Uma punheta sem gozo. Uma ligação para o interior de São Paulo. Sou eu me olhando e vendo a mim mesmo. Monótono como uma escova de dente debaixo do basculante do chuveiro. Programar a semana. Pensar em novas possibilidades artísticas. Dizer “possibilidades artísticas”. É o vento derramando os objetos do quarto e você deitado na cama suado, sem dormir, dormindo doze horas por dia. Cuidar da vida. Entrar no psicólogo. Arrancar os pêlos do nariz e do rosto. Recorrer à astrologia para explicar a vida sem saber que a graça da vida está no que dela não se explica. Ler dez páginas por dia de um livro eterno. Um livro cheio de orelhas. Um Eu Te Amo maiúsculo sem valor algum. Olhar para a porta e te esperar entrar. Sentir o sono dos derrotados. É quando todos se tornam um só você. Mas é só você quem não está ali.

22.10.07

“a palavra”

eu apenas coloco a palavra
na cabeceira
e a verve diminui um pouco.

então vou sorvendo as poeiras
interessado pelos móveis
pelas esquinas de um pensamento torto
de uma alma não-falada.

esse tolo vaso de cerâmica sobre a mesa
esse tolo vaso em cacos na lembrança
e os limites do quebrar o vaso em cacos
para apenas colocar a palavra
na cabeceira.

18.10.07

"Jabá!"

Existe doido para tudo. Entre os mais doidos que conheço - isso entre os doidos assumidos é um baita elogio - está o querido Fernando Ramos, editor e leão de chácara do Jornal Vaia, lá de Porto Alegre. Alguma coisa deu no subversivo camarada para ele me fazer uma série de perguntas sérias sobre literatura, publicadas junto com as minhas respostas, e mais dois poeminhas pretensiosos, no site do jornal.

Quem não tiver nada melhor para fazer, clique aqui, e descubra como é fácil parecer inteligente e/ou ser pedante sem nem mesmo sair de casa.

"Rodriguianamente Brasil"

No Maracanã, nesta noite de quarta-feira, poucos gritos mobilizaram a torcida desunida em 90 mil cabeças, que se manteve quase todo o tempo em silêncio. Eis abaixo uma tentativa fiel de reprodução dos mesmos:

"Ei, Galvão, vai tomá no cu!"

"Uuuuuuuuuuuuhhh!"

"Lá na Rede Globo só tem viado / Galvão Bueno... Come o Arnaldo!"

"Ih, fudeu! Ronaldinho apareceu!"

"Ôooooooooooooooooo... Melhor do mundo!"

"Oléeeeee! Oléeeeee!"

17.10.07

“noite funda, silenciosa”

pensei em ti na madrugada,
ouvindo músicas sem melodia.
pensei na vez em que o dia
era noite dentro do quarto
onde não conseguíamos amar.

pensei enfim no teu sorriso,
no vacilo breve da tua pele,
nos modos do teu precipício,
no riso leve do teu carnaval.

pensei em ti, e não por mal,
não porque me mal querias,
mas pelos beijos de gengiva,
o amor das pernas enlaçadas,
o sim das frases silenciosas.

pensei em ti por sentir próxima
a morte: sinal da última beleza.

15.10.07

"O rosto e a poltrona"

No sonho eu ainda acreditava no amor reconhecido. Sabia disso porque me sentia inseguro, com frio, sem fome, com raiva – no céu da boca o rastro de algum ansiolítico.

Eu andava no sonho, com um velho roupão esfolado. Havia também você no sonho, você visitante, você de passagem, você que não veio, você inviável, você mil caminhos, ali estava você, querida sem rosto: você que sorria.

No sonho fingíamos. Você dizia:

- Ah, querido, que dia lindo faz lá fora, lembra aquele dia perfeito... Vamos sair?

Eu sorria:

- Escuta, preciso da sua ajuda para encontrar um título.

Você não entendia aquilo, do dia estar lindo e eu pensar em títulos. Você, que no sonho era minha ternura perdida, você que se lambuzava sentada à mesa, não sabia o que dizer. Existia algo brusco no meio dos espaços vazios, frágeis, antes ocupados por brigas, por choros incontestáveis, por palavras de desespero, pela vida que se esvai, pelos passeios a contragosto no parque, onde comíamos cacau da árvore, que não era bem árvore de cacau, depois viemos a descobrir.

Havia uma pessoa contigo, uma pessoa com rosto, com as unhas pintadas. Lembro as unhas pintadas, não lembro a cor, não lembro o rosto, mas era bonito. Não tanto quanto o seu, que era rosto sem rosto, sem rosto o meu amor. Que estava magrinho e com os ossos à mostra, como gado faminto, cabelos cortados, mas estava amando, assim de um jeito tão bonito e antiquado, meu amor amassado, amor amando, e eu precisava apenas de um título.

- Eu tenho os textos, mas eles não apresentam nenhuma unidade. Eu preciso de um título que dê aos textos um eixo comum.

Você andava de costas e de lado, maquinando expectativas que eu sabia de cor e pelas quais eu dizia: “Mas como?”

Agora era você com um roupão esfolado, enrolando um tapete, malas na porta, as unhas pintadas eram tuas, ainda sem rosto, sorrindo cansada, e onde estava a amiga? Eu estava tão triste que não podia chorar. Estava agora sem roupa, magro, a luz baixa e a coceira na carne.

- Preciso ir embora.

Impossível saber quem disse a frase.

Eu te acusei, meu amor. Eu te acusei porque tremia de frio e você precisava ir embora, você precisava seguir o ritmo recusado pelas harpas de satã. Eu te acusei porque o amor é um paradoxo perfeito para os que andam pelo quarto – e eu fumava! – à procura de títulos para frases sem eixo, com o roupão esfolado.

- Você é egoísta! Você não me ajuda!

Você desenrolou o tapete e me mostrou títulos bordados nele. Você foi paciente, amor sem povo, você foi indiferente e calma. Das janelas, muitos te olhavam sem saber se você estava morta. E aplaudiam. E apontavam.

- Preste atenção – você dizia segurando o tapete aberto. – Os títulos devem ser simples: “Rei Lear”, “La Chinoise”...

Os títulos bordados no tapete, que você voltou a enrolar. E havia também agora o sol, como um parente indiscreto, quando entrou no quarto acusando um rastro de poeira, tão parecido com a necessidade dos que amam sem saber que nome. Porque a necessidade dos que amam é poeira que entra e sai pela janela.

Eu disse que pularia, que pularia pela janela se você fosse embora. Você me olhou e, quando me olhou daquela forma, tinha no rosto um outro rosto subliminar, um rosto que permanecia em constante mutação, como se fosse todo o desprezo e a pena do mundo, em plena mutação, alguns lances sublimes, em formas guardadas na minha mente que não guarda mais formas.

Você pediu que eu ajudasse com as malas, que levasse tudo até o carro. Eu disse que não levaria coisa nenhuma, mas, como nos sonhos, muitas vezes nos negamos e somos arrastados por forças ainda desconhecidas.

Estávamos num hotel daqueles com carpete vermelho, senhoras falantes de olhos fechados e maçanetas douradas. Os valetes usavam um chapéu coco desses de boneco de ventríloquo. A menina das unhas pintadas, com o rosto bonito de que não me lembro, desceu conosco, e sua presença era um hálito quente na minha nuca, dizendo: “Procure sozinho”.

Lá embaixo, as malas empilhadas, um lenço que pendia esvoaçante no seu pescoço, um pescoço roxo, decaído. Eu gritei, finalmente. Eu gritei barbaridades sobre ausência, egoísmo, ostentação e máscaras. Eu usava uma.

- E de quem é esse carro? – eu gritei.

Havia um carro na porta do hotel.

- Quantos carros você tem? – insisti.

- É do meu namorado – você disse de unhas pintadas. – Ele tem dois, ele é rico, com banco de couro e tudo...

Eu te ofendi, meu amor sem rosto. Eu ainda não tinha um título e você estava feliz, com o pescoço roxo, o lenço caído no chão, voando sozinho no tapete vermelho do hotel com maçanetas douradas, de onde vinham lanças de luz ao sabor do sol. O sol desnudava a poeira mais uma vez, e eu pensava em janelas, em varais de roupas lavadas, nos dias perfeitos que funcionam melhor nas músicas, no que entra e no que sai da vida, no que tínhamos quando nos sentíamos miseráveis, juntos, a contragosto.

Pensava em quando ainda chorava, quando não era ainda tão triste que não podia chorar. Então quis chorar. Me escorreu uma água suja dos olhos, então eu disse:

- Vou procurar sozinho o meu título, não preciso de você, você se tornou alguém desprezível, vá embora com seu banco de couro, com seus tapetes cheios de nove horas, com seu pescoço roxo decaído, não quero você mais aqui, tome seu lenço, e não me procure nunca mais!

- Essa frase fui eu quem disse – você disse – há muitos anos. Quero de volta a poltrona que eu te dei de presente.

E então subimos, pela última vez juntos, eu e meu amor sem rosto, para desmontar a poltrona e trazê-la aos pedaços, uma poltrona enorme, já que inteira ela era insuportável, pesada demais, não daríamos conta sozinhos.

13.10.07

"beleza"

uma mulher já nasce morta,
bustiê lilás, todos a vêem,
mas ela não pode ver ninguém,
a si mesma talvez, ou nem
(misto de pó e defunto)
saber se é num minuto
que um vulto a torna presa,
a alma sempre ao pé da mesa,
dor infinita, sorriso-prótese,
certa porque bem calculada,
desconsolada se acaso rebola,
estátua forjada no prostíbulo,
obrigatório ciclo porque quase
(sem vontade) toda a glória
necessita tanto alcançar a vitória
que se torna incapaz de reconhecer
coisas pequenas e defeituosas,
que urgem às escondidas.

7.10.07

“cocaína”

esta noite seremos os peripatéticos.
cheiraremos as flores de plástico,
daremos, cegos, as mãos aos cães,
cortaremos fora os próprios braços,
beijaremos, nus, falsos espelhos.

nós arrasaremos todos os sorrisos.
criaremos traumas do amor desfeito,
lembraremos metas, mijaremos tinta.

falaremos ao demônio da nossa causa
sem vergonha de ser a parte alheia
da metade insólita que estragou a fruta,
de ser a causa bruta sem eira na beira
assassina que foge à hora da espera
pelo tombo do noivo na porta da igreja,
pelo choro constipado em juras poéticas.

nunca mais a lembrança do instante vago
de ter apagado o rosto da mãe cavilosa.

"a hora máxima"

aos amigos as mãos cortadas
sugerem tardes tenebrosas em que fujo
escavando o vácuo e no asfalto a chuva
cria leve uma fumaça que soa lilás.

ficarão, sim, aqueles corrimões alados,
as onças pintadas pelo esforço do medo.
ficará talvez aquela caprichosa lágrima
mas ninguém saberá o que deve ser feito.

quando enfim a hora máxima se acumula,
o crepúsculo é a alcova do Conde Drácula.
e lá estarão os portadores de boas novas,
ainda lá o tabu das noites, o túnel sem luz,
o piano desdentado, a fome sem teclas.

talvez os cacos de uma delicadeza inerte
tenha enchido de sulcos os traços da face.
quem sabe se a farsa do que não permanece
não será a pedra de pouso dos que passam?

3.10.07

"Um dia pintarei meu quadro de um azul que nunca se viu na Terra"

*adianto que o texto é antigo, e fala de um tempo morto, vivo dentro de mim, em algum lugar desconhecido, que procuro sem saber como.

Lembro que vi todos bêbados e santos em cima de uma pedra-pouso-para-discos-voadores-terrestres ali na Urca. Olhei pro Cris e falei: “Esses babacas estão todos doidões... Olha ali, parece uma seita satânica”. Ele olhou pra mim, estávamos na calçada: “Deixa que a maré tá subindo e vai varrer tudo dali”. O fato de a maré subir e estar sempre subindo, descendo quando você quer que suba, o inverso também. Nunca vai nos respeitar, a maré. Não depende de nós. E o que vi naquela tela, ao passo que dependia de tudo, por vezes senti que escapava do Nós, do Eu, do Meu, que seja do Nosso, e passava a ser independente, não barato nem inconseqüente, apenas independente, como a maré.
Mas todos na pedra de braços cruzados, pulando de uma pedra à outra, rindo, se olhando. A água dando seus últimos avisos. No fundo, um senhor de bengala, um negro pé-de-cacau, dobrava a cara segurando as calças, boca suja de areia e dobras sujas de merda de baratinhas do mar, dormia profundamente o velho, bainhas dobradas, foi até o meio do caminho, acordado pelo fuzuê do trompete com as exaltações incontidas quando se tem tudo de que se precisa muito perto do nariz. Então ficamos meio abobados e beatíficos. Como os anjos, como os santos, como os assassinos. E vem a maré... E o velho do candomblé... Olhei pra ele bem de perto. Saiu de dentro do chão, acendeu gás, lampião, a dor. Olhou em volta e observou o tom de comemoração, cansaço, música rápida, fumo em guardanapos e leitura de Kafka, na base da risada. Viu tudo, piscou os olhos, acendeu sua luz, sua única luz, na mesa de vigas entortadas pelo efeito da corrosão do tempo que cisma em se exibir derrubando coisas no limbo.
“Ei, Cris, vou sair fora daqui... Aquele velho macumbeiro ali tá me deixando tenso”. Ele riu, mas ficou tenso também. E rimos então. Mas eu podia ficar ali em cima sem problemas. Podia ver toda a verdade lá de cima. Olhava pra baixo e via o processo da morte, não como conclusão, talvez um pouco de sorte e, claro, idéias de grande porte e dúvidas ainda maiores.
Filhos da puta, pensei comigo mesmo sorrindo. Agarraram o acaso também e agora eu não posso dizer mais nada.
Tudo aquilo, coisas da sinceridade, meu alimento, minha alfafa: o riso impostado do Alvarenga, suas canções e seus olhos espremidos, sua vontade de voar quando dança, suas mãos se mexendo no ar quando diz a verdade que passa por perto e quando endoida sem parecer besta, quando quer agarrar tudo com seus grandes braços desajeitados e cheios de coisas e vontades que podem me salvar.
As conversas de ombros encolhidos sobre o abraço do mundo que o Cris me dá sempre, o olhar pro outro e sentir uma compaixão solidária, solitária sendo quase conjunta, mas boa, confusa, porque maduro é morte e a solidão nesse caso seria da compreensão de que temos um ao outro.
A leveza do olhar e a profundidade de qualquer chegada de olho ou a frase calma de qualquer mão no ombro do João Duarte, meu inverso igual, seu jeito de ser que, vendo assim, faz babacas como eu duvidarem se aquilo realmente pode ser: minha estúpida limitação, tanta merda não podendo que pode.
E aquele sopro cansado, coado, procurando, desesperado, onde está Chet Baker, ajeitando os óculos, sacudindo a cabeça. Sofro como ele, onde está ele? O sopro cansado na toada fugaz da batida de veias e pulsos no galope incontido da música-maré. Um Maquiavel de boinas com hastes do tipo Dave Brubeck que jazz dentro de si próprio e quer entender também porque tanto ódio, tantas convenções desajustadas, tanto pavor quando tudo é apenas música. Mas dentro dos olhos...
Ah! Dentro dos olhos está o pântano submerso. E dentro do pântano estão ostras nojentas. E dentro das ostras nojentas, gosmas pegajosas. E, por fim, a PÉROLA INTACTA. Estamos juntos ali. Uma pena que amanheça todo dia. E uma pena que eu não saiba falar do amor.
Na pedra agora um discurso:
“Sem vocês isso jamais estaria acontecendo...”
Eu agora estou de volta à pedra. Existem momentos que viram quadros. Se eu pudesse pintá-los seriam os mais lindos quadros. De um azul que não teria fim, que a Terra não conhece, e vocês se espantariam com o meu azul sem fim. Dane-se a arte! Que importa o que já foi pintado? Precisamos viver; e já! Precisamos sinceramente precisar viver já. Como nenhum livro explicará.
Eu pintaria um quadro de vocês, bros, pretty bros, um quadro de um abraço com meias, um quadro de cinzas nos cabelos, um quadro de esculhambação, de dancinhas-Prince-abaitoladas, dos melhores choros, das melhores bundas, dos grandes abandonos compartilhados, dos maiores sonhos, do que não pudemos agarrar nem mesmo tentar explicar, daquilo que passou e deixou um grande peido fedorento e silencioso, tudo o que se misture com as grandes infantilidades e com os brindes de uísques velhos e uísques novos e uísques bons e ruins e conhaques e vazou e lambidas de dedo e sorrisos de meia boca e caras de sacana e todas as palhaçadas e todos os momentos vivos que me possibilitaram. Porque é impossível ter que sentir isso e falar disso ao mesmo tempo sem chorar, porque o choro é sempre pelo impossível, que agora, graças a vocês, acaricia minha cabeça todas as noites antes de dormir. E então não durmo mais, então vejo o dia voltar em azuis violáceos, tantas tonalidades, Álvaro!, são tantas as tonalidades!, são tantas as possibilidades de erros e acertos!, temos tudo!, tudo o que pudermos misturar com o caldo da emoção!
Temos tudo porque podemos sentir a brisa avisar aos marujos: “homens ao mar!”, porque temos o instante, a vontade de voar, apesar dos passa-pernas convencionais, pois nos faltam asas. Mas digo: Na-na... Vocês não podem mais me agarrar! Agora eu tenho o mundo, ou o que dele me convém. Agora eu sou o abraço que tentei dar mas os braços não conseguiam se esticar tanto quanto agora o pranto que me enche os olhos tenta saltar para longe, onde a vida era o mistério e a morte chegava sem avisar, porque a vida é o máximo que a morte pode me dar.

Vocês, seus miseráveis sonhadores e adoráveis, vocês podem chupar o universo de canudinho. Nunca pensem que não. E como que eu posso falar de outra coisa que não seja o amor?