abraço frígido de um
desejo amputado
– amputar ainda assim é manter
o abraço.
o abraço é uma festa com mascotes
contratados.
escrever para não agir como
algo que se arranca,
mas que nunca deve ser
feito sem amputação.
não pode inclusive ser entregue
por inteiro,
é preciso ser pedaço do que
nunca teria sido
se não fosse exatamente a
prótese do que se é.
amar vizinho do que não suporta:
não suporto, amo.
longe do que gosto sinto
falta das coisas insuportáveis.
descanso minhas veias apressadas
nas estantes
de um vendaval sempre prestes
a puxar caminho,
onde os futuros se guardam
em gavetas secretas.
nem bem nem mal o anjo
acende um cigarro no teto.
gostoso olhar um anjo fumando
um cigarro e refletindo.
pensando que caralhas
ou até sendo mais decisivo.
no rastro de uma
impossibilidade sorridente admitir
pedaços mínimos de milagres
tão fora de moda.
os fantasmas se transformaram
em cortina de casa.
tudo passa, nada passa: nuances,
nuvens com olhos.
fora da agência do trauma
brinquedos na praça enterrados.
há que se povoar o mundo
de dentro ele tem bolsas nos olhos.
o fantasma é um amigo: dormimos
juntos, mas eu lhe pago.
a culpa do mundo não é culpa
de cada um ou do grupo.
a culpa do grupo não é culpa
do mundo e de cada um.
isso não resolve, mas me
coloca na precisão do poema
após plantar maçãs magras
no olho de um atentado:
emblema de negação e luz,
escuridão tremenda do raio,
antídoto infectado de uma
culpa toda nova, leve culpa.
a chave de ferro do sonho
usada em volta do pescoço
e o poema lá, na graxa, como
um trauma endividado.
