17.8.26

"a loucura sem história"

 

conheço loucos de todo tipo:

loucos de amor, loucos de ira,

loucos que não falam nada,

loucos que falam sem parar.

em mim há um pouco de cada,

os loucos são a minha legião.

 

mas a loucura que não serve,

a loucura que não conheço,

é aquela daquele que nunca

sentiu-se fora de si, estranho

a si próprio e, pior que isso,

sem poder amar o estranho

que no fundo é seu amigo.

 

conheço loucos de todo tipo:

carinhosos, perdidos nas suas

próprias linhas de vida, puros

como crianças e depravados

como aqueles que escondem.

 

tenho sido obrigado a conter

meu estranho em mim porque

ele às vezes fala por mim,

como se quisesse algo meu,

como se eu fosse o capataz

que serve a ele e serve mal.

 

já não temo o estranho meu,

vivo com ele com pastilhas

e remédios fortes que atuam

para que ele esteja de acordo

com o que a sociedade julga

ajuizado – lúcido – prudente.

e aí vive o meu maior medo.

 

8.8.26

totem & tatu

 

abraço frígido de um desejo amputado

– amputar ainda assim é manter o abraço.

o abraço é uma festa com mascotes contratados.

escrever para não agir como algo que se arranca,

mas que nunca deve ser feito sem amputação.

não pode inclusive ser entregue por inteiro,

é preciso ser pedaço do que nunca teria sido

se não fosse exatamente a prótese do que se é.

amar vizinho do que não suporta: não suporto, amo.

longe do que gosto sinto falta das coisas insuportáveis.

descanso minhas veias apressadas nas estantes

de um vendaval sempre prestes a puxar caminho,

onde os futuros se guardam em gavetas secretas.

nem bem nem mal o anjo acende um cigarro no teto.

gostoso olhar um anjo fumando um cigarro e refletindo.

pensando que caralhas ou até sendo mais decisivo.

no rastro de uma impossibilidade sorridente admitir

pedaços mínimos de milagres tão fora de moda.

os fantasmas se transformaram em cortina de casa.

tudo passa, nada passa: nuances, nuvens com olhos.

fora da agência do trauma brinquedos na praça enterrados.

há que se povoar o mundo de dentro ele tem bolsas nos olhos.

o fantasma é um amigo: dormimos juntos, mas eu lhe pago.

a culpa do mundo não é culpa de cada um ou do grupo.

a culpa do grupo não é culpa do mundo e de cada um.

isso não resolve, mas me coloca na precisão do poema

após plantar maçãs magras no olho de um atentado:

emblema de negação e luz, escuridão tremenda do raio,

antídoto infectado de uma culpa toda nova, leve culpa.

a chave de ferro do sonho usada em volta do pescoço

e o poema lá, na graxa, como um trauma endividado.