24.6.26

"monstro – poema pálido"


oito horas de uma chuvosa

manhã e parece que morri.

caminho por um bairro nobre

e não posso dizer

que me sinta mal,

não posso dizer nada e tento,

então meu rosto se contorce,

minha espinha humilde torce

meu corpo e diz: não falarás.

 

por não ser eu mesmo nobre

e levar por ali um corpo feio,

ganho a característica exata

de criança agigantada

ou de um adulto anão.

tudo é nobre diante de mim,

o mundo funciona ao longe,

a espécie supera os desafios

e segue um desfile campeão.

 

por que não eu, também,

campeão entre campeões,

na solidão do meu bairro,

de uma nobreza decadente?

 

devem existir, talvez, micro

campeões que possam se gabar

de ter um bairro, uma rua

onde desfilar seu pequeno ápice

na brecha dos bem maiores.

mas me vencem os fungos,

as bactérias, a sarna, o piolho,

faz greve meu sangue milico.

 

tampouco me sinto bem

noutros muitos outros bairros

bem menos nobres, eu até diria

que são bairros perigosíssimos.

 

sempre me senti mal, não mal

por não pertencer ao lugar, mal

porque a espécie como um todo

me escapava deixando uma alta

poeira de pegue-me-se-for-capaz.

 

chove muito, minha doença,

que agora é essa amiga

sem culpa, a mais assídua,

se alegra da mucosa cerebral.


por mim passam pessoas

(será a elas que pertenço?)

sem intenção de me dizer

que também vão elas mal,

mas seus olhos, na chuva,

são agentes duplos, traíras

de uma intenção vencedora.

 

estou sem capa de chuva,

estou na chuva em busca

de uma ração para gatos.

 

sinto falta das pessoas

quanto menos quero vê-las.

comunico-me com vísceras,

então me tenho calado.

 

assisto fora do corpo,

de um camarote vip,

a revolta das vísceras

no desfile dos espiões.

 

a chuva desaba como um grito,

engulo o líquido comum, poça

da qual desdenham os pombos,

água daquilo que nunca poderia,

daquilo que depois nunca pude,

do que não podendo jamais fui

e agora apenas não posso mais.

 

estreito, o mundo não dá

para pôr a mão, amamos

na ponta dos dedos, foge

o grito na ponta dos pés

na medida exata do nojo.

 

bebo na chuva o líquido

florescente de uma lata

com a palavra monstro.

engano e conformidade

lançam um pé no outro

em derrota darwinista.


por engano e conforme

sou agora qualquer um.

um aleijão emancipado

na crista do afogamento.