22.3.21

“trazemos deus nos focinhos”


tem sido por aqui bastante impossível

esperar que a vida volte, como a noite,

a nos arrematar com martelo de beleza

os pinos do nosso magro amor enrugado

diante das portas que no sonho se abrem

enquanto jogamos dados sem números

na banca de apostas da nossa extinção.

agora que nossas cabeças

incham com areia de horas

e se despem da experiência

daquilo que, pensávamos,

nós teríamos sido um dia.

nossa espécie é a dúvida,

jamais soubemos de onde

viemos e para onde vamos,

mas isso nunca doeu tanto.

ano passado faz dois anos,

ano que vem ele fará três.

será que, daqui por diante,

contaremos ano passado para sempre?

fico feliz de não estar louco sozinho,

que a loucura aqui seja companheira,

mas triste de não poder compartilhar

a loucura dos que enfim se libertaram

de precisarem acreditar em algo a mais

que espera na frente e não se pode ver.

 

 

23.2.21

"boa viagem, velhinho"

para lawrence ferlinghetti

 

você era o espadachim dos mendigos,

na criação de um marinheiro francês,

você deu a volta ao mundo para cruzar

com os da sua laia, e eles não duraram

tanto quanto você – que vida, maestro!

eu imagino você arrotando coney island

depois do almoço feito de comida crua

e andando com as mãos geladas dentro

de bolso de calças velhíssimas e sonhos

de uma criança, pensando: eu enganei

todos eles, que me imaginam um sábio,

enquanto sabe que o parque da mente

é muitas vezes o estacionamento vazio

onde paramos nossos carros capotados

que não sabemos dirigir, mas já é hora,

vieram agora arruaceiros atrás de você,

vá lá, foi você quem inventou isso tudo,

agora se vire e descanse sua cuca de nós.

22.2.21

"o caso dos caquinhos"

para suzana, adelaide, jô e natércia

 

dia desses quebrei uma tigela de vidro,

uma que era da minha sogra, ela usava

para fazer macarrão com atum, a tigela

perfeita para se fazer essa receita dela.

 

simplesmente apanhei os cacos na pia,

coloquei dentro de uma caixa de papel,

pensei em como eu era bondoso porque

era capaz de pensar na pessoa que iria

recolher a caixa e não cortaria as mãos.

 

e tomei a decisão de não contar nada,

o que, depois de perceber que a tigela

havia mesmo se quebrado, pois não era

possível que tivesse sumido, então tive

que me declarar culpado, a posteriori,

assim pensei que aquilo era uma falha

de caráter; uma amiga minha me falou

que escondi porque eu não tinha mãe.

 

agora penso que era também porque

eu nunca pude olhar com facilidade,

da minha posição de órfão precoce,

alguém ficar infeliz por algo que fiz.

 

minha mãe espiritual então me disse:

os homens vieram ao mundo apenas

e tão somente para quebrar as coisas.

isso me serviu melhor do que pensar

que eu era um criminoso sem caráter

e que, no fim das contas, é bem bom

ter várias mulheres sábias por perto.

 

isso me fez pensar em outra conexão:

essa minha amiga também escritora,

a primeira escritora que eu conheci,

acaba de escrever uma novela sobre

cacos que juntamos quando somos

quebrados por dentro da nossa vida

pela morte de pessoas que amamos.

 

senti vontade de dizer a ela que, sim,

mesmo escondendo muitos cacos ruins

debaixo de tapetes que não eram nossos,

chegamos aqui de pé, pobres flagrantes

do amor que nos consumiu e nos tornou

a brasa calma de um bombardeio aéreo –

resta comprar uma tigela e pedir perdão.  


4.2.21

"trinta e nove"

 

é bom que finalmente

seja muito bom estar

no radar das pessoas.

aprendo a amar assim:

fecho os olhos e ouço

o que me diz o contorno

de alguns rostos e pés

dentro dos olhos fechados.

hoje começo a jornada

de abandono dos anos trinta

na carcaça do meu ânimo

e depois será para sempre:

mudar o som do destino.

quarenta, cinquenta,

sessenta, setenta, oitenta,

quem sabe, não imagino,

mas talvez não mais sinta

a vida como a queimada

do tempo que não mostra

ainda seus dentes escuros,

a cara de marfim do órfão,

então lembro que um amigo

me viu com a cara na parede

e me disse não se preocupe,

você está apenas jovem

há mais tempo do que antes.

29.1.21

"dia a dia na pandemia"


à noite leio o livro mais grosso de kafka.

penso que a melhor literatura do mundo

pode ser aquela que causa mais vergonha.

sonho com ratos que invadem o colégio,

mas os amigos todos agem como se nada

tivesse acontecido enquanto, assustado,

digo o rato, olha o rato, ali, mais um rato.

 

pela manhã evoco a paz pelos intestinos,

depois invento por uma hora, em silêncio,

que sou uma pessoa que quase nunca sou.

preparo no gelo as frutas, calculo apanhar

minha bicicleta, enfrentar o calor e o caos.

 

tenho dificuldades para escolher a música

que gostaria de ouvir enquanto pedalasse,

com ansiedade inerente ao fato de que sou

incapaz de enfrentar a rua sem ouvir música,

enquanto me forço pela parte mais íngreme

no trajeto do lugar onde vivo até o  trabalho,

um pouco antes daquele túnel muito velho,

na tentativa de imaginar, nesse momento,

que sou agora um piloto de alto rendimento,

que calcula, na saída do túnel, a abertura

que deve fazer, no arco em que se encontra

a linha única do super desempenho ciclístico,

e quando, perfeito é o arco, poderia esperar

o vento forte no rosto sob os quarenta graus

da cidade linda de tão vazia e desprezível,

cemitério onde os restos de carmen miranda

fervem na poeira como sopa de pedra infinita

por dentro da nossa cômica desolação comum,

esperando saber para onde vai este que nunca

sou eu mesmo entre os personagens inventados.

 

de volta do trabalho, separo os potes do amanhã

e sinto o apodrecer do mamão que, no outro dia,

será cortado, numa felicidade trágica, mas amiga.

e lembrarei, um por um, os mais amados nomes

que a distância mastiga na face do esquecimento.


8.1.21

“rolar da pedra que vem das águas”


para charly garcia e luis alberto spinetta


ouvir roque argentino psicodélico

e também aquele folk de chimarrão

e sentar por uma hora ou meia hora

esperando um raio, ajuda, sossego,

e comer algo rápido sem esperança

e depois arrotar como um burguês

o salame que, algumas vezes, tirou

sem pagar do supermercado onde

talvez se esteja espancado à morte

no estacionamento por trogloditas,

ainda assim passar vivo – até aqui

imaginar que se é um alienígena

e se sentir ao mesmo tempo feliz

e muito triste por saber que não há

muitas pessoas, agora, escutando

roque hermano, folk de chimarrão,

e também sozinho por ser de outra

espécie de animal cujo paradeiro e

origem não podem ser conhecidos,

então uma força estranha acomete

até aqui para apenas se deixar estar

em bulbo de flor, lagarta no casulo,

um corpo na cruz, qualquer cláusula,

mas sem cláusula saber salame ham-

burguês, seus intestinos burgueses,

mesmo sem muito dinheiro e terror,

ainda assim uma chance em milhão,

pequena vocação, um tanto heroica,

no rolar da pedra que vem das águas

do rio da prata, arredor de um sonho

esquisito como todos aqueles bichos

magros muito altos, bichos curvados,

que tratam com papoulas e pimentas

a cinzenta amnésia latino-americana.

 

 

 

“o incontrolável coração de leonardo fróes”


estou cansado e forte e penso no meu xará

com alma confuciana e canelas esdrúxulas,

um samurai, inclusive, com olhos puxados

e um milhão de anos na carcaça de um pã

que nunca, em tempo algum, pude encontrar,

enquanto anos a fio sonhei com a ideia

de ter qualquer espécie de sábio guru

sem breguice e que pudesse me dizer:

leonardo faça isso, leonardo vá por aqui,

e que sobe em árvores crespas e explica

cada órgão de cada filho verde de deus

como, enfim, o sonho de uma criança

também de olhos puxados e aquariano,

também uma tentativa, com mais medo,

de entender maneira de frear o que é ruim

e amar os mais novos conforme a tartaruga

pode amar suas centenas de ovos, um a um,

e enfrentar a maior travessia da sua vida

rumo a destino incerto, sinuoso desfecho,

um animal antigo que ama o suficiente

para fazer o que não é possível e por isso

completa a jornada como um pai, um filho,

como um ciclo vivo de carne e muito osso,

mandala refletida em dentes e compaixão,

um que sabe que nos sonhos não se dorme,

que o mal acontece e todos podemos ver,

mas dentro do órgão de cada fruta ele vem,

inquieto, uma criança de um milhão de anos,

com quem se aprender que quase sempre

a estrondosa derrota é verde como o perdão.

6.1.21

“verão gelado de poemas bonitos”


a noite enforca os parapeitos

dentro da cidade, também no mato

alguém se move lentamente

sobre a fina dúvida de um suspiro.

 

alguém no fundo da lenda do encontro

encobre de gelo uma parada de ônibus

e as luzes emagrecem sob os holofotes.

 

é frio quando qualquer um pode

– num segundo e muito embora

permaneça a cabeça no pescoço –

desaparecer do árduo convívio.

 

mais estranho é o que diremos quando

o improvável que nos ronda acontecer:

isso é absurdo, não suporto, morrerei.

mas dias depois ancoraremos bombas

em portos repletos de fascínio em pó.

 

é sempre frio quando a noite enforca

a euforia dessa lembrança em delito

quando, contaminada, delira a sorte.

 

vejo brilhar os olhos que derrubam

as manhãs por trás de uma película

que aborta a luz de um sol anêmico.

 

somos uma gangue de medrosos

que desejam a coragem coletiva

mas entregam parágrafos de aço

nos desvãos de uma poesia curta.

 

quero rasgar o casaco em busca

do osso de uma alegria pequena

para lamber o medo e confortar

a paz sem olhos de um verso nu.

“fazendo feira na pandemia”


a paixão é um dormir sem descanso

estou na rua ao sol cheio de frutas

sempre na rua penso minha paixão

é muito grande na rua ela explode

te amo tanto na rua que a cabeça

fica grande e eu fico mais belíssimo

te amo tanto na rua que não gosto

se volto para casa e te amo menos

não é bem isso eu acho que a rua

me lembra da alma mendiga doutr’

ora o sol de cueca fazendo um beiço

o medo que sinto na rua me torna

criança e em casa eu sou um adulto

essa gente de pelo e cabeça grande

e quando chego em casa e vejo você

eu devo pensar aqui ela não combina

porque você é a infância estrangulada

que acaricia as veias do braço infinito

minha fé rarefeita nas bigornas em flor.

24.12.20

“para bichita pelo seu aniversário”


devagar minha cabeça encontra

o carnaval do meu corpo.

vou freando as palavras limpas

e sujo rimas a contrapelo.

 

os versos são coisas que andam

na mordaça dos desejos.

os livros são patas de elefante

na estante das angústias.

 

despejo disciplina de cemitério

na marmita dos enganos.

esta proibição de se estar feliz

gangrena em nós espécie

de perigosa desenvoltura cristã.

 

é preciso cada um de nós

ser aquele que tira cada um de si

sem que seja preciso fugir.

 

existe sempre algo a ser erguido

dentro deste espaço vazio

que existe num só fio de cabelo.

por dentro deste pátio sujo

há uma linda torre – babélica –

entre nós, uma nova força,

uma que espreme expectativas

contra a boca de um sonho,

então forjamos não ter medo,

invadimos nus o fim de tudo

que nem bem começou mas

sempre pareceu que acabaria.

 

corremos a crua demência

das ruas com olhos arregalados.

internamos falsas ofensas

na goela de tão belos segredos.

e contigo quero aprender

a esperar por tudo e não fugir.

pois explodem as pregas

da nossa um dia jovem sorte,

no calabouço da paixão.

 

nunca sozinhos nós gritamos

num silêncio de andaime:

ó paz fria dos nossos mortos!

traíra do meu desprezo,

sorriso de mamão, um auxílio

de emergência que vem

de um demônio sem cintura

e que talvez não caiba

no futuro da nossa espécie.


no estômago secreto

dessa marcha prenhe de riscos

nasce uma pequenina

coragem fantasmagórica de ir,

que só contigo inventei.

mas então eu era outro e a vida,

nosso único desastre.

 

eles nos cercaram com a ponta

de uma agulha de ouro

e nada do que podemos fazer

facilita a dor de alguém.

é bom também poder perder

ao teu lado, sugar força

e derreter o iceberg de fogo

no precipício que somos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


26.11.20

"barrilete cósmico"


para diego armando mar(ad)ona

 

fecha a tua mão mais uma vez,

eu fecho meus olhos selvagens

e abro naquele mesmo planeta

de onde vieste baixo e irritado,

como um tio, toca meus lábios,

com empáfia, ira e aguardente,

como um irmão, soca meu rosto,

ainda por outra vez não morras

pois não morre um alienígena,

ou não da forma que pensamos

conhecermos o que é o morrer,

na boca dos rufiões dos portos

de todas as bocas brabas latino-

americanas em que os anjos são

apenas nomes de rua e tremores

nas bocas desdentadas de velhas

que são também minha avó, eu

que por pouco não pude possuir

teu nome quando era também eu

da legião dos envocados baixos,

eu vejo você um pouco meu pai,

no que és um italiano camponês,

de família operária, então fecha

teus olhos e pensa sou garibaldi,

heroi xamânico em transe magro,

de madre indígena como herdeiro

dos povos originários de américa,

dos povos de esquerda de américa.

 

e o anticristo gauche em ti se eleva,

e te toca somente do lado esquerdo,

até implodir as coisas em sacrifício

então passas feito o boneco de luz

raspando o bigode reto do fascista

e do usurpador da energia alheia,

porque foste tu meu sanguessuga

na carne turva da minha infância,

a comparação nominal do trauma

que me definiu paz descontrolada,

carnaval do corpo em puro enlace

de uma decadência tão doce que é

o tapa na cara do nosso equilíbrio

mórbido de paredes e repugnância.

 

és completo e te defines compacto

sempre no pico da onda da morte,

até que passaste bem lentamente

para o tamanho do estrago poético,

tua causa, teu mármore raspado,

como o membro vivo da família,

veia aberta de um tango com faca,

impureza que entorta a hipocrisia

enquanto fecho meus olhos nativos

e xingaremos hirro de puta a todo

europeu que vaiar nosso hino pleno

de todo migrante, vagabundo heroi

de quem em cada viela há um ícone,

o canal com deus para todo um país,

mas vieste de outro mundo e o teu é

um outro deus, que gostaria também

me levasse ao mesmo céu que o teu,

eu que sempre fui baixo e compacto,

sempre irritado com o que não sabia

dizer do jeito claro então eu rosnava

e lançava-me nu em aventura épica,

tu, cristo que falava palavrão e pinta

com tintas eternas o traço do trovão,

arco completo da existência em fúria,

e feito louco soubeste ganhar e perder,

explodir feito o barril antidiplomático

que permite definir o sermos pobres

latino-americano indígenas operários.


22.11.20

"o júbilo da marcha"

para adelaide ivánova

 

com coração em jejum

animo os ponteiros

de uma bomba-relógio.

 

com paz de cimento

afio um raquítico

faqueiro de promessas.

 

com um assombro nu

o mofo aduba a vida

guardada numa outra

imensidão – crescida

para dentro como as

pálpebras da saudade.

 

com uma fé de chumbo

os cavalos da memória

agora boiam na lagoa

dos meus olhos – aqui

a esperança é um padre

na cama da compulsão.

 

não esqueci, contudo,

que no escuro há som.

não deixarei, entanto,

que no raso falte água.

e que na água, os seres,

e que, nos seres, amor.

 

amor eu não sei dizer,

mas faço, perdido faço.

e marcho sem as botas,

e marcho, porque vejo:

ali tremem mãos e pés,

na direção do comum.