oito horas de uma chuvosa
manhã e parece que morri.
caminho por um bairro
nobre
e não posso dizer
que me sinta mal,
não posso dizer nada e tento,
então meu rosto se
contorce,
minha espinha humilde torce
meu corpo e diz: não falarás.
por não ser eu mesmo nobre
e levar por ali um corpo
feio,
ganho a característica
exata
de criança agigantada
ou de um adulto anão.
tudo é nobre diante de
mim,
o mundo funciona ao
longe,
a espécie supera os
desafios
e segue um desfile campeão.
por que não eu, também,
campeão entre campeões,
na solidão do meu bairro,
de uma nobreza decadente?
devem existir, talvez, micro
campeões que possam se
gabar
de ter um bairro, uma rua
onde desfilar seu pequeno
ápice
na brecha dos bem maiores.
mas me vencem os fungos,
as bactérias, a sarna, o
piolho,
faz greve meu sangue
milico.
tampouco me sinto bem
noutros muitos outros bairros
bem menos nobres, eu até diria
que são bairros
perigosíssimos.
sempre me senti mal, não
mal
por não pertencer ao
lugar, mal
porque a espécie como um
todo
me escapava deixando uma alta
poeira de pegue-me-se-for-capaz.
chove muito, minha doença,
que agora é essa amiga
sem culpa, a mais assídua,
se alegra da mucosa cerebral.
por mim passam pessoas
(será a elas que pertenço?)
sem intenção de me dizer
que também vão elas mal,
mas seus olhos, na chuva,
são agentes duplos, traíras
de uma intenção vencedora.
estou sem capa de chuva,
estou na chuva em busca
de uma ração para gatos.
sinto falta das pessoas
quanto menos quero
vê-las.
comunico-me com vísceras,
então me tenho calado.
assisto fora do corpo,
de um camarote vip,
a revolta das vísceras
no desfile dos espiões.
a chuva desaba como um
grito,
engulo o líquido comum, poça
da qual desdenham os pombos,
água daquilo que nunca poderia,
daquilo que depois nunca
pude,
do que não podendo jamais
fui
e agora apenas não posso
mais.
estreito, o mundo não dá
para pôr a mão, amamos
na ponta dos dedos, foge
o grito na ponta dos pés
na medida exata do nojo.
bebo na chuva o líquido
florescente de uma lata
com a palavra monstro.
engano e conformidade
lançam um pé no outro
em derrota darwinista.
por engano e conforme
sou agora qualquer um.
um aleijão emancipado
na crista do afogamento.

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