7.2.26

"este não é um poema de amor"


você é uma queimadura de radiação

na sombra fresca da minha loucura.

chuva que inunda, eu deveria dizer,

as almas sorridentes de água choca

no bairro dos ricos, nos simpósios

que distribuem melhores soluções

em salas fechadas, nós de gravata

no pescoço da palavra consultório.

 

eu deveria dizer, então não digo,

você diz, e quando você diz leve

eu digo levo, mas com todo peso,

porque o amor é arrastar o corpo

de um pedinte no asfalto quente

de uma paz que dobra a esquina.

 

você diz que meus poemas de amor

não são poemas de amor, eu retruco

que o amor é um cu norte-americano

vermelho, inchado, tenso de câncer.

 

rastro de gosma de lesma nas bocas  

dos feudalistas acadêmicos da paixão

dedicados, atentos, a tudo que é bom.

 

assim talvez o que eu sinta não seja

esse amor que você vê e se emociona,

mas algo que desmancha a paisagem

daquilo que, de bonito, deve ser isso:

uma arma de fogo no coração do gelo.

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