30.4.16
19.3.16
"deirdre"
a puta ancestral,
coração estilhaçado,
mataram com punhal
teu lindo namorado.
e tu agora vives nua
nas planícies verdes
do meu sonho celta.
tua mitologia ruiva
rosna feito um cão,
a carne que deseja
o crime do palato.
a boca assassina,
rock n’ roll suicida,
entranha de deus,
linda e desbotada,
esmalte descascado,
como cada um de nós.
a puta ancestral,
coração estilhaçado,
mataram com punhal
teu lindo namorado.
“a propósito dos últimos acontecimentos”
aqui estamos nós, os
cercados, mais uma vez.
somos outra vez os sionistas
dos anos trinta.
somos outra vez o rapaz
de vermelho linchado.
somos outra vez a
quenga que deve morrer.
somos outra vez o
veneno dos dentes podres
de velhos eunucos e
suas mulheres cocainômanas.
somos outra vez os
curdos no topo da montanha.
somos outra vez a
execução do nariz de palhaço.
somos outra vez a
gangrena violácea do apuro.
somos outra vez a
tremedeira do ser em pânico.
somos outra vez o
caminho dos beligerantes.
somos outra vez, vai
acontecer outra vez ainda.
somos outra vez os
caracóis debaixo da pedra.
somos outra vez a
beleza do grito avacalhado.
somos outra vez a
memória curta dos umbigos.
somos outra vez as
mulheres com o grelo duro.
somos outra vez a
parabólica viral do coisa ruim.
somos outra vez os cães
de bandana vermelha,
sangue vermelho dos
cães de bandana vermelha.
somos outra vez os
corredores salivantes do ódio.
somos outra vez, há
quinhentos anos outra vez.
somos outra vez a
vergonha daqui a trinta anos,
um sísifo quando baixa
a guarda e cai de queixo.
16.12.15
"lucha libre"
vestimos roupas
coloridas
às vezes muito
incômodas
no calor dos estádios
cheios,
nossas sungas
florescentes
denotam a doce
brutalidade
de nossas barrigas
enormes,
dos nossos braços de
ouro.
enfim tudo é um
espetáculo,
o aplauso também é
cuspe,
sabemos com calos
próprios.
nos apelidaram calor latino.
nossas deliberações em nada
têm a ver com nossa
carga.
aguentamos o peso do
riso
enquanto dobramos ossos
e criamos rubras
varizes
no entardecer do
espetáculo.
na rua jamais nos confunda
por nossa passada
cabisbaixa,
por nossos narizes
quebrados.
porque lutamos a lucha libre
nossa luta é bem mais
um filtro
e já não há de fato
porque lutar.
a coragem de fato se evanesce
em golpes cenográficos,
urros
e bocas sedentas de
água doce.
tão frágeis em nossas sungas
florescentes nós florescemos,
apenas para amainar as
cinzas.15.9.15
“costela remix”
lentamente as mudanças
drásticas elas lentamente
fraturam nossas costelas.
sutil rusga no hemotórax
sempre muito lentamente
vai perfurando os
órgãos
por dentro de
espartilhos
como os que endoidaram
muitas damas da
realeza.
cair da positiva
tentativa
de ser nobre e ser
santo.
as ruas são as pororocas
e tua nobreza vagarosa
lentamente se converge
na imagem alquebrada
de um adão ou sagitário
cujas flechas por
dentro
evadem-se da turbulenta
carne cinza de mangue
de um estúpido coração.
mas que todos algum dia
fomos estúpidos e isso
é
o que viabiliza ao
santo
flutuar por sobre idosos
na fila das emergências.
25.8.15
“shoá”
a
câmara de gás fica ao lado
do
necrotério, que fica ao lado
do
crematório.
ouvimos
as histórias
que
vêm da sala de estar,
em
vozes de velhos soturnos.
são
corpos duros amontoados
no
quarto escuro da violação
de
todos os pendores.
são
vozes mortas
na
imensidão vermelha
do
apocalipse que faz a vida.
as
vozes dos velhos soturnos
estão
cansadas, mas não cessam
enquanto
não dormimos.
mas
não se esqueça
que
há senhas bloqueadas
para
impedir que as crianças
prevejam
seu futuro.
a
câmara de gás fica ao lado
do
necrotério, que fica ao lado
do
crematório.
15.8.15
"robôs em fuga"
mais
uma vez aqui
e
já há tanto tempo,na agressividade seca do instante,
no acelerador de partículas da alma,
no refúgio dos corações enferrujados,
nas bolas de fogo dentro dos bolsos,
nos narizes vermelhos de amor e ódio,
nos catarros do receio,
na síndrome das pernas agitadas
e na boca imensa cheia de tiros.
mais
uma vez aqui
e
já há tanto tempo,hóspede na terceira classe
de um trem descarrilado,
robô em fuga lenta
da chuva ácida de xangai,
mitologias esfareladas
com restos animais à mesa,
junto apenas na distância
que nos separa do horizonte
de toda esperança.
na
vergonha de não conseguir
e
na vergonha de seguir tentando nãoconseguir para permanecer vivo,
mas vivos estamos, pensamos todos,
é preciso não conseguir para estar vivo,
é preciso saber sempre pela metade
e da outra parte fazer o calvário
muitas vezes silencioso e sem músculos,
de doce passagem tumultuosa,
com imensas dificuldades, por saber
muito mais do que seria bonito saber.
12.8.15
“goya”
capturados entre exigências
contraditórias,
levados a construir
compromissos laboriosos,
sob regicídio e terror,
alguns “esclarecidos”
sofrem represálias, surdos
e melancólicos
adoradores de
furúnculos, legislados na arte,
empalados por certa
benevolência deicida,
abastados colecionadores
de convicções liberais.
ainda assim a impressão
de termos nascido
para outro mundo, sem
sono nem repouso
enquanto não tivermos
concluído o assunto,
sem chamar isso de
viver, a vida que levamos,
pessoas cujas marcas
nos quartos de pernoite
são marcas de cigarro nos
lençóis brancos
muito limpos onde perturbações dormitam.
enterrá-los e calar-se,
assim são as semanas,
absurdos se repetem dos
dois lados do front.
não sabíamos então
reconhecer as profecias,
então as máscaras diziam
a verdade recôndita
escondida na fachada
mentirosa da face nua.
carvões quebrados pelos
inimigos das Luzes,
consequência inelutável
de banhar-se nelas.
25.7.15
“angélica acorrentada”
um passeio pelo teu
corpo
é do que talvez se exclusive
a perfeição de uma
longa era
de longos e distantes
estudos
das profundezas do mito
diário
sobre o corpo de uma indefesa
harmonia de traços
íntimos,
úmidos tendões e
conchas,
não bem pinceladas de
dor,
mimeses do perfeito
engano,
culminas em pescoço
gótico,
vazios teus olhos estão
virados,
teu nome é conservação
final,
tua situação diante do
monstro
é que talvez não haja
escudo mágico,
só essas costelas
sobressalentes
e o torso gigantesco do
pecado,
porque é preciso
corrigir o erro
da natureza que nos
criou assim.
23.7.15
“se eu fosse um locutor”
ah eu gostaria de ser
se me perguntassem
digamos meu sonho
queria ser um locutor
e dizer a competência
sadia do esporte da
vida
e gritar com o coração
nas mãos e chorar alto
em caso de vitória heroica
e chorar aos sussurros
quando a sorte vacilar
mas ah como eu queria
poder ser pasmo
coletivo
de tão digna presença
translúcida voz que fora
da imagem anuncia rindo
que um coração ainda
pulsa
e bate e a vida seria
sempre
a minha única profissão.
17.7.15
“um momento definitivo e infantil”
para ismar tirelli neto
estou agora escrevendo
no computador da minha
namorada atual, quer
dizer,
não sei se seria o
melhor
termo para definir a
coisa,
mas o fato é que é
arrepiante
estar agora escrevendo
no computador da minha
namorada atual, quer
dizer,
ela prefere é claro ser
a mulher
da minha vida e morte
inclusive
fizemos um pouco esses
pactos
que lemos nos nossos
melhores
livros da infância que
ao lado
dos livros que lemos já
velhos
parecem os melhores
livros,
mas eu dizia outra
coisa,
a vida tem disso, júpiter
maçã enquanto escrevo
no computador da minha
garota, acho que ela
preferia
ser chamada “minha
garota”
apenas, a mais
improvável,
a mais difícil, a mais
louca,
aquela que, se fôssemos
loiros nascidos em marienbad
e falantes como ventríloquos,
ou se este computador
onde
agora escrevo fosse em
mil
oitocentos e pouquíssimos
seria como se eu
escrevesse
no seu diário as minhas
ideias,
mas a alguns compete
medir
a labuta por curva de
lufada,
estamos aqui, apesar do
amigo
que viaja em busca do
frio,
escute amigo, estamos
todos
de cuecas samba-canção,
com júpiter maçã,
sorrindo
pois de todo modo não
se sabe,
não se sabe muito sobre
nós,
pense bem, meu amor,
escrevo
agora para você – o que
você
sempre reclama que
nunca faço
e agora eu aqui, você
no espelho
e mais um que migra
para o frio,
enquanto você, toda
torta e súbita,
é o forno do meu queixo
trêmulo
diante do êxodo da
nossa bússola.
14.7.15
“antonin artaud tenta parar de fumar em seu primeiro dia de férias”
deixar-se perder
no que se perdeu
pelo caminho sem trajetória,
noção proletária
do esquecimento
prolongado do que se denomina
magia pelo enfeitiçado
ou do contrário jamais,
noção proletária
de enganos sucessivos
e uma estagnação
de posicionamentos em que algo
se rompe em definitivo,
mais uma vez e cada vez mais,
sobre uma concha de ruínas
tão íntimas que cabem
entre as unhas
que por isso arruínas
tuas unhas
com boca inquieta
de quem não teve
a grande ideia
da grande virada
e rasteja e não reza
ou caminha ou medita
apenas crê
que ama algo
que se mantém
secreto a si
e ao governo
que se detém
artificialmente em formas,
em tempos malditos
verdadeiramente infernais
onde nos engolimos
por dentro
enquanto sabemos ser
como supliciados
queimados em praças públicas
que fazem sinais sobre as fogueiras,
uma jornada de liberdade
por arbitrariedade imposta,
um grito de morte
para além da vida,
um giro do sangue
no olho da peste.
29.6.15
"my funny borderline"
escamas
ou patins
no gelo
ou na água
deslizas
e pulverizas
pedras
e consomes
gentes
e miragens
giram
nos teus olhos
mergulhos
e rasgos
anunciam
as feras
uma escolha
entre
duas
feras é sempre
o projeto
das noites
em transe
de parede
afiando
pergaminhos
para
degolar o vácuo
do
tempo que se foi
e do
tempo que não
chega
mas tu chegas
deslizando
afundando
com
teu próprio peso
morto
com teu passo
em falso
que cultiva
escamas
ou patins
no
gelo ou na água
tua
sina é explodir
para
todos os lados
canibalizar
a raiva
em urro
oitentista
charme
irrefutável
do
que é quase lá
mas
é sempre aqui
acumulando
neve
arrastando
pausas
rompendo
as veias
o
cardápio da vida
o
sono das varandas
a
morte aposentada
este
chicote íntimo
riso
enlouquecido
mostra
da mistura
do que
no princípio
foi a lava do porvir.
27.6.15
"matadouro"
agora tomo banho, me
arrumo,
aparo os cabelos nas
orelhas
e os bigodes de leão
marinho,
pois hoje vou ao
matadouro.
no matadouro pessoas
tecem
opiniões relevantes
sobre assuntos
concluídos, os
matadores de mim
leem de tudo e sorriem
frios.
são simpáticos, mas é
possível
também imaginá-los
delatando
alguém por uma bolsa ao
mérito.
são charmosos e pagam
bebidas,
amam com mel de abelha
e foices,
enquanto afiam solidárias
adagas
e notam a perfeita circunferência
dos pescoços de suas vítimas.
é acima de tudo no
matadouro
onde a vida e o sangue
flutuam
em curtos vapores de
humor,
onde compartilhamos
moscas
por dentro dos olhos
virados.
falamos as letras,
sempre elas,
que, mais que lâminas e
balas,
dão polidura ao surto
do sangue.
agora pronto, é chegada
a hora,
rápidas memórias, como
flashes,
alucinam o peito na expectativa
de que a dor seja como
um raio,
um corte seco no que
inaugura
com vísceras a
temporária casa.
20.6.15
"mais uma vez"
mais
uma vez aqui,
e
já há tanto tempo,
na
agressividade seca do instante,
no
acelerador de partículas da alma,
no
refúgio dos corações enferrujados,
nas
bolas de fogo dentro dos bolsos,
nos
narizes avermelhados de amor e ódio,
nos
catarros do receio e da culpa esculpida,
na
síndrome das pernas agitadas e da boca
imensa
e cheia de tiros trêmulos.
mais
uma vez aqui,
e
já há tanto tempo,
hóspede
na terceira classe
de
um trem descarrilado,
robô
que foge da chuva,
da
chuva ácida de xangai,
mitologias
esfareladas
com
restos de animais à mesa,
junto
apenas na distância
que
separa o horizonte
de
toda esperança.
mais
uma vez aqui,
e
já há tanto tempo,
na
vergonha de não conseguir,
na
vergonha de seguir tentando
não
conseguir para permanecer vivo,
vivos
estamos, pensamos todos,
é
preciso não conseguir para estar vivo,
é
preciso saber sempre pela metade
e
da outra fazer o calvário
muitas
vezes silencioso e sem músculos,
da
doce passagem tumultuosa,
com
imensas dificuldades,
por
saber muito mais
do
que seria bonito saber.
9.6.15
"oitava de mahler"
leões mansos que nos
rodeiam em silêncio
honram o sagrado território
do amor.
tudo o que passa é
apenas semelhança,
é preciso urgentemente
uma cirurgia no coração.
é preciso preencher
estas linhas também
como pontos e grampos
na pele profanada.
é o silêncio assassino
dos leões mansos
aquilo que nos
conforta, a natureza dupla
de um rugido de mil leões
mansos enjaulados,
e todos cantam apenas o
canto do amor
e da vista sem
impedimentos e da impossível
trégua ou descanso, mas
ilimitada é tua coragem,
enquanto bates o queixo
em roupas de cama
nos cômodos infestados
por um velho fardo
que também é teu fardo
enquanto tremes,
digno de reverência, te
bates aos pedaços,
nas ruas destemidas do
anonimato, no ódio
de um mundo doente e
lindo de ser o único.
quando de repente todo
o turbilhão se acalma,
esqueces a coragem e as
ratazanas da alma,
e, ao maculado,
reservada a beleza provisória
de se estar por um
instante entre os deuses.
7.6.15
“eu sou os melhores dias”
não escrevo, não escrevo mais.
sou tão infantil que doem os dentes.
engulo chocolates novamente,
pretendo cáries e votos de compaixão.
todos têm o que dar, mas não dão.
porque somos finalmente adultos.
ser adulto é horrível, mas é melhor
do que pensar que serei adulto um dia.
agora sou, não tenho nada a não ser
camundongos nos cantos da sala
e uma vida que sempre parece
que vai melhorar, pois sou otimista.
meus amigos fazem coisas nítidas
como filhos, cursos, oficinas de poesia.
tento dormir sempre mais um pouco
porque estou deprimido outra vez
e nessas horas penso em gritar:
mais alguém é capaz de estar assim?
seria bonito ver de perto a tristeza
ou a tentativa de felicidade mórbida
de alguém que já não tenha morrido
e que possa olhar para mim e dizer:
sou triste, estou levando, não sei onde,
não sei se está perto, parece colado,
mas te vejo e me vejo como se tivesse
visto você em outros melhores dias.
eu sou os melhores dias de espera.
sou tão infantil que doem os dentes.
engulo chocolates novamente,
pretendo cáries e votos de compaixão.
todos têm o que dar, mas não dão.
porque somos finalmente adultos.
ser adulto é horrível, mas é melhor
do que pensar que serei adulto um dia.
agora sou, não tenho nada a não ser
camundongos nos cantos da sala
e uma vida que sempre parece
que vai melhorar, pois sou otimista.
meus amigos fazem coisas nítidas
como filhos, cursos, oficinas de poesia.
tento dormir sempre mais um pouco
porque estou deprimido outra vez
e nessas horas penso em gritar:
mais alguém é capaz de estar assim?
seria bonito ver de perto a tristeza
ou a tentativa de felicidade mórbida
de alguém que já não tenha morrido
e que possa olhar para mim e dizer:
sou triste, estou levando, não sei onde,
não sei se está perto, parece colado,
mas te vejo e me vejo como se tivesse
visto você em outros melhores dias.
eu sou os melhores dias de espera.
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