22.10.11

"pneumonia"




1. primeiras conclusões

tudo bem, hoje não será tão bravio nem com tanta veemência,
hoje direi que tenho medo e meu lirismo nada mais é que puro pavor
de reconhecer-me inábil até os ossos, de não me reconhecer de fato
alguém constituído de um centro nerval onde quer que esteja e devo
admitir com simplicidade que talvez eu reconheça em pânico
que não sei se algum dia chegarei a alcançar esse tal centro nerval
onde supostamente eu deveria estar em corpo e alma e todo ar
sendo apenas eu mesmo como um eu especial e um eu comum,
já que todas as pessoas com quem eu falo, por mais problemas
que tenham elas possuem isso que talvez seja uma identidade
e eu talvez não aceite ter uma identidade porque tenha medo
de envelhecer dentro dessa identidade, talvez por isso, agora,
aos prantos deverei confessar acima de tudo a mim mesmo:
sou incompleto, sem pedaço, e não carente do que não conheço
e que poderia me inspirar a vida ainda que em forma de ilusão,
e penso que talvez esse medo venha mesmo do fato
de que eu não saberia viver sem ilusão, mas sei bem
que a minha ilusão é só minha, fui eu que a inventei,
seja com vinho demais, confusões amorosas demais, problemas
emocionais cujas origens eu sei que elas existem e de onde vêm,
mas não me lembro como é o lugar de onde vêm, e a saúde
está por um fio com essa tosse de duas semanas, e com esses cigarros
intermináveis num clima quente e frio e muito eficaz todo o tempo
em me manter desconfortável e tísico porque uma das coisas
que apesar do medo, esse medo sem chão que vai me dando
de pensar que um dia, se vier a saber quem sou, de que matéria estranha
e tão pouco especial pode ser feito um homem assim, se existe
algum parâmetro assim para alguém que senta e espera a morte
se arriscando ao máximo e daí vem o medo, esse medo pavoroso
de que algo exploda de uma vez na cadeia desse pânico que, no fim,
é minha única unidade emotiva, minha catástrofe de que sei a chegada
surda, elegante e sem estrondo que sinto se aproximar e que espero
com ansiedade de criança, mas que, conforme sinto as patas dos anos
em minhas costas já condenadas por trabalhos estúpidos onde, ao menos,
encontro pessoas estúpidas como eu e muitas também com medo,
conforme sinto o peso das patas, o medo recua um pouco, respiro ainda,
e no fim das contas penso: descobre-se com murros e mais nada
que as pessoas estúpidas também podem ter entre si um laço
absolutamente particular de misturar medo e amor e penso:
além das minhas costas, dos meus pés feridos, do meu peito infantil,
preciso também dessas pessoas estúpidas como eu, e isso eu sei,
ou nem isso, meu medo é isso, essa doença de entrega punitiva,
protegida pela medieval couraça de um litoral bandido e prognata,
uma terra de ninguém, e que destrói e canta aos defuntos pouco heroicos
e aos punhos em carne viva de nosso herói encurralado, esquecido, maior,
e agora seria melhor ter cortinas vermelhas que, como numa peça russa,
nos levasse de volta à casa calados e pensativos, porque no fundo
sabemos que todos temos medo, que poucos dão as mãos e muitos dão
com enojada discrição, mas agora não é possível generalizar e dizer “nós!”,
hoje não será homérico nem tão pouco lírico, o ideal seria que fosse
possível apenas imaginar um homem em certo estado de desespero,
mas um homem ainda vivo, percebe-se facilmente pelas constantes
escoriações púrpuras nas paredes do tédio urbano, de joelhos, sim,
desde cedo confundindo coragem e pavor cego, ainda assim unido
a si mesmo pelo escoar do último fôlego e a caixa torácica arreganhada,
e no fundo também, acima de tudo, se perguntando: há mais alguém?


2. diário de um delírio


Henry Miller à tarde, braço dormente, sopa de feijão, água quente com sal, medo da sífilis, da gravidez improvisada, do amor, cigarros escondidos na varanda, crianças arruaceiras, colegiais com saias curtas de uniforme, buracos nas almas dos amantes, olhos fixos voltados para trás, elegias para as muitas mortes, uma lágrima para cada flor no escuro, pentear, tal Pacino, os cabelos para trás, forjar um charuto, um chapéu, uma bela capa, um pintor, vestir-se como um pintor, casaco de lã crespa, botões desleixados, apaixonar-se por si, cabelos, pensar nos cabelos, massagear o que sobrou dos cabelos, amá-los em sua ausência, chorar um pouco, pensar no pai, nos antepassados da mãe, porres de avô com Lupicínio, um bife à cavala, olhar as luzes pobres, olhar os passantes, charmoso e cavalheiresco ar tísico, maravilhas de Hans Castorp, muito bem, o último cigarro avulso na banca, uma despedida formal, aqui abdico de ti, ó desregrada vida própria, queiram entrar ambroxol, levofloxacino, bamifix, sulfato de salbutamol, budesonida amada, que bom vê-la, por favor, tenham a gentileza de levar este senhor, arruinou-se, façam o favor, Anna Magnani, Mickey Rourke, Bill Murray, flores do mal de meus pulmões, incêndios nos meus sonhos suados, mosquitos em minhas sensações, adornar-se para a grande ida, devorar-se em milênios de elucubrações, um pouco mais de Miller, tentar melhor o abraço do intestino, esperar a febre, Clint Eastwood, compaixão fraternal pelo time de futebol do Botafogo, entender talvez com frágil doçura as frases feitas de nossas origens, por um momento de alucinação, vide bula, recordar a antiga namorada e escrever um poema de amor, escorrem verdes meus peixes lutadores, à noite rezar a deus e levantar minutos adiantado para a coleta de urina.


3. a última hospedeira

peço-te que, se vieres, chegues alegre e de mansinho,
chegues talvez fora de hora, longe do combinado,
isso não me preocupa, mas chegues sorridente,
ao menos uma vez, depois de tantas vezes em que chegaste arrasadora,
de cara fechada, empurrando e ofendendo sem motivo,
chegues hoje pequenina, chegues com chapéu na mão,
faças uma reverência, senão por merecimento dispensado,
ao menos por antiguidade, por seres a minha mais antiga presença,
passes um batom intenso, não me importa, descabeles um pouco,
se for totalmente necessário, as madeixas do teu veneno único,
apenas não te esqueças de cantarolar alguma coisa em francês,
ou então qualquer música leve assobiada com ardor.

que chegues elegante ainda que jovem, minha preciosa,
petulante amiga, chegues sem rima ou qualquer enganação profana,
não precisamos de etiquetas agora, nunca mais precisaremos,
sejamos apenas um bom casal que se separou por muito tempo
e agora planeja voltar a morar junto, em quartos separados.

posso te esperar até mesmo sentando, vestindo terno,
de pernas cruzadas esperarei com charutos para nós dois,
arrastarei para que sentes a cadeira do meu corpo tombado,
e tu te sentarás sem muitas palavras, mas sempre sorridente
e sutil e feroz como Anna Magnani tu embalarás meu sono,
e eu serei teu novo escudo, eu serei tua bellissima creatura.

20.10.11

“the wine of forever” (C. Bukowski)



re-reading some of Fante's
The wine of Youth
in bed
this mid-afternoon
my big cat
BEAKER
asleep beside
me.

the writing of some
men
is like a vast bridge
that carries you
over
the many things
that claw and tear.

Fante's pure and magic
emotions
hang on the simples
clean
line.

that this man died
one of the slowest and
most horrible deaths
that I ever witnessed or
heard
about...

the gods play no
favorites.

I put the book down
beside me.

book on one side,
cat on the
other...

John, meeting you,
even the way it
was was the event of my
life. I can't say
I would have died for
you, I couldn't have handled
it that well.

but it was good to see you
again
this
afternoon.


*** trad. leo marona ***


“o vinho da eternidade”

relendo um pouco de Fante,
O Vinho da Juventude,
na cama
nesse meio de tarde,
meu gato gordo
BEAKER
dormindo ao meu
lado.

a escrita de alguns
homens
é como vasta ponte
que leva você
através
das muitas coisas
que agarram e rasgam.

de Fante a pura e mágica
emoção
se atém à simples
limpa
linha.

e este homem morreu
uma das mais lentas e
mais horríveis mortes
que eu jamais testemunhei
ou ouvi
falar....

deuses não escolhem
favoritos.

ponho o livro no chão
ao meu lado.

livro de um lado,
gato do
outro...

John, conhecer você,
mesmo do jeito que
foi foi o evento da minha
vida. não posso dizer
que eu morreria por
você, eu não saberia lidar
com isso bem.

mas foi bom ter visto você
de novo
esta
tarde.

13.10.11

"um pedaço de alguém"

descolam-se dos pés as vibrações
do primeiro verão da alma, atuam
flores em cemitérios cinzas do ano
mil e novecentos e pouco importa,
há outra desolação, há festividade,
no exercício do medo aprendemos
as divertidas margens de todo calo,
a redondeza supérflua das paixões,
de que não abdicaremos jamais, ei!
ouviram bem que não abdicaremos!
abram se quiserem com suas presas
de família, filho, propriedade divina,
as costas de nosso amor inexplicável
e colocaremos mesmo sem nos virar
fogo nas casas santas de vossas teias
para aquecer teu coração que dorme
nos pregos do que insurge sobre pele
e para sempre será o grito de heyjoe!
porque não sabemos muito, treme-se
só de pensar o quanto não sabemos,
e sabemos da validade de nosso riso,
pois curto é o tempo de todo milagre,
nossas gaitas de judeuzinhos magros
sempre nos bastaram e nada é nosso
a não ser a tentativa falha do imenso.

2.10.11

"pico"




estátuas de silêncio abutres iluminam nossos pulmões,
temos as pernas em chamas e, muitas vezes, torcemos
os joelhos para trás incrédulos; é assumir a carga de deus
e escorregar um pouco ralando braços, vermelho disforme
que dispara nossos desabamentos ladeira abaixo, diante
de uma fome um pouco mais estranha e a obsessiva ida
ao pico de nossas incertezas seguiremos e muitas vezes
olharemos para baixo e esperaremos a tal morte, talvez,
súbita morte que acompanha tão bem a sorte provisória
de ser pela primeira vez presa do que nos fez nascer assim.

26.9.11

"os preocupados"

eu creio com firmeza que a vida
é promovida pelos preocupados.
os preocupados são os analistas
da vida, ou seja, a vida só existe
pela preocupação de que se forma.

mas ocorre que jamais um vive
preocupado em promover a vida.
e os que bradam “eu vivo a vida!”
são promovidos à ação, contudo,
eles não podem ser os mandantes,
eles estão renegados ao progresso.

no meio-tempo, os preocupados
sem jamais viverem eles exercem
a dádiva do câncer, o riso divino.

a força do amor é do abandono,
os preocupados amam e deixam
para os sorridentes escravizados
a alegria doce de não ver e agir.

"rebordosa"

é preciso saber esperar,
meia hora e nada mais,
um banho e quem sabe
uma saudável inclinação.

sincero consigo mesmo,
este deve ser o mantra,
penar diante de si mesmo,
o nariz assado, a mente
inquieta, abstrata, torpe.

as leituras russas jamais
ajudam tipos como este.

hás de meter calo a grito,
doente que não se diria,
faminto de muita sorte.

afagas teu crime diário,
desces aqui um pouco
abaixo da linha sisuda.

bailemos, pois, orfanato!
sejamos as presas aflitas.
lá onde não há disfarce
só pode ter restado vida.

23.9.11

“sem verbo, sem adjetivo”





para Miles Davis



ainda não de todo corpo a verdade,
sem verbo ainda a pele do processo,
acima de tudo, um deslize adjetivo,
dentes e areia nos olhos da penumbra,
miles de minha infância, aleluia, sim!
escultura de metal com molas, prego
no caminho em música, cavalgadas
de paz como feitiço, chapéu da noite
dentro dos ossos, escola da exigência,
frequência de rua, tempo de gueto,
pulso da abstração, catarata on/off,
agulhas de mel no topo do sentido,
um dia, talvez, elegância da margem,
dança com dois punhos de algodão,
órgãos em drama de semi-esperança,
assim já não, nunca mais, agora outro
deserto memória da agonia em pêlos,
sem um verbo, desta vez sem adjetivo,
prazer de íris, maná, dilatação do susto,
culhão de maremoto, show das raças,
verbo transe da massa, óculos de raio,
colisão de vara verde na escola do tédio.

22.9.11

"a síntese"





Eu digo que é preciso ser vidente, se fazer vidente.


O poeta se faz vidente por um longo, imenso e arrazoado desordenamento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura a si mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para apenas guardar em si as quintessências. Inefável tortura em que ele necessita de toda a fé, de toda força sobre-humana, em que ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, - e o supremo Sábio! – Pois ele chega no desconhecido! Visto que ele cultivou sua alma, já rica, mais do que qualquer outra! Ele chega ao desconhecido, e quando, transtornado, ele acabaria por perder a inteligência das suas visões, ele as viu! Que ele irrompa em seu salto por coisas inauditas e inumeráveis: virão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes em que o outro se abateu!

Carta de René Char a Paul Demeny

10.9.11

"Uma vida de cão" (Henri Michaux)







Deito-me sempre muito cedo, e estafado, e no entanto não é visível, no meu dia de trabalho, nada de cansativo.

É possível que não se dê mesmo por nada.

Mas a mim, o que me espanta, é poder aguentar até à noite, e não ser obrigado a ir-me deitar logo às quatro da tarde.

O que me cansa são as minhas contínuas intervenções.

Já disse que na rua andava à pancada com toda a gente. Dou bofetadas num tipo, apalpo as mamas às mulheres, e servindo-me do meu pé como dum tentáculo, semeio o pânico nas carruagens do Metropolitano.

Quanto aos livros, são os que mais me dão cabo da cabeça. Não deixo uma palavra com o seu sentido, nem sequer com a sua forma.

Agarro-a e, após alguns esforços, arranco-lhe a raiz e desvio-a definitivamente da manada do autor.

Num capítulo há logo milhares de frases, e lá tenho eu que as sabotar todas. Isso é-me necessário.

Às vezes, algumas palavras resistem como torres. Tenho que atacá-las várias vezes e, já bem lançado nas minhas devastações, subitamente, na esquina de uma ideia, revejo a torre. Por conseguinte, não a tinha suficientemente demolido. Tenho que voltar ao princípio e encontrar o veneno para ela, e nisto passo tempos infinitos.

E uma vez lido o livro inteiro, lamento-me, pois não percebi nada... naturalmente. Não consegui engordar nada. Continuo magro e seco.

Eu pensava (não era?) que quando tivesse destruído tudo, encontraria o equilíbrio. Possivelmente. Mas o que isso demora, quanto demora!

9.9.11

"a letra"

o que eu tinha agora, há pouco,
dentro de mim virou onça braba,
e era tão grande o bicho e pouca
vontade de estar diante do bicho
que me causava lástima, aquela
coisa sem nome, que chamamos
tia-avó, aquilo fatalmente úmido
por embaraço da letra, por clareza
da vontade da letra, mas fatalmente
de que letra vivemos, se quando
falamos, não somos nós onças?
o mesmo volume do esquecimento
que nos faz próximos, tão longe
das onças, ou das espingardas.

8.9.11

"E não estaríamos todos nós, os selvagens sensíveis, neste mesmo dilema?"







"Nesse momento, ele se voltou para mim e apontou-me com o dedo, continuando a me fulminar sem que eu entendesse bem por quê. Sem dúvida eu não podia deixar de reconhecer que ele tinha razão. Eu não me arrependia muito de meu ato. Mas tanta obstinação me espantava. Gostaria de poder tentar explicar-lhe cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependera verdadeiramente de nada. Sempre estive dominado por aquilo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã. Mas é claro que, no estado a que me haviam levado, eu não podia falar com ninguém neste tom. Não tinha o direito de me mostrar afetuoso, de ter boa vontade. E tentei continuar escutando, porque o procurador começou a falar de minha alma".

(O Estrangeiro, Albert Camus)

.

3.9.11

"helder"









dizem que você se esconde nos confins
da ilha da madeira e usa um cinto firme
em volta do coração e escreve poemas
sangrentos sobre a ausência presente
das coisas atávicas, mas sinceramente,
gostaria de saber melhor como viveria
um poeta isolado do contato humano,
tão puro quanto a flor ou o incêndio.
mas será que corta lenha, usa caderno?
há que haver discernimento, é um fato,
mas alguma apresentação ao ridículo
não seria também um fato a discutir?
talvez seja questão de só ser possível
tocar a dádiva ausentando-se de tudo.
mas e a brecha, e a margem do humano?
é como se você me devesse explicações.
quanto do que é escrito é possível viver?
estamos sozinhos em cada cabana cheia.

26.8.11

"On no work of words", primeira tentativa








“On no work of words” (Dylan Thomas)

On no work of words now for three lean months in the bloody
Belly of the rich year and the big purse of my body
I bitterly take to task my poverty and craft:

To take to give is all, return what is hungrily given
Puffing the pound of manna up through the dew to heaven,
The lovely gift of the gab bangs back on a blind shaft.

To lift to leave from the treasures of man is pleasing death
That will rake at last all currencies of the marked breath
And count the taken, forsaken mysteries in a bad dark.

To surrender now is to pay the expensive ogre twice.
Ancient woods of my blood, dash down to the nut of the seas
If I take to burn or return this world which is each man’s
work.


***


“Sem trabalho de palavra”

Sem trabalho de palavra agora há três meses magros no sangrento
Ventre do meu rico ano e da grande carteira do meu corpo,
Amargamente eu testo minha pobreza e meu ofício:

Tirar para dar é tudo, retorna o que é famintamente dado
Aspirando o peso celestial do chão molhado ao paraíso,
A doce tagarelice explode de volta contra o cego poço.

Erguer para partir dos tesouros do homem é chupar a morte
Que varrerá por fim as moedas da respiração sinalizada
E contará os tomados, renegados mistérios no escuro ruim.

Render-me agora seria pagar duas vezes o expansivo ogro.
Floresta ancestral do meu sangue, afunde-me no cerne dos mares
Se eu incendiar ou devolver este mundo que é o trabalho de cada
homem.

23.8.11

"hoje não, Dylan Thomas"

hoje acordei com o caos lambendo meus cílios,
um frio solar enquanto o apartamento ao lado
era posto abaixo em constantes marteladas.

lidar com o caos que lambe os cílios é como
lidar com algo bondoso, mas doente, algo
próximo do fim e, portanto, majestoso.

tomado por este caos irmão tentei traduzir
um poema do grande D. Thomas, o galês,
On no work of words... mas hoje não, Dylan,

hoje pularei da cama uma britadeira de ossos,
conduzirei minha inflamação de caos ladeira
abaixo junto ao estrondo oco que me pertence.

22.8.11

"ando ouvindo Belchior"

como criança sem pernas mergulho
perplexo sobre o indivisível feixe.
mais que perplexo, e na verdade
não mergulho, empurram-me em direção
ao meu destino de criança sem pernas,
e sou obrigado a me diluir ou morrer.

a escolha óbvia sobrepõe a resolução
das pendengas, sem chance ou esperança
sinto-me pasmo com o rumo das coisas,
caverna e dinheiro, as duas simbologias
me determinam e me arrancam pedaços.
as pernas que me faltam eu tento forjá-las
na cabeça, e nada me resta a não ser criar
um novo gólem, e então admitir: o futuro
é para os mortos, presente a morte anunciada.

com o que chamo de meu corpo desconhecido
parto como quem arrasta o próprio corpo
que cai do oitavo andar, os fundilhos das calças
esfarelam em contato com a pele que
os pernilongos ávidos por mim não me deixam
esquecer que é doce como doce é minha gangrena
quando as hienas se aproximam, e repentinamente
são muitas as hienas sedentas de doçura,
mitologias suicidas seduzem meu coração desesperado,
converso com as pessoas e sinto: não há outra chance
a não ser me diluir entre os operários raivosos de Londres,
partir é preciso, ou morrer, e morrer é mais preciso que partir,
mas como eu consigo manter os pés no chão! – e que pés? –
como é possível que o susto transpareça tamanha
tranqüilidade diante das cores novas!


haverá de ser como criança sem perna.
a raiva será o motor do susto contínuo, os olhos
ficarão bem abertos, a voz (isto é absolutamente necessário)
enrouquecerá a ponto de sumir ou tornar-se súplica do corpo,
então haverá, quem sabe, por fim um corpo a que se fazer ruína,
e a ruína terá então o seu lugar privilegiado de costas para o sol,
e então a carne enfraquecida falará, misturada com empecilhos
de fluidos alquímicos e graves entorpecentes, que por falta
de força e inegável inclinação ao erro em descrença
doce, como hienas são doces, crianças sem perna, meu gólem,
minha invenção em que tampouco me reconheço e, ao contrário,
me sobressai e não anda comigo, porque aqui não andarei
mais comigo, vou me deixar inocular pela raiva dos operários
e fazer com que as palavras tornem-se flores carnívoras,
porque não haverá mais agora o empilhamento
dos pedaços caídos de apenas um dos lados.

trocarei meus pedaços com outros despedaçados
e seremos um enorme corpo de possibilidades de corpo.
esqueceremos um pouco o limite que se avista
do umbral como a face da foice, andaremos até o cansaço,
nem que seja o mesmo caminho, nunca mais sozinhos
e ao mesmo tempo sendo todos um grande acúmulo,
dos nossos pedaços e dos pedaços alheios,
para brotar feito chaga de febre
sobre os ossos da beleza desdentada.

19.8.11

Esta velha angústia (F. Pessoa)

Esta angustia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pasadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim…
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino?
Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui?
Está maluco.
Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer – Júpiter, Jeová, a Humanidade –
Qualquer serviria, Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!

15.8.11

Ausência (V. de Moraes)

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos

[que são doces

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres

[eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz

[e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz

[a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra

[amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para

[a madrugada

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui

[o grande íntimo da noite

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos

[no espaço

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono

[desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves,

[das estrelas

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz

[serenizada.

9.8.11

"have some respect for an old west indian negro"


o problema é todo nosso: os saques sem teoria.

engolimos a idéia de que buscássemos modos
de aliviar a recente decepção revolucionária.

éramos ainda bebês, e nossos pais sentiam-se
como covardes, derrotados por uma ideia tola.
eles não estavam ali dizendo, firmes e fortes:
“será duro ainda, não acabou nada, estou aqui”.

não, nada disso aconteceu, apenas apreendemos
os frutos do amor e não tocamos mais a semente.

nossos pais, logo ao lado, falavam de outra coisa
quando fomos tragados para uma idéia sem fim,
quando abrimos as partituras infestadas e demos
uma boa lição de civilidade, todos egoistamente
atrás de conforto, a cargo de pequenas caridades.

nascemos da caridade dos tempos, não engolimos
pedras, muito pior: acostumamos com a aspereza
no fundo da garganta, e amamos demais, no fim,
estamos perdidos porque temos um amor amoral,
o único amor que, agora sabemos, é amor demais.

as mortes não serão grande coisa por um tempo,
pais e filhos sentarão ainda à mesa sob risos frios.

uma avalanche não se faz de gelo duro, mas com
uma longa exposição ao sol, letárgica exposição
ao que sabemos chamar vida real mas jamais será
outro mundo como aquele, que resolvemos vestir
com determinação e poucas lágrimas, e a frieza
explícita dos encontros de putaria entre líderes
nas salas barbitúricas onde, sem mais demônios,
fizemos nossas regras e pagaremos com sangue.

22.7.11

"pequena canção para Dmitri"

ah mas eu queria acabar como você: um patife, mas não um ladrão!
uma nobre inteligência que, de nobre, acaba jogado de lado a lado,
convulso em ideias romanescas, puxando barbichas pelas tavernas,
oh gritando em altos bardos as dores de uma era que se aproxima,
porque você já não pode mais apenas ser o apaixonado, eles agora
exigem que toda paixão seja louca e então somos loucos, que seja,
porque nossa natureza sem Hamlet já não cogita mais os cinismos,
sabemos somente dos bares e dos sentimentos populares dos reles,
não interessam os dois abismos sobre os quais passa nosso arame,
vacilamos e por issos somos deus, pois no vacilo está a velha suma,
o romance máximo da vida com pernas tortas, as lágrimas invioláveis
daqueles que são a marca do chicote e das casas de velhas gordas,
mas largaremos os chicotes e seguiremos, inanes, as lavras de ouro,
e mesmo que nosso arrebatado charme tenha se escapado em face
ao hemorroidal semblante do agora, ainda saberemos bradar, e mais,
saberemos rir, pois nossa desgraça é o riso dos homens sem deus.

10.7.11

"não é felicidade"

você me entrega a felicidade
mas quando ponho as mãos
por trás da nuca feito louco
não sei se é felicidade o que
preciso, ou daquela dureza
de não se saber se pode ser
felicidade um amor tão cheio
de invisíveis parâmetros,
signos sem interpretação,
apenas para ficarmos pasmos,
pensando: é, não é felicidade.