30.10.08
"O século XXI me dará razão" (Roberto Piva)
"note upon the love letters of Beethoven:"
tooling along in his red sports
car
roof down
he'd pick up all these mad
hard cases on the boulevards
we'd get music like we
never heard before
and he'd still never
ever find his
Beloved.
***
"nota sobre as cartas de amor de Beethoven:"
pense: se Ludwig fosse vivo hoje
passeando com seu carro esporte
vermelho
com o teto arriado
ele apanharia todos esses loucos
casos difíceis nos bulevares
nós teríamos música como
nunca foi ouvida antes
e ele ainda assim nunca
jamais acharia sua
Adorada.
(poema de Charles Bukowski / tradução Leo Marona)
24.10.08
"roçam-se os pés"
um pouco no fundo
sem saber como
quer o amor
como o fruto
de outro sigilo
secreto defunto
mal-estar no outro
sem saber que quer
mesmo e sem dúvida
um canto de vírgula
que sirva de túnica
às tardes esquecidas
que curam e ardem
nas noites sem lua
nuas como aquela
silhueta sem foco
que falta na cama
ao lado do cheiro
do beijo de olhos
do fim de semana:
herança de traças.
agora é tarde e frio
os cílios se dobram
e existe certo vazio
que só preenchemos
com calor hesitante
e os pés enlaçados
carregam o instante
gelado contra gelado
é igual a dois lados
para sempre sólidos
inquebrantáveis que
quando penetram poros
marcam nossa distância
com hematomas lilases
como flores de inverno
na estampa do lençol.
mas bem lá no fundo
quando a luz falece
todos nós esperamos
alguém que nos ame
como se não soubesse.
"orangotangos"
colheremos o excremento de mentes inseguras.
engoliremos o escárnio de anos em banho-maria.
as tradições tribalistas dos hinos de guerra e paz,
nós as criamos todas, e estávamos desacordados.
não tente entender as convicções que ressonavam,
carinhosas como abutres sobre a carne entorpecida.
herdeiros da poesia sem olhos, tatearemos por trás.
navegaremos incertos, horizonte de mil naufrágios.
e de nossos olhos, ao menos, pobres, os abutres
herdarão um resto magro – de uma arte ancestral.
"shakespeare"
tudo o que sentíssemos
estaríamos sempre sós
e para sempre ocupados
porém não tão infelizes.
23.10.08
"Intervalo"
17.10.08
"BR-3"
Mas isso não importa, não vou procurar saber. Pobres das famílias ricas de afeto, que são iguais entre si. Prefiro as famílias turvas, cada uma com um abismo próprio e infinito, porque não-diagnosticado. Elas são a negação da natureza - e esse é o papel fundamental do ser humano: sabendo de antemão que sairá derrotado, negar com todas as forças aquilo que o limita, que oprime sua contradição, que fornece tudo e não explica nada. As famílias ruins duram mais. Elas mantêm o mundo girando, torto mas próprio, perfurando conveniências.
Exige-se uma especialidade para que se atinja a normalidade - e ainda não se sabe que tipo de cérebro pode se satisfazer com esse tipo de metodologia. Mas não me especializarei, de minha conta, porque isso não apenas não convém: isso não importa. Isso é o que importa: que isso não importa. O mundo não é especializado - digo veja o que somos capazes de fazer um com outro apenas por não estarmos preparados - e tudo o mais resultará em estupenda frustração.
Especializando-me deixarei de conhecer muitas coisas em detrimento de poucas, mas, no entanto, sem me especializar não conhecerei nada. Isso me parece mais coerente diante do tamanho da catástrofe, mais próximo do que não podemos mas chamamos de "verdade original". Aquela inapelável, a chance dúbia de duas patas e uma cabeça que nega a verdade porque ela não é satisfatória, foi programada para não ser.
Não conhecer nada: nosso drama habitual. Sigo nessa direção vendado e com as pernas amputadas, me arrastando com os lábios trêmulos e o coração gelado. Do que estou atrás? Não saberia dizer e isso, ao passo que me mata, me liberta. Mas de que me serviriam as pernas se eu fosse especializado em viver? O que são as perguntas quando se esperam as respostas certas? Especializado eu teria que permanecer parado, com a seta sempre em riste e o corpo tranqüilo, até a falência inevitável. A gente não morre porque cansa, a gente morre porque não se desespera mais.
Não seria preciso andar de qualquer forma. Acontece que o abismo vem sempre em nossa direção. Eles se movem, isso é simples. O caso é que os especialistas não sabem disso, pois atingiram a normalidade. A normalidade é como forçar o mundo para dentro de uma caixa de espinhos dourados.
Mas, por sermos extremamente limitados, andamos em frente. Não sabemos que frente, mas nos ofendemos se nos questionam. Andamos pelas vielas sem que nos dêem por vistos, em busca da SENSAÇÃO. Essa fugidia, em caixa alta. Andamos e não dormimos direito. Nossos quartos são escuros, pequenos cadafalsos. E nem mesmo sabemos descrever a sensação de estar, pois uma vez estando, estamos insatisfeitos e não pensamos em mais nada, aceitamos tudo. Descrever é mentir, o verbo amputa o sentido.
Parece que o mercado financeiro quebrou, os bancos estão em greve, os investidores fantasmas em pânico, alguns aposentados não conseguem seu dinheiro e passam fome ou morrem de doenças leves. Aqui nada disso importa. Estou seco no meu canto, e nada me falta além da noção de galho pisado. A noção, eis a única condição prestativa para a morte. O resto não importa.
Queria dizer algo mais, mas o cansaço me incomoda, como um tiro no cerne. Brigar e amar são a mesma coisa: não há dignidade. A verdade nua incomoda mais do que uma crônica para explicá-la por si própria: o tal sonho dentro do sonho de Edgar Allan Poe. Não há sujeito depois do verbo. Essa massa disforme, eis a grande dissonância. O teto preto da verdade estupenda, em prol da verdade de cuecas.
Mas por que perseguimos e fugimos de pessoas queridas pelas ruas que não acabam e nem queremos conhecer? A explicação disso, ao meu sentir, iria em direção ao extermínio. Não haveria o que dizer. Se ao menos pudéssemos nos ver nus, alheios ao destino incompleto. Mas não admitimos, seguimos senhores da razão, usamos verdades como gravatas apertadas. Mas as verdades são inconvenientes, e não sabemos onde achar a verdade voto de minerva.
A língua de fora, os ossos quebrando por dentro, "nada disso é verdade", a fome legitima a doença. Agora como dormir com ela, proliferá-la sem que seja câncer, o método desconhecido que prova a existência de deus? Senhor, abençoai os que não sabem rezar e babam nas horas equivocadas. Os que se vestem com milagres e deságuam nos colos alheios. Abençoai os entrevados com sangue nos olhos. Os inaptos para o vôo, que comem terra suja. Eles pagam pela vida plena, pelos desejos vagos de quem se diz feliz. É preciso o equilíbrio, e alguém deve sofrer. Mas estamos aqui e não conhecemos outra glória, somos tapete de sonhos.
E daí já não importa mais a família, a extração do membro, o reduto do espírito são. Mentimos inevitavelmente porque a verdade é intragável. A cada minuto mentimos: isso é estar vivo. Quando dizemos a verdade estamos dizendo simplesmente: "meu tempo é curto, não sei o que fazer". Mas não pedimos ajuda, somos seres humanos.
O cheiro da distância é o suficiente para planejar pecados. O pecado é o que, em nós, culpa deus – inexistente ou cômico. As traições tornam-se pequenas, o peito arde, "nada importa", diz o mundo por nós paralisado. Poesia é para quem pára o tempo. Coragem é para quem tem pouco. Para com o resto, há que ser leve, reparar na dobra entre as partes – e cada parte é um mistério.
E ficaremos apenas com o que importa: estrada onde corpos caem à revelia, e onde estivermos estaremos os dois, quem sabe um, e morreremos da mesma solidão que renova o mundo, de mãos dadas.
2.10.08
"noite chuvosa"
do amigo amputado sobre a cama,
das gavetas vazias, terrível sonda.
a noite chuvosa prevê o engasgo,
a falta de apuro na sutura do peito,
o grito selvagem, o vento no rosto
e não saber – não saber que faz andar.
a noite chuvosa traz de volta a maca
com corpos vazios – todos eu mesmo.
eu que, abstêmio, espero o milagre
e envergonho porque no fundo sei:
não há milagre mas a noite chuvosa
está mais por dentro – lá fora o sol.
26.9.08
"victor hugo"
não o célebre francês, o barba,
ou as gargantas do suicídio.
alguém que acorda em pintura
e se frustra com a cor do mundo,
mas acredita nele, mente nele.
o da vida fátua, rente à retina,
desejo ante uma revolução inapta.
não o inaudito, antes de tudo
o cálido, o poeta sem remorso,
a violência sem resposta, o muro,
amigo de quem se cuida, algo assim
como eu - um pouco de cada um,
irreconhecível todo em branco,
diante de garrafas e flores pisadas.
me falta o ar, as pernas já bambas.
talvez você esteja aqui, talvez nós.
23.9.08
"a vocês"
Gostaria de dar algumas palavras aos estupradores de crianças e até mesmo fetos ainda em formação, às bandeiras erguidas pelo próximo traidor, ao que me faz chorar em certas tardes gaiolas e eu não sei o nome dessa sensação que faz chorar, mas não é choro de quem perde, é choro de quem nunca teve, e não sei de nada e espero tudo, o homem cotidiano descrito por Camus, que se levanta e não quer fazer o mal por medo de ser punido por seres magnânimos e matemáticos.
E a eles eu gostaria de entregar algumas palavras. Aos que abrem estradas sobre corpos humanos, aos metafísicos da consolação, a todos os grandes poetas que espancavam com amoladores de faca, na escuridão dos sentidos, crianças indefesas, que de alguma forma crescerão para colher os louros do patife laureado. Aos que enrolam dinheiro com esparadrapos na cintura e estão prestes a explodir. Aos que farejam como porcos e se alimentam de entranhas.
Dedicaria, se tivesse a grandeza necessária, com firma autenticada em cartório e assinada por deus, algumas palavras aos ilustres freqüentadores de bordéis, senhores poderosos e bonecos na cama, tão iguais a vocês e a mim, mas menos iguais a vocês, prefiro pensar, vocês que viram a cabeça, vocês que cortam a corda, vocês que aplaudem o pôr do sol e, bêbados, matam. Vocês que dedicam poemas e, ensandecidos, levam as mãos à cabeça. Vocês que presenteiam mendigos com cachaça nas datas festivas e os atropelam pelo resto do ano.
Aos contrabandistas de emoções, delfins elaborados em barro sintético, dou portanto algumas palavras a vocês, atrozes espelhos de si, sorridentes dentro da sombra, hienas com o dedo em riste, assassinos em série, candidatos à Prefeitura.
O mundo é de vocês mas, não se enganem, ainda estamos aqui, do outro lado, do lado fantasioso, do lado ingênuo, do lado utópico, do lado ultrapassado, do lado alienado, chamem do que quiserem. Daqui vemos muito bem e também sabemos esperar. Não há cá muita sombra, mas a vista é privilegiada e ainda temos pernas. Nossa cabeça está um pouco avariada, somos produto de uma noite tenebrosa, mas talvez isso nos mantenha absurdos e, portanto, de acordo com a vida.
É por isso que dou, entrego, cuspo estas palavras no colo dos formadores de opinião grisalhos e pedófilos, dos ventríloquos de auditório simpáticos e inofensivos, por isso letais, aos pantagruélicos donos de negócios promissores, que geram milhões e são incapazes de escolher uma esposa decente. Aos adolescentes que apodrecem nos edifícios comerciais como enormes consultórios dentários, ao que sorri e apunhala pelo gosto doce do sangue pastoso, ao fratricida de mil olhos e com a palavra certa.
Por causa de vocês nos restou muito pouco, e disso fizemos um mundo. Vocês líricos byronescos de visão turva e passo manco. Vocês integralistas enjaulados na cadência envelhecida. Vocês caçadores de recompensa em forma de mais um pouco de tempo. Vocês que, munidos de façanhas milenares, garantem a própria lápide e nos mastigam os anos.
Aos demolidores de séculos, atacadistas sentimentais, devoradores da esperança, destino estas palavras, que terminarão em breve e serão pó como tudo:
A terra é árida, o terreno não muito fértil, usado pelo avesso, mas nas veias ainda corre o algodão. Vocês nos ensinaram a quebrar os pés quando precisávamos de abrigo, nos mostraram o desgraçado jogo da oferta. Vocês nos fizeram saber sem esperar por mais nada. Estamos aqui nus, sim, a pele desmanchada. São feias as marcas no corpo, obra compulsiva de uma espécie milagrosa. Mas aprendemos a atirar com a língua, somos bardos e nosso desafio são os dentes roxos. Nosso escudo é o coração, outros já disseram. Estaremos esperando por vocês, prontos.
"toni"
um sujeito na rua
insistiu que eu era
o Toni Platão.
Não fosse pelo Toni
e isso até que não
soaria assim tão mal.
20.9.08
“mais estranho que o paraíso”
me pergunto: será o fim da poesia?
tanto faz o que é ou não é ou se é.
o que é ou não é de qualquer forma será
e então já foi – não importa mais, é resto.
sou alheio aos homens e deles me alimento.
tudo não passa de tempos verbais,
pequenos erros bem-intencionados,
o não-dito, um embarque imediato
para Budapeste.
escrever portanto um apenas para o cérebro,
para a massa disforme que formula enganos.
apenas para limpar o antro, polir a máscara,
criar um novo tédio dos passos se somando.
dizer "te amo" como quem acena de um trem.
19.9.08
"Helena Ignez"
e ninguem mais sabia
onde chovia, se era dentro
ou se era fora do corpo.
fora certamente chovia,
dentro era um presságio,
e talvez porque eu usasse
meu fantástico sobretudo
talvez isso fosse chover.
era uma padaria, era sim,
era uma padaria, e lá eu vi
a eterna musa do cinema
brasileiro, quando havia
cinema brasileiro, cinema
de vários lugares, e ela era
musa do cinema brasileiro:
Helena Ignez – e eu a vi
com meu sobretudo e ela
talvez achasse legal pois
olhou para mim sorrindo
um sorriso longe de musa
e ela estava velha, a musa
parecia fruta seca, poética,
e como no caso das grandes
aparições eu não fiz nada
mas pensei que gastamos
muito pouco nosso corpo
preocupados em durar algo
e ao morrer não sabemos
porque demorou tanto.
14.9.08
"Mr. Henry Charles Bukowski Jr."

“a poem is a city”
a poem is a city filled with streets and sewers
filled with saints, heroes, beggars, madmen,
filled wit banality and booze,
filled with rain and thunder and periods of
drought, a poem is a city at war,
a poem is a city asking a clock why,
a poem is a city burning,
a poem is a city under guns
its barbershops filled with cynical drunks,
a poem is a city where God rides naked
through the streets like Lady Godiva,
where dogs bark at night, and chase away
the flag; a poem is a city of poets,
most of them quite similar
and envious and bitter...
a poem is a city now,
50 miles from nowhere,
9:09 in the morning,
the taste of liquor and cigarettes,
no police, no lovers, walking the streets,
this poem, this city, closing doors,
barricaded, almost empty,
mournful without tears, aging without pity,
the hardrock mountains,
the ocean like a lavender flame,
a moon destitute of greatness,
a small music from broken windows...
a poem is a city, a poem is a nation,
a poem is the world...
and now I stick this under glass
for the mad editor’s scrutiny,
and night is elsewhere
and faint gray ladies stand in line,
dog follows dog to estuary,
the trumpets bring on gallows
as small men rant at things
they cannot do.
***
“um poema é uma cidade”
um poema é uma cidade cheia de ruas e esgotos
cheia de santos, heróis, pedintes, loucos,
cheia de banalidade e bebedeira,
cheia de chuva e trovão e períodos de seca,
um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade perguntando ao relógio por que,
um poema é uma cidade em chamas,
um poema é uma cidade rendida por armas
suas barbearias cheias de bêbados cínicos,
um poema é uma cidade onde Deus anda pelado
pelas ruas como Lady Godiva,
onde cães latem à noite e perseguem a bandeira;
um poema é uma cidade de poetas,
quase todos um tanto semelhantes
e invejosos e amargos...
um poema é uma cidade agora,
50 milhas de lugar nenhum,
9:09 da manhã,
o gosto de bebida e de cigarros,
sem polícia, sem amantes, andar pelas ruas,
este poema, esta cidade, as portas fechadas,
barricadas, quase vazia,
desolada sem lágrimas, envelhecendo sem pena,
as montanhas feitas de pedra,
o oceano como chama de lavanda,
uma lua destituída de grandeza,
a pequena música que vem das janelas quebradas...
um poema é uma cidade, um poema é uma nação,
um poema é o mundo...
e agora eu enfio isso debaixo do copo
para o exame detalhado do editor maluco,
e a noite está noutro lugar
e débeis damas cinzentas estão na fila,
cão segue cão até o estuário,
as trombetas trazem a forca
enquanto homens pequenos se gabam de coisas
que não podem fazer.
tradução Leonardo Marona
9.9.08
"EL DESDICHADO" (Gérard de Nerval)

Je suis le Ténébreux, - le Veuf, - l'Inconsolé,
Le Prince d'Aquitaine à la Tour abolie:
Ma seule Etoile est morte, et mon luth constellé
Porte le Soleil noir de la Mélancolie.
Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m'as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d'Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,
Et la treille ou le Pampre à la Rose s'allie.
Suis-je Amour ou Phébus?... Lusignan ou Biron?
Mon front est rouge encor du baiser de la Reine;
J'ai rêvé dans la Grotte où nage la Syrène...
Et j'ai deux fois vainqueur traversé l'Achéron:
Modulant tour à tour sur la lyre d'Orphée
Les soupirs de la sainte et les cris de Fée.
***
Eu sou o Tenebroso, - o Viúvo, - o Inconsolado,
O Senhor de Aquitânia à Torre da abulia:
Meu único Astro é morto, e o meu alaúde iriado
Irradia o Sol negro da Melancolia.
Na noite Sepulcral, Tu que me hás consolado,
O Posílipo e o mar Itálico me envia,
A flor que tanto amava o meu ser desolado,
E a treliça onde a Vinha à Roseira se alia.
Sou Biron, Lusignan?... Febo ou Amor? Na fronte
Ainda o beijo da Rainha rubro me incendeia;
Eu sonhei na Caverna onde nada a Sereia...
E duas vezes cruzei vencedor o Aqueronte:
Modulando na cítara a Orfeu consagrada
Os suspiros da Santa e os arquejos da Fada.
tradução Alexei Bueno
8.9.08
Fausto Wolff (1940 - 2008)
Então morreu o lobo. Morreu de ofício do tempo e sem reclamar. O deserto se fechou, o lobo não vive afugentado no eterno branco. Não é possível mantê-lo de pé sem o líquido da vida, que apenas os duros bebem aos borbotões, com rosto duro cheio de ternura, e os selvagens se lambuzam. Morreu então o lobo que, sempre ereto, uivava palavras em alemão. O lobo que escutava uma tristeza ulterior no vento de areal. O lobo que comia carne crua e esperava a lua para nascer a cada dia. Um dia ele não mais nasceu. O mundo do lobo é um mundo sem bondade nem crueldade, totalmente aberto e perigoso, um mundo sublime possível justamente por ser um mundo sem rédeas. Um mudo natural por si. A dureza do lobo vinha de saber que um mundo assim é cruel para os padrões humanos e que, portanto, a natureza era mesmo cruel na visão humana, e isso fazia com que nós humanos não soubéssemos realmente o que fazer ou desejar, pois a maldade era a nossa própria cabeça, e a única saída era tornar-se inumano para, assim, renegar a falta de humanismo da massa original, que não vem exatamente de nós, mas do que nos gerou e não sabemos. O lobo chorou muito com o tempo adverso. Em silêncio, soletrou absurdos líricos, usou pedras de travesseiro cético. Costelas à mostra, chorava devagarinho. A dor lancinante – boca de abutre no intestino – dificultava os ganidos românticos. O lobo chorou para a lua porque no fundo desejava chorar por tudo que é e não é o mundo com uivo completo de magnitude caudalosa, como um agradecimento amaldiçoado ao germe da faísca. Difícil saber agora o que fazer sem a presença arrítmica do lobo, como imaginá-lo acinzentado ao vento, dar carinho aos seus restos pútridos. Seu charme magnético de andar. Sua relação direta com o cosmos. Seu mais completo desinteresse sobre questões de ego ou repartição. Ah, e sua violência mitológica! As garras de fora no momento do pulo. As costas eretas no toque do verbo. O lobo agora, vieram buscá-lo. Trouxeram finalmente a foice, pegaram-no diante do último salto. Pela força única que sua ética denota, o lobo, é provável, virá outra vez, e outras, porque ele é costela da natureza selvagem, poesia de gatilho e meio-fio à luz de prata. Deus queira que esteja por paragem ainda mais árida, ainda à espreita, andando por quem não tem pernas, vivendo por quem não tem vida. Mas deus não existe, eis a dura beleza. E o lobo sabe que é matéria inata, ancestral crucificado da beleza primitiva.
5.9.08
"samurai"
um homem sozinho
com ganas de sangue.
o herói sem atitude,
potência indiferente,
espécime de vidro.
de verso em verso
a lâmina: o suicídio.
vilão sem identidade,
pária social, rasgado,
refrão sem codinome,
eu sou o samurai.
o passo além do corpo
o osso que interrompe
o medo: o fiel servo.
ao me ver não mova
a face sutil – espere.
lá do alto das colinas
vejo o vale em chamas
a espera de um milagre.
conto sete respirações
e vou morrer no fogo.
eu sou o samurai.
2.9.08
"desconstrução do amor"
usada por covardes
com medo da vida.
o amor é uma ferida
que mantém a busca
pela espera frenética
que porá em risco
as nossas estruturas
e, sem dúvida, um dia
nos matará, pela falta.
ridículo falar do amor
como a cura do indigno,
como a ponte do suicida,
como a razão do sociopata,
como a fome do inválido,
como a bengala do cego.
mas o amor é tudo isso.
um erro por dia e planos,
o amor se basta na vontade,
porque, tal como o sonho,
o amor só vale noutro plano.
o presente do amor são juras
hipotéticas, metalingüísticas.
essência do amor é a solidão,
fonte dos poemas e das mentiras.
jamais haveria o amor solene
se não houvesse um abandonado.
o amor poético se dissolve fácil
no chá silencioso dos hipócritas.
ao falarmos “amor, amor, amor”
não precisamos falar “que fome”,
“como está frio aqui”, “eu tenho
o que eu preciso e me sinto vazio”,
“eu não sei o que preciso e sofro”.
mas em vez disso temos sempre
o amor cúmplice, o amor covarde,
o amor por tendência, construtivo,
positivista: o amor com ventosas.
o amor é mesmo a planta química
devorada por bocas anestesiadas.
ou talvez o amor seja outra coisa,
palavra fora daquilo que se pensa.
ninho de enigmas carmesim,
o amor ergueu acampamento:
ele também se esgotou de si.
portanto não se preocupe
se ao olhar fundo nos olhos
houver apenas um e um: dois.
com amor demais matamos,
degolamos desejos, sorrimos
pensando no que vai nos salvar.
quem sabe tendo o amor fugido
nos juntaremos outra vez por medo
e do medo, talvez, a igualdade
possa nos manter em silêncio,
mas ao menos de mãos dadas.
31.8.08
"Ao volante do Chevrolet"
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
(Álvaro de Campos / Fernando Pessoa)
