26.6.11

"leminski"

ah se a verdade fosse assim tão límpida
e não nos matássemos por amor a um irmão.
fazemos o que podemos com o que não
podemos e não podemos mais fazer nada
além de versos, como dardos agridoces,
porque somos, através da nossa loucura,
aquilo que respira a aldeia da psiquê.
mas sempre chega a meia-noite na alma,
os quatro ventos jamais convergem
nas rupturas constantes de que precisamos.
vão-se irmãos e filhos, sobram tumores,
e não temos a espada samurai da coragem.
importa muito pouco, poeta, na verdade,
que falemos tanto, pensemos tão alto,
se cá no raso nos afogamos com os mortos,
porque não vemos mais amor entre os vivos.

24.6.11

"poema encontrado nas gavetas de 2006"

"Infâmia"

Quando um homem fica velho
nem sempre é quando ele tem idade
Às vezes é quando ele não tem muita
outras vezes é quando sabemos quem somos
quando dizemos aos outros: eu sei quem sou

Ou quando passamos a pensar em nós de fora

Ser velho é perder o tato com o medo
ser velho é semear angústias transgênicas
ser velho é acreditar nos contornos do espelho
É quando os olhos fazem maquiagem nas flores da face
não por elas serem velhas, infames, cheias de pêlos
mas por elas serem um sonho que descolou do precipício

O tempo sabe quem sou e porque sou e isso me envelhece
Saber quem somos serve apenas para os vermes
que – estes sim – têm certeza absoluta

22.6.11

"um a menos"

por ora os abutres sobrevoam
a lagoa fetal e, muito em breve já munidos
com as devidas garras de enxofre,
eles darão o rasante metálico
e tudo isso será apenas uma história,
um mito, um terá-alguma-vez-isso-acontecido,
mas os amantes estarão esfarelados
em suas carnes antigas, abraçados numa confusão pagã,
a carne nova estará no balcão vermelho dos negócios de feira,
as breves frases delicadas ter-se-ão tornado
bustos pesados de paz em vírus.

a galope o pequeno órgão ratifica
a vaga culpa, estamos nus sob um sol úmido,
não há realmente porque falar sobre isso com ninguém,
as salas minúsculas e os alquimistas calvos
afunilaram o ambiente com paciência e muito ânimo.
serás processado, triturado e lançado ao acaso
em tua própria tendência succínea, e não será possível
abrir mão deste silêncio como osso tranca-traquéia,
ainda nem uma cabeça, um todo
verminal que no entanto pulsa.

a morte da Grécia está nas ruas
e já não poderei vê-la porque a partir de agora
os olhos forçam para dentro as mágoas,
as covas rasas se alinham ao ventre,
não há realmente porque falar sobre isso com ninguém,
entende-se que a morte do pai reaproxima o par,
pois que assim seja, saberemos renunciar
a qualquer passado por uma nova vida, daremos
as mãos em nosso pior inverno, riremos como clowns
e poderemos até assaltar um banco, costuraremos
as máscaras dos sorrisos heróicos e caminharemos
com menos um pedaço, adiante.

18.6.11

"Brasília"

o problema sério de Brasília
são os prédios de pastílhas,
tristes seres que se afagam
nas mil quadras de mil blocos.
Brasília é homem que jamais
pode morrer, mas traz a faca
que sem lâmina nos mata,
nos faz maiores para falar:
Brasília ao longe teu avatar
já não comove nem um grego.
país ao longe, tão brasileiro,
vapor ao vale na imensidão.
sangue escorre, e tenho pena,
Brasília corre com pés no chão.
mas qual o chão, se aqui se morre
pensando em atas de distinção?
o que nos mancha, se temos sorte,
serão as salvas da alforria.
Brasília monstra, por que Brasília,
se onde há homens não há poesia?
não ser Berlim, nem bem Paris,
com a magia dos sem-coturno.
não nos amamos, e sei contudo:
te devo a vida, e o chamariz.
amigo Heine, eu bem entendo
com a frieza dos bigodudos:
além de tudo, há lá mil vias,
línguagens cínicas do violão.
Brasília, a morte nunca foi tua
mas somos todos o teu caixão.

16.6.11

"a boa e velha sinceridade alemã"


H. Heine (1797 - 1856), também conhecido como "Aristófanes alemão",
com a típica pose tubércula, muito em voga à época



Índole pacífica. Desejos: cabana modesta, telhado de palha, porém uma boa cama, comida gostosa, leite e manteiga bem frescos, flores em frente à janela, belas árvores defronte à porta, e se o bom Deus quiser me fazer totalmente feliz, que me conceda a alegria de ver, nessas árvores, cerca de seis ou sete de meus inimigos enforcados. - De coração comovido hei de perdoar, antes de suas mortes, todas as infâmias que me infligiram em vida - sim, temos que perdoar nossos inimigos, mas não antes de serem enforcados. - Perdão, amor e compaixão.

Henrich Heine

"diagnóstico"

é necessário algo fluido
feito mãos entre lâminas.

precisa-se urgentemente
de uma boca bem aberta.

para coalhar esse tempo
que não se fez cicatriz.

nem tampouco sangra agora
e ainda é tempo sobre tempo,
sem noção entre terra e cais.

em suma é necessário mais,
porque os olhos imaginários
exigem filho, casa, mulher.

pode-se fazer o que se quer:
matar-se com tiro entre olhos,
convidar corujas para jantar.

mas sempre existirá esse canto,
essa mensagem rouca de louco,
esse erguer os olhos aos sinos,
tão anterior à foice sob a pele,
que enfim entregamos à saliva.

e quem pensa sobre isso morre
de amor ou doença coronária.


*texto publicado originalmente na fabulosa Revista Minotauro 3 (carne)

6.6.11

"Gênio Heine"

A sorte é uma mulher vadia
Que não se aquieta no lugar;
Te beija, abraça, acaricia,
Desaparece num piscar.

Senhora Azar é toda amor,
Te prende firme ao coração;
Diz não ter pressa e faz tricô,
Esparramada em teu colchão.

(Heinrich Heine, 1851)
tradução de André Vallias

3.6.11

"Elegia Múltipla" (Herberto Helder)





VII

Os ombros estremecem-me com a inesperada onda de meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,
alterosa e quente na minha mão
sufocada. Agora mesmo na europa
começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida
percorrida por um álcool penetrante, é a imediata
atenção ao misterioso trabalho da idade.

Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais
sombrios da carne, sobre um vasto segredo.
Será apenas isto, um ponto móvel
da eternidade, isto – a sufocação veloz e profunda
da vida inteira na minha garganta? E depois
o acender das luzes, Bruxelas como uma câmara
de archotes e ao alto as ameias
enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande
memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.

Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilônia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer. Tenho
vinte e nove bocas urdindo
a falsa doçura da confusão. Os países constroem
a torre sombria do amor. Dá-me a tua mão
pensativa e antiga, deixa que se queime ainda um instante
a loucura masculina
da minha vida. Pensa um pouco na beleza
ignota das coisas: peixes, flores, o sono terrível
das pessoas ou o seu respirar
que arde e brilha e se apaga à superfície
das lágrimas ocultas. Pensa um pouco no sorriso
rapidíssimo
que jamais desaparece do silêncio, na candeia
que cobre com agulhas de ouro os escombros
dos lírios. E por cima de tudo estende
a tua pequena mão eterna. Cai
tu própria na treva quente da minha
cega mão masculina de vinte
e nove
anos. Tenho vinte e nove anos ou uma onda
inesperada que me estremece a carne ou a minha garganta
cheia de sangue actual – amanhã morrerei.

Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas
velozes, pedras que pareciam
imortais. Eram casas que se levantavam
sobre o meu coração. Vi que tomavam
animais feridos, flores imaturas, objectos
breves, imagens instantâneas e perdidas. Faziam
alguma coisa eterna. Era gente
de vinte e nove anos que se despedia dolorosa
pormenorizada
violentamente de uma parte da sua carne, a parte
mais iluminada da sua
carne de vinte e nove anos. Amanhã
morrerei.

2.6.11

"Blake for rapers"

lack of breath,
sketch of Spain.
we stand to rest,
we dance to say.

the time will come
to fear and grow:
mounts of sperm,
hearts of snow.

but when you find
we are that near,
come and cry,
life is queer.

when wake to sleep
and sleep for fake,
try to skip
love’s delay.

first the blame,
then the drag.
we lie our names
and kill our deads

we love for pain,
we loose our hats.
sketch of Spain,
lack of breath.

31.5.11

"NAVA" (Ismar Tirelli Neto)

desconfio deus montando
embaixada à porta do banheiro. Desconfio
deus uma pedra com eco, desconfio deus
um novelo de lã nos confins de sob a cama. Não estou morto.
Não das mãos desse sujeito. A carne
do que se diz está bem longe, mas cumpre atentar:
tampouco se trata duma mentira. Fazemos o que
fazemos pelo elástico da coisa. Estes quartos, em nenhuma
ordem particular. Nada deve permanecer
que seja meu. A repentina exigência do hospital azul
frente ao edifício. Meus passos estranguladamente lentos
antes de te deixar, fosse eu o assassino

*esta e outras pérolas estão no Ramerrão (7Letras), livro do ano, quiçá da década, a ser lançado hoje na Travessa do Leblon, a partir das 19h.

24.5.11

"porto alegre - dia das mães - 2011"

dessa vez, Porto Alegre, você me passou a perna direitinho.
depois de algumas catástrofes, o sol brilhou por alguns dias,
tirando o mofo dos casacos sempre fechados no escuro seco
das nossas imagens compartilhadas, a ferro, susto e tabus.
o sol brilhou por alguns dias e, estou perfeitamente convicto:
a poluição é o que deixa o pôr-do-sol no Guaíba mais bonito.
atravessar a rua sem pernas, flutuando num caldo alcoólico,
tornou-se algo que até mesmo uma criança é capaz de fazer.
aceno, nas ruas, para meninas de tranças, índias Charruas
da minha mais funda origem, e pela primeira vez vejo os dentes
de minha mãe morta, perfurada pela primavera dos excessos.
bom estar pela primeira vez de ouvido aberto em Porto Alegre.
um homem gordo, de gordas e fascistas batatas da perna, boina,
passa com seu passo de holocausto, aproximando-se de mim,
enquanto estou próximo ao lago, alimentando meus ímpetos.
mas estou atento e calmo dessa vez, jogo lento minha droga
por terra, enquanto passa por mim o sentinela-cidadão-comum,
dá uma olhada para o lago e vai embora sacudindo os mortos.
sigo chutando os pinhos secos, desviando dos preservativos
do amor moderno e das seringas do êxtase capaz de matar,
e que é o único êxtase concebível, o êxtase do mais-que-tudo.
existe algo íntimo e um tanto patético no Parque Farroupilha,
algo que abre meus pulsos, me envergonha e comove muito:
uma zona central com um grande chafariz, um campanário
que é uma réplica chinfrim do Jardim de Versailles e, acreditem,
um Arco do Triunfo, mas por ali passam bichas heterofóbicas
com seus cachorros magros e passam salazares e antigas
mães italianas e um casal briga ao meu lado, e o homem diz
à mulher dele uma frase, mas essa frase, claro, é para mim,
que sou todo ouvidos aéreos e pés firmes no chão de Porto Alegre:
"tu fica te escalando pra fazer as coisas e depois fica te fazendo",
e este sou eu, esta é minha cidade urso de infância, sem deus.

29.4.11

"não temos Paul Valéry"

são mil elefantes sobre a corda no pescoço.
é arrancar fora os elefantes, queimar a corda,
recolher com carinho a réstia do abatimento.
nada se resolve, não sabemos o que é certo,
não temos Paul Valéry, não tingimos o bigode.
adeptos do quem-pode-pode-quem-não-pode-
se-sacode, temos dor e não temos lágrimas,
temos sono, olhos vermelhos, veias abertas,
enxugamos o marinho, nossa poesia chove.

15.4.11

"existe um homem bêbado, desesperado"

o quanto me ajuda aquilo que me mata,
ilumina a cabeça e rareia
o bolso paterno de mim,
aquele que foi morto, aos prantos
em uma novela de Raymond Chandler,
com um pouco de ajuda desencapo,
acredito em qualquer um,
como no primeiro Balzac.

saber que me mata aquilo que me ajuda
é como saber que enxergo,
mas não gosto do que vejo.

saber que já foram resolvidos os anseios
– não há mais tempo para isso agora –
pelos 127 heterônimos de Fernando Pessoa
resolve a vida do Pessoa, mas e a minha vida?
justo eu, que não tenho heterônimo nenhum,
que sou um só e sou mil e sou um trapo,
sei que aquilo que nos mata nos ajuda,
ilumina as chagas, faz da ferida pintura,
faz em palavras as babas por entre lábios.

mas o que direi a mim mesmo no silêncio
em que só os amantes podem mentir?
como pedirei ajuda na hora em que a morte
roçar finalmente a infância dos meus cílios?

3.4.11

"primeiro para marina"




este é o primeiro para ti, coisa minúscula,
porque agora estás longe – e é domingo,
e no domingo almoçávamos e tentávamos,
depois de um pouco do choro pelo ultraje
do abandono semanal, comunicar algo de um
para o outro, com nossos famigerados trejeitos.

mas não te preocupes, pequena, que agora tudo
pareça insuficiente de sentidos, afinal és pequena
demais, mas não te preocupes, mesmo aos trinta
continuarás pequena para tais questões, e é só
por ti que eu jamais aceitarei novamente alguém
que diga “morreu o último romântico”: eu estarei
vivo e por mim tu viverás por mais cem anos.

enquanto isso, pequena, enquanto agora desbravas
novas terras onde não colherás provavelmente muito,
enquanto isso, haverá algo de poucos gestos, mínimo,
mas que já sabe acenar adeus e sorrir sem dentes firmes,
algo minúsculo, que é como tudo que nos mantêm vivos,
porque nos vemos e não sabemos de nada, mas sabemos
que somos pedaço do mesmo pedaço, mas não comemos.

1.4.11

"momento aprenda com quem sabe"

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. (Graciliano Ramos)

22.3.11

"sobre a boa amizade"

estarei aqui quando os concretos se virarem
e vierem nos cobrar as cinzas da beleza,
estarei aqui, com os olhos costurados,
mas você escutará, a cada morto desabado,
meu coração pigarrear e meus dedos amarelos
suplicarem por esse silêncio de cidade grande
dividido com os únicos ombros firmes,
dessa viscosa irmandade que justifica
sermos fúteis o suficiente para lustrar
a vergonha úmida de nossos cílios fosforescentes
e derramar o sangue como balas doces cocaína
porque nossa queda de joelhos será a liberdade
não reconhecida nos pequenos túneis funéreos
e que são nada, meu amor, nada além do escuro
frágil com o qual nos acostumamos a amar sem aspas.

16.3.11

"what they want" ou "aprenda com quem sabe"

por Henry Charles Bukowski Jr.






Vallejo writing about
loneliness while starving to
death;
Van Gogh's ear rejected by a
whore;
Rimbaud running off to Africa
to look for gold and finding
an incurable case of syphilis;
Beethoven gone deaf;
Pound dragged through the streets
in a cage;
Chatterton taking rat poison;
Hemingway's brains dropping into
the orange juice;
Pascal cutting his wrists
in the bathtub;
Artaud locked up with the mad;
Dostoevsky stood up against a wall;
Crane jumping into a boat propeller;
Lorca shot in the road by Spanish
troops;
Berryman jumping off a bridge;
Burroughs shooting his wife;
Mailer knifing his.
--- that's what they want:
a God damned show
a lit billboard
in the middle of hell.
that's what they want,
that bunch of
dull
inarticulate
safe
dreary
admirers of
carnivals.


*** tradução ***


"o que eles querem"

Vallejo escrevendo sobre
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por

uma puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficando surdo;
Pound arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomando veneno de rato;
os miolos de Hemingway pingando
no suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
--- é isso que eles querem
uma porra de um show
um outdoor aceso
no meio do inferno.
é isso que eles querem,
esse bando de
estúpidos
inarticulados
seguros
sombrios
admiradores de
carnavais.

9.3.11

"Leonardo Gandolfi"




Arma de Vingança

Digamos que você saiba o meu nome
e o nome do meu cachorro. Digamos que
você tenha razão, errei bastante, fui precipitado.
Digamos que se trate disso, exatamente disso,
não porque eu tivesse a mesma coragem que você
para negociatas cujo fim fosse alguns trocados
sujos que não mudariam a vida de ninguém
nem mesmo a de um professor quase sempre
sem emprego. Digamos que seja isso, isso mesmo,
só porque mais ou menos reproduz o caminho
sem volta que um ou outro têm trilhado, alegrias
e vexames que quase sempre terminam em portas
que, quando não estão fechadas, nós mesmos
fazemos questão de fechá-las. Agora uma suposição,
digamos que você saiba apenas o nome do cachorro
e que esse cachorro não seja exatamente o meu.


Cronologia

Tecnicamente não sou lá boa pessoa.
Amei e fui amado sem ter visto nisso
amor ou o que quer que seja. Em segredo
traí amigos mulheres e a memória alheia.
Cultivei a mentira o medo a covardia,
tudo em seu registro menos assertivo,
e só mais tarde fui aprender que ao melhor mal
coube a mim apenas a melhor resposta.
Pois se houve bem no mal do qual fiz parte
foi o de ver que as pedras que tenho no bolso
também estão no bolso daqueles que não
abracei nem dei a mão. Nossa canção
embora solitária e cheia de paz
é uma só canção e, cante o que cantar,
ouviremos apenas os ruídos deste
que tem sido apesar de tudo o nosso tempo.


*Saiu este belo livro, A Morte de Tony Bennett, obra um tanto instigante e inusitada do carioca Leonardo Gandolfi. Os dois poemas acima, se é que é assim que devemos chamá-los, apenas poemas, estão neste lançamento da Lumme Editor.

8.3.11

"breviário de uma puta aposentada"

a orgia virou cinza à luz da enxaqueca –
choro porque dentro de mim há um surdo
e este surdo representa a cor do meu erro,
que de tanto cometer aprendi a amar lúcido
como o pai distante ama o filho enforcado,
e as trombetas se encolhem nos corações
encharcados de tanta fuga e tantos em fuga,
e, na verdade, é uma festa pagã, mas que é
a festa pagã se é também um tempo pagão?

olho minhas unhas pintadas, que de roídas
tornaram-se as unhas de uma prostituta velha.

não haverá ninguém nos esperando, doçura,
quando saltarmos para esse estranho infinito.

as flores, nós teremos que levá-las no bolso,
amanhã estaremos assombrosamente perto,
é devido não amassar com mãos trêmulas
as flores do medo que levamos nos bolsos,
é devido também, se possível, evitar tocá-las,
fundamental referência se vê melhor ao longe,
agora que, à luz da enxaqueca, cinza, a orgia
se apresenta com as mil línguas infectadas,
refratárias da beleza com a visão em brasa.

1.3.11

"mandelstam"




"os garotos perdidos cantam para Mandelstam"

pintávamos com liquid paper as unhas e amarrávamos
elásticos em torno dos braços para que nos saltassem
as veias como as dos que imaginávamos ser
os Jeans Genets das penitenciárias da infância,
e as veias explodiam como a vida explodia, mas nós
traçávamos as saliências das veias intumescidas
com caneta bic e, por vários dias, reforçávamos
o traço e conhecíamos o nosso corpo nos intervalos
das aulas de francês de Madamme Albinou, e no mais
havia as marcenarias de nossa primeira química
e os quartos mofados dos nossos hormônios.
nós então sabíamos que o antigo torna-se brinquedo,
sabíamos como sabem os fascínoras e os papas,
apenas que em nós a violência era ainda sem pecado,
mas as costas da revolução nos costuraram os olhos
e hoje não passamos de contra-revolucionários cegos.


O POEMA ABAIXO FOI ESCRITO POR MANDELSTAM EM "HOMENAGEM" A STÁLIN, O DITATOR COM DENTES PODRES, QUE, EM AGRADECIMENTO AO PRESENTE, MANDOU MANDELSTAM PARA MORRER DE FRIO NA SIBÉRIA, EM 1939:



Vivemos sem sentir o chão nos pés

Vivemos sem sentir o chão nos pés,
A dez passos não se ouve a nossa voz.

Uma palavra a mais e o montanhez
Do Kremlin vem: chegou a nossa vez.

Seus dedos grossos são vermes obesos.
Suas palavras caem como pesos.

Baratas, seus bigodes dão risotas.
Brilham como um espelho as suas botas.

Cercado de um magote subserviente,
Brinca de gato com essa subgente.

Um mia, outro assobia, um outro geme,
Somente ele troveja e tudo treme.

Forja decretos como ferraduras:
Nos olhos! Nos quadris! Nas dentaduras!

Frui as sentenças como framboesas.
O amigo Urso abraça suas presas.*



*A tradução literal desta última linha equivale a: "O largo peito do essétio" (cidadão de Ossétia, da Geórgia, região de origem de Stálin). Variante literal: "Um abraço de Ossétia às suas presas".

12.2.11

"escombros"

se ao menos eu fosse um desses fabricantes de canções de ninar,
eu seria aliviado, quem sabe, da minha dor no intestino delgado,
que de certo é pela tristeza ao ler minhas canções despedaçadas,
e quando as meto no papel a mim serão perfeitas, pouco importa
se a morte se concluiu em gelo da montanha e tinta desperdiçada.

quando as meto no papel pouco importa, sem pé, mão ou cabeça,
elas irão aos olhos sem aviso e, já quase sem ternura, sem licença,
farão dormir a besta dura e sua presença trará quem sabe um riso,
alguma crença, mas suo feito um porco-príncipe, é inútil a crença.

se ao menos eu pudesse fabricar a mais simplória canção de ninar,
ah eu dormiria para sempre, com o riso leve dos que sabem dormir.

mas sou pobre e tenho fome, tenho medo de morrer no longo sono,
nada me resta além de arder em brasa, acordar a canção com fogo,
pois que sou operário de um tempo sem descanso para olhos vivos:
posso apenas contemplar minha criação através de seus escombros.

31.1.11

"gambito"


Disseram-me pelo telefone que eu deveria procurar um sujeito chamado Campos. Quando cheguei à livraria, vi que era ainda cedo demais, meu estômago fazia sons estranhos, então fui dar uma cagada. No banheiro percebi que estava com umas olheiras enormes, meu intestino não ia nada bem, mas eu fingi que ia tudo bem. Saí do banheiro, entrei na livraria e me dirigi a uma guriazinha muito magra com mau hálito e gânglios no pescoço, em pé atrás de um balcão, sustentando um sorriso postiço:

- Preciso falar com o Campos – eu disse a ela.

- Você veio para a dinâmica de grupo?

- Acho que sim.

- Suba até o auditório e espere.

Subi até o auditório e lá encontrei alguns rostos querendo parecer calmos. Dois ou três homens com cabelos em forma de cuia e ternos justos de veludo, fumando cigarro. No mais eram umas dez mulheres, todas arrumadas como se tivessem apenas aquelas roupas, todas parecendo mulheres duras e fatais capazes de tudo. Aquilo era parte do processo seletivo, na certa, mas como era cedo demais para demonstrar dureza e capacidade, dei meia-volta e permaneci no andar de baixo, como um homem ridículo com disfunção renal, folheando um livro com as obras completas de Van Gogh, divididas por período. O período posterior à internação no manicômio de Saint-Rémy era o melhor - disparado. Depois que ele saiu de lá e foi para Auvers, suas pinturas abandonaram a até então vigorante inquietude ecumênica e se tornaram sobrenaturais, mal-assombradas, feitas por um homem de gênio que perdeu a cabeça. Umas gravuras japonesas também me chamaram a atenção quando, de repente, vi que as pessoas começaram a entrar no auditório, atrás de um rapaz careca aparentemente efeminado.

Fui o último a entrar, acreditando que aquilo poderia causar algum impacto positivo para minha insegurança. O impacto foi que comecei a suar no buço, e a camisa começava a marcar debaixo das axilas.

Campos era um homem lá pelos seus trinta anos, ou talvez fosse mais jovem, mas, pela careca, parecia mais velho. Ele era o psicólogo que analisaria os candidatos à vaga de vendedor.

Ao lado de Campos havia um outro homem, bem mais simiesco, escuro mas não negro. Ele se apresentou como González, mas teve que repetir o nome três vezes até todos entenderem. Isso serviu para descontrair o ambiente que, como um todo, escorria a suor e expectativa, e todos sorriram, alguns deram risadinhas por baixo das mãos. González nos olhava como quem tem uma posição superior à sua e não se importará em dificultar a sua vida, se você ficar cheio de nove horas.

- Bom, pessoal – disse Campos –, vamos fazer hoje aqui mais uma etapa de seleção para o departamento de vendas da Livraria Cultura. Meus parabéns aos que passaram pela primeira fase, de conhecimentos gerais sobre a cultura universal...

“Cultura universal”, e toda aquela velha conversa mole.

- Agora, cada um de vocês deve ir até a frente do palco para se apresentar, contar um pouco da vida de vocês. Você – e apontou para uma menina completamente estrábica, e seus olhos vesgos tinham um charme sutil.

Era magra e angulosa. Você podia pensar nela em centímetros quadrados. Se era atraente? Não especialmente. Usava óculos com aros transparentes e parecia ter uma perna mais curta que a outra. Sem jeito, disse seu nome, que eu esqueci assim que ouvi, disse também que trabalhava num brechó e estudava filosofia medieval. Isso é mais fácil de lembrar, por motivos óbvios.

Campos resolveu fazer um truque traiçoeiro e perguntou à menina que obra de arte a definiria. Ela gaguejou um pouco, mas, quando falou, não estava trêmula: “Campo de corvos com trigo”.

- Você quer dizer “Campo de trigo com corvos”?

Alguns riram, eu procurava seus olhos, desperdiçados pelo chão. Ela ficou vermelha e, cabisbaixa, voltou ao seu lugar. González pediu licença para ir ao banheiro.

Desnecessário discorrer sobre todo esse processo. Dos treze ou catorze candidatos, dez eram cineastas, todos com uma vasta ou pelo menos promissora bagagem, me lembro que um disse que seu filme favorito era – francamente – Kill Bill. Havia também uma outra menina que só lia ficção científica inglesa dos anos 30, e citou “A Revolução dos Bichos”, ficção não-científica dos anos 40, como obra que definia sua personalidade, pelo que alguém no fundo do auditório simulou o guincho de um porco. Alguns riram. González voltou do banheiro. Lenço na mão, suando. Pobre González.

Havia também um marxista foucaultiano que defendia a idéia de que a contradição leva à ruína – sujeito amistoso – e um antigo membro, não se sabe de que tipo de anatomia, do finado movimento punk (?) brasileiro, “dessa turma aí dos Replicantes”, disse o próprio, hoje um senhor barrigudo e bonacheirão, metido num suéter de lã vermelho, três filhos pequenos, dívidas imensas. Nesse momento senti culpa. Eu não tinha filhos. Eu nunca tinha ouvido falar do finado movimento punk brasileiro. Nada em mim, ou na minha mais remota memória, cheirava a suéter de lã. Eu não merecia a vaga dele.

De minha parte mesmo, me saí terrivelmente na apresentação. Olhando os encontros das vigas de sustentação vermelhas, disse basicamente que eu era um expatriado, sem rumo, que tinha acabado de chegar à cidade natal, sem saber muito por quê. E, pondo tudo a perder, citei quase aos prantos que a obra que me definia era “O sol também se levanta”.

- De quem? – disse Campos me apontando com o lápis, como se soubesse, mas tivesse esquecido propositalmente.

- De quem o quê? – eu disse, pensando em grades e calcinhas no varal.

- O livro.

- Ernest Hemingway – mas sob pressão eu pronunciava sempre mal o Ernest, para dentro.

- Herbert quem?

- Ernest, Ernesto Hemingway, o escritor americano.

Campos sorriu com um sorriso de boca aberta, o sorriso normalmente feito por uma pessoa que reflete se você é mesmo ou não um idiota. Procurei Hemingway nos olhos das pessoas sentadas nas poltronas, não achei nem mesmo Kafka. Era tudo liso, ornamentado, pronto para explodir de tanta contenção.

- Pode sentar... Como é mesmo o seu nome?

- Leonardo Marona.

- Leonardo Marone, por gentileza...

- Marona.

- Sim, oquei, ao seu lugar...

Campos sorria quando me conduziu. González tinha ido outra vez lá fora, com um cigarro na mão, murmurando algo em outra língua. Estava numa pior, o coitadinho.

Era lógico que meu desempenho na apresentação tinha contado pontos negativos na minha avaliação como candidato, mas eu ainda me mantinha razoavelmente humano. Depois que todos se apresentaram, ficamos esperando o González voltar. Alguém levantou a mão.

- Sim? – disse Campos, de braços cruzados, com as sobrancelhas.

- Qual é a função do Gonçalves?

- González...

- Sim, qual é?

- Ele é fiscalizador.

- Ele é fiscalizador da fiscalização, é isso?

Todos riram. González entrou. Um silêncio afiado de fuligem no ar. Campos dividiu as pessoas em dois grupos e simulou situações de venda. No meu grupo havia um sujeito metido a malandro que já trabalhava como caixa-registrador na livraria e estava fazendo o processo seletivo apenas para mudar de área. Ele logo antipatizou comigo, quando lhe perguntei se ele não deveria estar participando de outro processo de seleção, e não deste. Simularam um problema e todo o grupo era a favor de esconder do cliente a causa do problema. Eu defendia que era melhor jogar às claras para evitar mais problemas. Uma gordinha de cabelo roxo com um cacho branco na franja e um brinco no nariz disse que eu era “mais chato do que o cliente”. Fui voto vencido, e não senti em momento algum que aquilo pudesse ser bom para as minhas possibilidades.

Mesmo assim respirei fundo. Sempre tive tendência a me controlar nos momentos críticos. E ali estava eu, formado na faculdade, um bom filho, sem graves problemas com drogas, mesmo assim alguém de difícil convivência, com certo talento teórico, tentando mostrar normalidade, diante de um precipício. E não me interessava o trabalho no fim das contas, eu queria apenas poder estar legitimamente naquela cidade, e o trabalho era a forma mais hipócrita e, portanto, a mais natural de se alcançar isto.

Saímos da dinâmica de grupo, nos demos beijos nas bochechas e limpamos as mesmas com as costas das mãos. Seguimos direto aos cigarros e aos pontos de ônibus, diante da cor encardida de qualquer ponto em Porto Alegre. Vomitei um pouco num canto, suei frio, senti falta da minha mãe, pobrezinha, indígena, o intestino comido por dentro.

Reparei outra vez naquelas perninhas de gambito. É como se diz em Pernambuco: pernas de gambito. Ainda por cima, com os pés para dentro. Magra e desamparada, duas características irresistíveis nas mulheres, que me encantam. Muitos pêlos nos braços, negros, grossos, dando a entender um cheiro entranhado extremamente frágil, e sexual.

- Oi, sabe que ônibus eu pego pro Bonfim?

- Eu vou pra lá.

- Você errou o quadro do Van Gogh.

- Pois é, acontece.

- O que foi?

- Fiquei nervosa.

- Acontece, realmente.

Entramos no ônibus, fomos em pé, ele passou lotado.

- Escuta, você dança? É que eu ainda não conheço ninguém. Não saio nunca.

- Não danço. Como vê, sou manca.

E eu poderia apenas dizer o quanto ser manco era antigo para mim. Os olhos alucinados de Van Gogh em Saint-Rémy resplandeciam sobre os olhos da menina de quem eu nem mesmo sabia o nome e, afinal, no fundo não se sabe o nome de ninguém. Eu tinha vontade de dizer coisas bonitas sobre alguns momentos breves do cérebro enfim refeito. Dizer que algumas vezes realmente sabemos o que nos pode encantar, reconhecemos isso, e damos o braço a torcer por isso, e repetimos as mesmas antigas doses exageradas, e desejamos amantes com certa coerência, e nisso reconhecemos os estrangeiros do mundo, por isso queremos os amputados, os mancos e os com a cabeça a prêmio: eles são os mais nobres, com as cordas em volta do pescoço e o grito amputado.

- Ei, aquela conversa de filosofia celta medieval é verdade?

- Não falei nada sobre filosofia celta.

- Você tem quantos graus?

- Nove e meio de miopia.

- Isso não é muito?

- É quase tudo.



- No fundo, sempre é.

Ela disse também que cantava numa banda de rock. De que tipo? Alternativo. Enfim, de vez em quando ela pintava o cabelo de verde, ou de roxo, e saía derrubando latas de lixo por aí. Uma bela alma, duas almas sem emprego, nem felizes nem tristes, apenas assustados. Com os pés para dentro, as pernas tortas, todos os graus possíveis, pedindo carona para o dia seguinte.

- Você acha possível que a gente consiga o emprego? – eu perguntei a ela, enquanto ela descia do ônibus.

- Você acha que Van Gogh conseguiria? – ela disse, e me mandou um beijinho com a mão.

28.1.11

"A True Account Of Talking To The Sun At Fire Island" (Frank O'Hara)

Frank O'Hara (1926 - 1966)





The Sun woke me this morning loud
and clear, saying "Hey! I've been
trying to wake you up for fifteen
minutes. Don't be so rude, you are
only the second poet I've ever chosen
to speak to personally
so why
aren't you more attentive? If I could
burn you through the window I would
to wake you up. I can't hang around
here all day."
"Sorry, Sun, I stayed
up late last night talking to Hal."

"When I woke up Mayakovsky he was
a lot more prompt" the Sun said
petulantly. "Most people are up
already waiting to see if I'm going
to put in an appearance."
I tried
to apologize "I missed you yesterday."
"That's better" he said. "I didn't
know you'd come out." "You may be wondering why I've come so close?"
"Yes" I said beginning to feel hot
and wondering if maybe he wasn't
burning me
anyway.
"Frankly I wanted to tell you
I like your poetry. I see a lot
on my rounds and you're okay. You
may
not be the greatest thing on earth, but
you're different. Now, I've heard some
say you're crazy, they being excessively
calm themselves to my mind, and other
crazy poets think that you're a boring
reactionary. Not me.
Just keep on
like I do and pay no attention. You'll
find that some people always will
complain about the atmosphere,
either too hot
or too cold too bright or too dark, days
too short or too long.
If you don't appear
at all one day they think you're lazy
or dead. Just keep right on, I like it.

And don't worry about your lineage
poetic or natural. The Sun shines on
the jungle, you know, on the tundra
the sea, the ghetto. Wherever you
were
I knew it and saw you moving. I was
waiting
for you to get to work.

And now that you
are making your own days, so to
speak,
even if no one reads you but me
you won't be depressed. Not
everyone can look up, even at me. It
hurts their eyes."
"Oh Sun, I'm so grateful to you!"

"Thanks and remember I'm watching.
It's
easier for me to speak to you out
here. I don't have to slide down
between buildings to get your ear.
I know you love Manhattan, but
you ought to look up more often.
And
always embrace things, people earth
sky stars, as I do, freely and with
the appropriate sense of space. That
is your inclination, known in the
heavens
and you should follow it to hell, if
necessary, which I doubt.
Maybe we'll
speak again in Africa, of which I too
am specially fond. Go back to sleep
now
Frank, and I may leave a tiny poem
in that brain of yours as my farewell."

"Sun, don't go!" I was awake
at last. "No, go I must, they're calling
me."
"Who are they?"
Rising he said "Some
day you'll know. They're calling to you
too." Darkly he rose, and then I slept.




*** tradução Rodrigo Garcia Lopes ***



"Relato Verdadeiro De Uma Conversa Com O Sol Em Fire Island"

O Sol me acordou esta manhã em alto
E bom som, “Ei! Há quinze minutos
estou tentando te acordar.
Não seja grosso, você é só o segundo poeta
Que escolhi pra falar tão pessoalmente
então
por que você não é mais atencioso? Se eu pudesse
te queimar pela janela eu te faria
levantar. Não posso ficar na área
o dia todo”. “Desculpa, sol, fiquei
acordado até tarde falando com Hal”.

“Quando acordei o Maiakóvski ele foi
bem mais pontual”, disse o Sol
com petulância. “A maioria das pessoas
já acorda querendo ver se vou dar o ar da minha graça
Tentei
me desculpar “Senti sua falta, ontem”.
“Ah, está melhorando”, o Sol falou. “Achei
que você não viria aqui fora.” “Você deve estar pensando porque cheguei juntinho assim”?
“É”, eu disse, já começando a ficar todo quente
pensando se ele não estaria
metendo fogo em mim
no fim das contas.
“Sendo franco, cara, queria dizer que
gosto da sua poesia. Vejo um monte
de coisas por aí e você até que não é mal. Pode não ser
a coisa mais importante sobre a terra, mas
você é diferente. Agora, já ouvi as pessoas dizerem
que você é maluco, eles sendo excessivamente
tranquilos pro meu gosto, e outros poetas loucos te acham
um chato reaça. Eu não.
Continue mandando ver
Faça como eu não dê bola. Você vai perceber
que as pessoas sempre reclamam
do clima, sempre está quente ou frio
demais, escuro ou claro demais, dias
curtos ou longos demais.
Se você fica sem aparecer um dia
já acham que você é preguiçoso ou morreu.
Continue nesse pique, eu curto.

E não se preocupe com sua linhagem
poética ou natural. O sol brilha sobre
a selva, tá ligado?, sobre a tundra,
O mar, o gueto. Onde quer que você estivesse
Eu já sabia e via você se movendo. Estava te esperando
Pra começar a trabalhar.

E agora que você
está tirando os dias pra si, digamos,
mesmo que ninguém te leia a não ser eu,
não precisa ficar deprimido. Nem todo mundo
é capaz de olhar pra cima, nem mesmo pra mim. Machuca
Os olhos deles”.
“Ai ai, Sol estou tão agradecido!”

“Não há de quê e lembre-se que estou de olho.
Pra mim
é mais fácil conversar daqui de
fora. Não sou obrigado a deslizar entre os prédios
até seu ouvido
Sei do seu amor por Manhattan, mas
você devia olhar pra mim mais vezes.
E sempre
abrace as coisas, pessoas a terra céu
estrelas, como eu, livremente e com
um conveniente senso de espaço. Essa é sua
inclinação, conhecida no céu
e que você seguiria até o inferno, se preciso,
o que eu duvido.
Talvez nos falemos
na África, que eu também gosto
especialmente. Agora volte e durma,
Frank, e que eu possa deixar de despedida
um poeminha nessa sua cabeça”.

“Sol, não vai não!”, eu acordei
enfim. “Não, preciso ir, eles estão
me chamando”.
“Eles quem?”
O Sol se ergueu e disse “Um
dia desses você vai saber. Estão te chamando
Também”. Sombrio, o sol se levantou, e adormeci.



* Um detalhe mórbido: este poema foi achado entre os papéis de O'Hara, pelo poeta e amigo Kenneth Koch, pouco depois da sua morte - adivinhem! - causada por um atropelamento de bugre na praia de... Fire Island. O sol bem que avisou.


24.1.11

"da amizade"

a mão do amigo, nós só nos damos conta dela
quando ela não está lá.
não contam as partidas desavisadas,
pouco importam os corações esbravejados sob efeito de aditivos,
apenas vemos a mão quando não há mão,
e pode haver mão entre a china e a patagônia,
mas às vezes não há mão no aperto entre mãos,
porque estar apertado é não estar entre: é estar dentro, estando fora.
e muitas vezes, quando não há mão, estamos apertados,
e os olhos não escondem, derramam-se junto à poeira tardia,
e do amigo não lembrarás de nada,
enquanto ele estiver, ele não está, e quando estiveres
sem os dois braços, inclinando-te com a língua entre os dejetos,
aí sim, lembrarás dele, que ali não está, mas cujos dedos
nodosos serão a primeira e odiosa lembrança
de que desaprendeste a plantar.

21.1.11

"O Nosso" (Guenádi Aigui)

devo
chegar com meus lábios
aos seus olhos iluminados

e então hei de me surpreender com as veias pulsando de
leve,
suboculares,
e hei de compreender: é por causa de sua transparência
e de seu incorpóreo
que são assim claros e doentes
esses olhos ligeiramente trêmulos

e eu hei de amá-la com minhas mãos e meus lábios,
com o silêncio, o sono e as ruas dos meus versos
com a mentira - para o Estado
com a verdade - para a vida.



*tradução Boris Schnaiderman

20.1.11

"pensamento positivo"

sinto que estou perdendo a voz,
que coisa estranha, isso me dá
pavor absoluto, mas não reluto,
gosto dos destinos cumpridos e,
em breve, serei o velho locutor
de rádio, que pede um uísque
segurando a traquéia, e senta,
e mexe com as garotas e veste
um belo colarinho duro e sente
que lhe faltam os culhões, essa
palavra que poucos dizem fundo,
isso que talvez seja a única coisa
que não se possa falar, por mais
que andemos com o cu na mão,
mas impossível falar disso, nós
vamos falar da voz rouca como
a sina do último selvagem puro,
mas o mais importante é poder
cantar como o Louis Armstrong

19.1.11

"Just Walking Around" (John Ashbery)



What name do I have for you?
Certainly there is not name for you
In the sense that the stars have names
That somehow fit them. Just walking around,

An object of curiosity to some,
But you are too preoccupied
By the secret smudge in the back of your soul
To say much and wander around,

Smiling to yourself and others.
It gets to be kind of lonely
But at the same time off-putting.
Counterproductive, as you realize once again

That the longest way is the most efficient way,
The one that looped among islands, and
You always seemed to be traveling in a circle.
And now that the end is near

The segments of the trip swing open like an orange.
There is light in there and mystery and food.
Come see it.
Come not for me but it.
But if I am still there, grant that we may see each other.


*** trad. leonardo marona ***



"Só andando por aí"

Que nome eu tenho para você?
Certamente não há nome para você
Do mesmo modo que estrelas têm nomes
Que de algum modo servem. Só andando por aí,

Objeto de curiosidade para alguns,
Mas você é muito preocupada
Com a mancha secreta de sujeita atrás de sua alma
Para dizer tanto e vagar por aí,

Sorrindo pra si mesma e outros.
Chega a ser meio solitário
Mas ao mesmo tempo perturbador.
Contraprodutivo, ao você se dar conta outra vez

De que o caminho mais longo é o mais eficiente,
O que faz acrobacia sobre as ilhas, e
Você sempre me pareceu viajar em círculos.
E agora que o fim é próximo

As partes da viagem arreganham-se feito uma laranja.
Por ali existe luz e mistério e comida.
Venha e veja.
Venha não por mim mas por isso.
Mas se eu ainda estiver, permita que vejamos um ao outro.

18.1.11

"´Relógio de Ponto" (Alberto da Cunha Melo)

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.

11.1.11

"kiddo"


para Camila



você é a Carolina de Lou Reed,
dando a volta ao mundo, sendo
a personificação do meu tempo
gasto e que jamais terei de volta,
mas você volta, você vai e volta,
eu estou sempre ansioso, te digo,
feito filho à tua espera – quando
você diz: "eu voltarei", estou aqui
roendo unhas, estalando os dedos,
porque só existe você para mim,
com essa força de fato vulcânica
e que alimenta os poros da vida.

os barbitúricos do teu regresso
serão nossos pirulitos do medo,
e as ruas se abrirão em crateras
e passaremos limpos e mágicos,
porque você é a roqueira suicida
de David Bowie, e sendo as duas
garotas de Lou e Bowie, eu sei,
estaremos sempre nus – e livres.

9.1.11

"o casamento"

gostaria de saber de vocês, homens e mulheres da minha vida,
como poderia se casar um poeta.
seria com ostentação que ele faria
a celebração silenciosa da dúvida?
creio que a pobreza e as poucas posses
impedem certas manifestações de medo.
filhos? não acredito que isso possa resolver algo.
viemos das chamas antigas, e borbulhamos demais para aceitar os mares calmos.
preste atenção ao poeta no canto da enorme sala,
falando aos quatro céus, embebedando-se com uísque.
é do desespero deste homem que se fazem as grandes festas.

7.1.11

"paul valery"

ó eu me desmembrarei em partes,
particulas minúsculas de lavagem
nas calçadas do coração da carne
que fica mais acima, em contato
direto e fixo com o que se perde
de vista ao se olhar, mais abaixo
as partes escolhem proponentes
no fio de um poste, no olho puro
do sujeito deformado pela tarde,
e serão muitas partes, uma tarde,
o medo de escrever o fragmento
perdido na concepção dos outros
fragmentos vitoriosos na fria luta
fragmental da existência incerta,
mas seremos o todo em seu lugar
sem rosto, despedaçados iremos,
não mais pela mentira da fraqueza
escamoteada na busca metafísica,
só em pedaços, e na superfície lisa,
deslizaremos sobre a pele fictícia,
decairemos sobre eras esquecidas,
e não haverá mais mãos ou tiro forte
para nos tirar desse deslize, faremos
o recuo interior, a manobra magma
nas asas do grave pássaro mecânico,
desbotaremos em milhares de cores
pálidas que ficarão na pele calçada
pelas botas do tempo, destruiremos
com nossa força débil, esmaecidos
diante do milagre, a mentira do que
unificado racha - pobres de vocês,
atarracados em bigodes prussianos,
pobres ministérios dos infanticídios,
porque não reconhecem a lisonja
de estar na superfície das coisas,
as mesmas às quais só podemos
dar nomes provisórios, e sabemos:
não somos poetas, mas fazemos.

1.1.11

"julia"

havia um tempo em que dizias: ficarei sozinho,
e agora é chegada a hora de dizer: que farei
sozinho? pois nisso ainda não tinhas pensado.

a antiga energia com cabelos sujos ao vento
coagulou num grito mudo feito quadro vienense.
as mãos suam, tremem à menor proximidade
do que nossa antiga inclemência veio nos cobrar.
já não há mais susto ou esperanças macabras
agora que sentas frio diante da vela umedecida.
e já não há mais raio vivo, pasta de segredos,
o sangue borbulha fresco pela boca incestuosa.

e você, mocidade à qual olho com vergonha,
com distância segura, e que, no entanto, fica,
permanece ao lado, você é a menina que come
chocolate e engole metafísica, você é a única
chance – e que peso tudo isso! – de um idiota
sem chance, apenas porque não sabe: a dor
antecipada de um covarde diante do pulo falso.
e não saber é grande, e é tudo que podemos.

28.12.10

ÁLVARO DE CAMPOS

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E' estar ao lado da escala social,
E' não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

26.11.10

"poema didático para b.b."

e não será suficiente, mas este
será teu poema, um por todos
aqueles pelos quais você viveu,
um contra a aberração no lugar
do absurdo, poema para poetas,
não preocupado com o público,
contra tudo que use a fraqueza
como trampolim para a ordem.

não será um poema sensorial,
mas um poema que fale: aqui,
está a sensação vital do poema.

não será tampouco um poema
que a partir de flores, primaveras,
transportasse a ideia de conforto
poético, em vez disso, será feito
máquina com pistões azeitados,
será alfinete no balão do tempo
das múmias transportadoras de
sentido, e não haverá um sentido
que esteja além da sua imitação,
a imitação será clara como a cal
que cobriu os corpos assustados
dos acusados de terem nascido.

e que seja belo, e que fique claro
que daqui nós não queremos mais
ser algo para não ser outra coisa.

queremos a medida exata do ser
algo aqui, depois ser um algo ali,
trabalhar, enfim, o que nos refere
como algo sendo antes e depois,
como algo sendo síntese do agora
e principalmente como um abraço
que se dá num desconhecido sujo,
e ser a distância do que se quer
e o que se pode e o que se tem.

e quando pousares sobre mim os
olhos desatentos, não haverá um
serafim ou beladona ou brilhantina,
mas sim um paredão de sensações
onde estará escrito: aqui estou eu,
um poema para o sr. bertolt brecht,
e sabendo o que sou, você saberá
o que te emociona e o que será pó,
sem precisar forjar a esquizofrenia
em algo que se pretenderia sentir.

eu estarei na sua cara, leitor, eu
chorarei também no seu ombro e
criaremos uma relação só nossa,
e seremos mestres e aprendizes
e seremos mágicos e operários
e criaremos mundos e poremos
abaixo os pilares feitos da cinza
dos ossos de cada pálida inocência,
que não perdemos ainda, apenas
não sabemos mais como limpar
a cada cena nosso rosto marcado,
e talvez algum dia nós tenhamos
sido ostras e, como ostras, nós
tínhamos todos os sexos, todas
as formas, mas, diga, que ostras
poderiam ser o que somos agora?

17.11.10

"Los Perros Románticos" (Roberto Bolaño)



En aquel tiempo yo tenía 20 años
y estaba loco.
Había perdido un país
pero había ganado un sueño.
y si tenía ese sueño
lo demás no importaba.
Ni trabajar, ni rezar,
ni estudiar en la madrugada
junto a los perros románticos.
y el sueño vivía en el vacío de mi espíritu.
Una habitación de madera,
en penumbras,
en uno de los pulmones del trópico.
y a veces me volvía dentro de mi
y visitava el sueño: estatua eternizada
en pensamientos líquidos,
un gusano blanco retorciéndose
en el amor.
Un amor desbocado.
Un sueño dentro de otro sueño.
y la pesadilla me decía: crecerás.
Dejarás atrás las imágenes del color y del laberinto
y olvidarás.
Pero en aquel tiempo crecer hubiera sido un crimen.
Estoy aquí, dije, com los perros románticos
y aquí me voy a quedar.


xxx tradução xxx


Os Cães Românticos

Naquele tempo eu tinha 20 anos
e estava louco.
Havia perdido um país
mas havia ganhado um sonho.
e se tinha este sonho
o resto não importava.
Nem trabalhar, nem rezar,
nem estudar na madrugada
junto aos cães românticos.
e o sonho vivia no vazio de meu espírito.
Uma habitação de madeira,
em penumbras,
em um dos pulmões do trópico.
e às vezes me voltava dentro de mim
e visitava o sonho: estátua eternizada
em pensamentos líquidos,
um verme branco retorcendo-se
no amor.
Um amor desbocado.
Um sonho dentro de outro sonho.
e o pesadelo me dizia: crescerás.
Deixarás atrás as imagens da cor e do labirinto
e esquecerás.
Mas naquele tempo crescer havia sido um crime.
Estou aqui, eu disse, com os cães românticos
e aqui vou ficar.

15.11.10

"travesti"

lidar com a coisa rara, a coisa instante,
a coisa injusta, lidar que não se ajusta,
lidar com o não poder mais lidar com.

lidar com a coisa úmida, a coisa fórmica,
lidar com o que se esconde e te observa,
lidar com a coisa infame, a coisa rala,
a coisa rôla, com o infame da coisa em si,
que não é mais em si, nem em sol, é coisa
com todas outras coisas, é coisa só, que só
o câncer mitológico pode nos proporcionar.

12.11.10

"perdendo completamente a discussão"

Mas, você sabe, eu tenho 8 anos desde que tinha 20 anos.

11.11.10

"minhas mãos nodosas"

são mãos
de operário cândido
portinari

28.10.10

"a crina de mariana"

mariana, você pôs tudo a perder.
eu era apenas um sujeito surdo
arrasado pela justiça e assado
pelo tempo, e tinha tremeliques.
não havia muito espaço entre nós
e, ainda por cima, eu era um cara
puro de espírito, com tremeliques.
mariana, você não soube esperar
pela majestade que não se revela
na verdadeira fonte da felicidade.
andávamos de mãos dadas, víamos
as garças na Praia da Urca, e você
adorava o efeito das minhas coxas
no teu segredo raro entre as pernas.
outro dia te vi, mariana, sem a crina
pela qual você ficaria mundialmente
conhecida dentro de mim, sem crina
você me pediu “escreva um poema
para mim, como fazia antigamente”,
e eu disse “mas sobre o que eu posso
falar que já não tenha falado antes?”
“quem falou: aquele que mais ama é
subjugado e tem que sofrer?", você disse.
“não sei, Thomas Mann?”, eu respondi.
“sim, e o que você disse, você lembra?”,
ela disse, e eu: “não lembro, o que foi?”
“pelo menos, você terá amado mais”,
foi isso que eu disse, e ela queria saber
o que eu lembrava e eu me lembrava,
mariana, da sua crina encaracolada,
primordialmente da sua crina isenta,
como já não somos mais, e agora nós
estamos aqui de novo, e você me pede
um poema, lembranças, e são algumas,
mas nada como era a crina de mariana,
e não entristeça, mariana, porque eu disse
que sem a crina você parecia até mesmo
uma dessas apresentadoras de tele-jornal.
eu amaria a apresentadora de tele-jornal,
com sua sexualidade vazia, cabelo curto:
mas não como amei a crina de mariana.

22.10.10

"Por que eu amo a França" (Leonard Cohen)




Ó França, você deu sua língua aos meus filhos, seus amantes e seus cogumelos à minha mulher. Você cantou minhas canções. Você entregou meu tio e minha tia aos Nazistas. Eu conheci o peito de veludo da polícia na Praça da Bastilha. Eu tirei dinheiro dos comunistas. Eu deixei a minha meia-idade na cidade leitosa de Luberon. Eu corri dos cães de guarda numa estrada ao redor de Rousillon. Minha mão treme na terra da França. Eu vim até você com uma asquerosa filosofia de santidade, e você me deu banho e me fez sentar para uma entrevista. Ó França, onde eu fui levado tão a sério, que tive que reconsiderar minha posição. Ó França, qualquer messias chinfrim te agradece por sua própria solidão. Eu quero estar noutro lugar, mas eu estou sempre na França. Seja forte, seja nuclear, minha França. Flerte com todos os lados, e fale, fale, nunca pare de falar sobre como viver sem Deus.


texto retirado e traduzido do livro "Book of Longing" (Penguin Books, 2007)

13.10.10

"Bolaño's Heart Hotel"


sou eu aquele rapaz pulando
uma cerca no interior de uma vila
quente e seca num verão esturricante
enquanto espero o ônibus, e tenho
um bigode de viking e um coração
pálido, desavenças pelas quais fugi
de onde nasci e agora me entranho
no centro da lama de um lugar alheio,
meus trapos, meus sonhos beatniks
me embalam em direção ao mundo,
os cães passam voando com suas línguas
de fora e sua adorável delicadeza
estúpida e assassina, são perros románticos
e vieram para nos matar de amor,
com o peso da fartura de nossos corpos
que correm ao léu, e deixam rastros
e pistas selvagens sobre a sobrevivência
heróica dos pequenos abençoados
exilados de deus – sou eu aquele rapaz,
o estômago pelo avesso, sou aquele
rapaz que não pede, pequeno petulante:
aqueles eram meus longos cabelos.

10.10.10

"bravata"

eu sei, meu amor, que contigo aqui no meu colo,
tuas pernas duras, eu não preciso de mais nada,
e eu sei, meu amor, eu sei, todos nós sabemos,
que você está certa, eu sempre sonhei com um amor
que, como você, pudesse me ver escrevendo,
trabalhando no que mais amo e não trocaria nunca,
e eu sei, mamacita, dizemos sempre, ou tentamos,
coisas doces um ao outro, dessas de seguir vivendo,
mas acontece, meu amor, que eu preciso morrer,
eu preciso morrer horrivelmente, vergonhosamente,
eu preciso morrer como morreram meus heróis,
eu preciso morrer numa estrada para o México,
eu preciso morrer de tifo, de sífilis, de paixões abissínias,
eu preciso morrer sem deixar nada além de um Prêmio Nobel
e comentários inteligentes de homens já sem próstata,
enquanto, nos jornais, eles dirão: “grande escritor, abençoado
com a capacidade de narrar as questões medulares da raça humana,
morre de forma chocante, paródica, um tiro de espingarda na boca”,
e isso não será de todo feio, minha paixão, eu espero
que você me entenda, eu não preciso de cura ou benção,
estou abençoado pelas caronas nos trens de carga,
quero estar tremendo um dia, numa estrada de neve,
quero saber quem é quem nesse dia, por essa estrada,
e, sabendo quem é quem, quero tremer de medo, pensar:
“vergonha por tudo que pensei ter feito”, e sentar,
tocar uma bela punheta no meio do mato e sorrir
com os mesmos velhos dentes dos quais um dia disseram:
“um belo sorriso, rapaz intrigante, a febre da raposa”,
e quero morrer fulminantemente neste dia, no meio da neve,
mas agora você me dá seus pés, você deita seus pés no meu colo
enquanto escuto Highway 61 e isso é tão bom quanto uma bravata,
mas talvez não tanto quanto esta porque, meu amor, eu farei.

28.9.10

"canção para a mulher necessitada"

hoje vou escrever às mulheres de graves olheiras,
necessitadas Cabírias espancadas pelos maridos,
que cambaleiam pelas ruas com vestidos maiores
do que seu próprio tamanho, pois são pequeninas
essas incríveis mulheres capazes de rasgar a roupa
pelos tipos mais sórdidos, os que oferecem amor,
e são todas amaldiçoadas por somente acreditar
na possibilidade do amor, mas vocês, secos e fiéis,
vão cuspir nessas mulheres, vão rir da sua bondade
e jogá-las na rua com seus mil filhos, e esses filhos
um dia crescerão participantes de uma nova raça,
e será violenta e cheia de ternura e será debulhada
essa nova raça que virá meter no cu de vocês todos,
e vingará suas origens com sangue entre os dentes.

"Porto Alegre revisited"

nem sombra de Quintana,
seus passarinhos foram
abatidos em pleno vôo.

The Garret (Ezra Pound)



Come, let us pity those who are better off than we are.
Come, my friend, and remember
that the rich have butlers and no friends,
And we have friends and no butlers.
Come, let us pity the married and the unmarried.

Dawn enters with little feet
like a gilded Pavlova,
And I am near my desire.
Nor has life in it aught better
Than this hour of clear coolness,
the hour of waking together.


*** tradução leo marona ***



O Sótão

Vamos, deixem-nos ter pena dos melhores que nós.
Vamos, meu amigo, e lembre-se
que ricos têm mordomos e não amigos,
E nós, amigos e não mordomos.
Vamos, deixe-nos ter pena de casados e solteiros.

Aurora entra com pezinhos
tal qual Pavlova dourada,
E eu perto do meu desejo.
Não há na vida nada tão lindo
Quanto essa hora de clara frieza,
a hora de acordar contigo.

11.9.10

"o homem de seis faces"

para Camila Moura

tínhamos realmente que nos encontrar
noutro lugar para deslizar outra vez juntos
num falar frenético transbordado de alegria
e ansiedade genuína de seguir de braços dados
ou quase aproveitando cada espaço que a vida
proporciona e preenchendo tudo com ardentes
composições juvenis das coisas todas juvenis
de nós que nos mantemos vivos de repente
no seio da grande cidade e colecionamos fotos
que oferecem prazer e solidão tomando vinhos
vendidos em caixas de leites e somos os novos
mendigos maravilhosos com extravagantes
gorros de frio frente a outros companheiros
de negócios familiares em prol do povo e contra
a ordem escorregamos tenho a sensação pelas ruas
gélidas enquanto as solas dos nossos sapatos
se desgrudam da nossa alma andante e a chuva
faz seu trabalhinho sujo mas nós apenas cantamos
a plenos pulmões frases simples e melódicas como
you´re not alone / you´re beautiful e do outro lado
está o incrível e abominável sujeito de seis faces
com sua camisa de caubói americano e seu cabelo
em chamas e seus óculos mínimos e seu jeito
bonacheirão a quem batizamos e somos os pais:
Leon Penn Bolaño Valente Woddy Allen Presley.

6.9.10

"Cloths of Heaven" (W. B Yeats)



Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

1.9.10

"corinthians centenário"

é pena que não acreditem mais na sujeira
dos rostos dos amantes brutos, sem fala,
que se amontoam à beira do suplício raro,
e não cobram nada, mal sabem pronunciar,
estão loucos, com o rosto sujo, e as velhas
revoluções proletárias falsificaram novos
atos perdidos e sem terra à vista, sem voz,
de tanto gritar a loucura doce e perigosa
dos que nasceram para sofrer de grandeza.

29.8.10

"aula de etnografia"

somos todos índios, somos todos os futuros
animais caçados por animais que serão a caça,
e eu agora sou bem mais um bicho preguiça,
um porquinho da índia meigo, e será difícil
que algum humano queira me ter como caça,
pobre de mim, coala sentinela fúnebre, olho
semi-cerrado, girando súplice pela passagem.

27.8.10

"hemingway"


pouco importa se inventamos reis,
odres de vinho, generais inexistentes.
importa apenas manter os cavalos
nas rédeas dos acontecimentos.
e, vestidos de mulher, estamos
nas frentes sangrentas que nos
arrancam quase a perna, nos dias
de selvageria e presunções mitológicas,
nas orgias emocionais submarinas,
e pouco importa que a carne agora
seja bem menos uma prova de vida
e bem mais uma forjada vitória fácil.
não queremos a verdade, queremos
poucas palavras, rasas e farpadas,
porque no fundo sabemos, sentimos:
temos medo, e o cano na têmpora.

9.8.10

“auschwitz”

sinto orgulho dos meus dedos feios,
que um dia foram bonitos, mas que
coisa mais incrível de sentir orgulho,
sobre o orgulho dos dedos tão feios,
hoje são feios, vividos e feios, vividos
de pôr abaixo as paredes retroativas,
são dedos feios, mas com belos nós –
e finalmente eu me orgulho: colhedor
de cenouras polonês, sabão humano.

"poema para meu amor"

há uma ponte de safena entre nós,
e o problema, baby, é que ela nasce
de um aborto cultivado, a poesia é
uma outra coisa e, talvez, ela possa
também ser má comigo, com o que
chamamos de Nós Dois Juntos, ela
nasce do sangue excessivo que nos
joga na vida sem veias – e, é lógico,
é possível amar ainda, faremos isso,
mas se vive da poesia, vá perguntar
ao safenado – e a poesia, meu bebê,
é uma outra coisa: as bases hesitam,
há uma ponte de safena entre nós.

"tom zé (fatal) sobre gal costa"



sabe uma faca me rasgando,
um mundo se acabando, num sei,
Gal Costa cantora, Gal Costa a mulher,
a mulher terrível, a mulher linda,
a noiva, a morta, a viúva , a maravilha:
é muito difícil falar essas coisas,
eu não sei, a Gal Costa sempre me trata
com choques elétricos, e eu chego pra ver
ela e me arrebento por ela e me desarrumo
por ela, não sei, é sempre surpreendente,
eu nunca sei o que vai acontecer, e cada vez
é como a vida (sic) tivesse se partindo,
se começando, se acabando...
Gal Costa é muito maravilhosa (risos).

3.8.10

"o fino da nata de Karl Kraus"

Karl Kraus (1874 - 1936)


Existem imbecis superficiais e imbecis profundos.


A minha linguagem é como uma prostituta qualquer que eu transformo em virgem.


Os mais falsos argumentos podem mostrar um ódio correcto.


Só é artista aquele que é capaz de transformar a solução num enigma.


O diabo é um otimista se acredita que pode piorar as pessoas.


A diplomacia é uma partida de xadrez em que os povos levam xeque-mate.


O segredo do demagogo é de se fazer passar por tão estúpido quanto a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele.


O génio só pode compensar o defeito de provir de uma família não deixando nenhuma.


O amor e a arte não abraçam o que é belo, mas o que justamente com esse abraço se torna belo.

1.8.10

"The Alps" (Richard Brautigan)


One word

waiting...

leads to an
avalanche
of other words

if you are

waiting...

for a woman.





Tokyo
June 2, 1976

29.7.10

"Love Song" (Djuna Barnes, 1916)




I am the woman -- it is I --
Through all my pain I suffer peace,
Through all my peace I suffer pain,
This insufficient agony --
This stress of woe I cannot feel --
These knees that cannot bend to kneel --
A corpse that flames and cannot die --
A candle with the wick torn through --
These are the things from which I grew
Into the woman whom you hate --
She whom you loved before you knew --
Loved, loved so much before you knew.

All I cannot weep -- in tears,
All I cannot pray -- in prayers,
For it is so the wild world moves,
And it is so that Tame Man loves.
It is for this books fall to ruin,
For this great houses mold and fall,
For this the infant gown, the pall,
For this the veil that eyes weep through,
For this the birds go stumbling down
Into the cycled ages where
Their squandered plumage rends the air.
For this each living thing that dies
Shakes loose a soul that will arise
Like ivory against black space --
A quiet thing, but with a face
Wherein a weeping mouth is built --
A little wound where grief is spilt.

I am the woman -- even so --
Through the years I have not swerved,
Through the years I've altered not.
What changes have I yet to know?
Through what gardens must I crawl?
How many roses yet must fall?
How many flowers yet must blow?
How many blossoms yet must rot?

How many thorns must I yet bear
Within the clenched fists of despair?
To be again she whom you loved --
Loved you so much, so much did care --
Loved, loved so much, so much did care!

22.7.10

"não serei"

não serei um senador de modos elegantes ao jantar,
que no jardim enterra os medos, as ilusões antigas,
não serei o vagabundo riquinho que bate pega e mata
o rapaz de classe média que andava de skate no túnel
e que talvez, por mais duro que seja, estivesse mesmo
esperando pela morte bruta com a força dos metais,
mas não serei nem ele, o regurgitador de ferro e aço,
nem bem serei a pálida criatura que cultiva olheiras,
nem o parasita pródigo, mas um pouco serei o parasita,
serei também ondas curtas de paixão, das que inspiram
o passado brasa-mora e a cultura iê-iê-iê, essa gentalha
que não sabe como é duro sobreviver do próprio vício
de não ser e não ser e não ser e no fim não ter forma,
nem garota preciosa, nem ginga de bibelô, rebolar
é para os que desviam dessa frágil grandeza estéril,
desse bater de frente com o ridículo da auto-aceitação.

21.7.10

"all my loving"

será estranho, no entanto, quando, na rua, estiver tocando
“all my loving” no centro da cidade e, junto a mil pessoas,
a banda mambembe - como no fundo somos todos nós os vivos - me fizer chorar,
pois algo queima entre a espinha de Descartes e a jaqueta esfaqueada de Espinosa,
e será estranho, no entanto, pensar nas coisas da ilusão dos decretos livres,
enquanto Espinosa jaz enterrado com seu paralelismo e sua rinha de aranhas,
e Descartes coleciona condecorações em faculdades estéreis,
e minha namoradinha está em casa estudando a coisa do amor entre os povos,
e ela diria “não são bem coisas do amor”, sem muita paciência, e se eu a amo
é pela completa falta de paciência e pelo excesso de amor,
mas ela não sabe, a minha namoradinha, e nem eu bem sei, como ela diria,
que “all my loving” pode ser também suficiente, na rua, diante da banda cigana,
e talvez ela também não acredite - não posso culpá-la - que uma namoradinha
justifique uma lágrima no deserto, e as ruas irregulares onde, todos os dias,
escorremos hemorrágicos, carregados de mitos em pedra, sem paredes.

13.7.10

"texto prodigioso de Camila Moura"

minhas entranhas já não vibram cheias de vontade, já não dilatam em câmaras o conjunto já não provocam mistérios na carne ampla e dissemelhante
minhas entranhas sangram moles feridas, igual quando sozinho
quando deixado sozinho o sol se põe
e não se pode fazer nada,
e já não posso manter meus olhos abertos, eu vejo a luz cair por uma fresta e adormeço
sinto uma vertigem incontrolável por dentro, de um ponto exato
eu vejo do prisma do sangue
cercado por lobos meu útero
se esvai de cansaço, se aproxima a matilha
por muito aguardou a matilha

até o romper de músculos

de machos velhos armados com metais velhos forjados
com vozes de veludo amarram minhas pernas acariciam minhas pernas ao que miram meu rosto contorcido então raspam-me o leito não tiram nunca de dentro suas garras frias até que se aniquile a própria idéia do calor até que a câmara solte-se do coágulo num ruído agudo e volumoso e você já pode ir para casa
eu estou para atravessar a avenida e eu nem posso estar de pé
e nem dói nem nada, ou melhor,
eu não faço força, eu tento estar ao sol,
o útero se deixa rasgar, o útero inteiro ergue-se ao corte, ele persiste em sua forma mesmo sob ataque frontal: não desaparece, não volta ao barro, não participa nem sofre com o flagelo
o que sinto que tenho não passa de um tremor localizado
distribuindo numa ação direta a potência que então concentrava entre todos os homens, em ondas, perdendo intensidade de acordo com o afastamento radial do epicentro mas sem jamais chegar a zero
meu corpo alimenta uma cidade desconhecida
e as avenidas que cruzo de olhos fechados como setas
e entre nós esta rede de carne como uma idéia prematura
como se a cabeça transferisse toda sua importância ao ventre
como se ali, enfim, um olhar se concretizasse, depois do fim...

como estivessem os canais do desejo preenchidos de alarme
eu permaneço calada, eu não me mexo e nem faço força
a máxima intimidade oferece jantares a grandes médicos, e mais
o sangue escorre pelos canais e cai numa cuba refrigerante, e instala-se o frio, e o estéril trauma, e o sangue será jogado na privada, e tudo será banhado com álcool, e a ferida será deixada sozinha e sem nenhum ritual de paz


para ler mais obras-primas da menina, vá em http://www.camilademoura.blogspot.com/

11.7.10

"mahler"




“quando se ousou voar com os pássaros,
só se deve saber mais uma coisa: cair”

(Rainer Maria Rilke)


chegou, enfim, o domador de abismos,
preparador de aquários de uma nova era.

graças a deus, és o inoportuno, o macaco
judeu com meio metro de testa, os olhos
de serpente, a pose chapliniana, pequeno,
o que dava pele aos fantasmas e, bem ali,
de nós até deus existe apenas um passo,
nos tíbios sentimentos pela ansiada paz.

grande ator fazendo um grande homem
que caminha rua abaixo e segue os gritos
proletários pensando: “eles sim são meus
irmãos, porque eles são o futuro”, e nós,
esse futuro, não sabíamos que se começa
abatido a pauladas, e um intruso nunca
deixa definitivamente de sê-lo, e que há
sementes de dúvidas no real significado
da liberdade, parênteses entorno do amor
e da própria morte, mas você, o que sabe
da carne trêmula, se pudesse dizer, diria:

“não temam, meus filhos, é preciso saber
que se bate com a cabeça contra a parede,
mas, saibam, é a parede que terá o buraco”.

8.7.10

“tua carne não apodrecerá, Roberto Piva”

Roberto Piva (1937 - 2010)



poderia algum dia, Roberto Piva, como agora,
ser que víssemos nas tuas roupas neo-realistas,
na tua rica juventude, estuprada por São Paulo,
a quem odeia, São Paulo, mas a ela dá as tripas,
porque apenas em tripas e ódio nos damos todos,
e a criação vem necessariamente do ódio coletivo
de sermos, apesar do estupro-fascínio, dependentes
da beleza e das bandanas nos pescoços-caravaggio
e dos passos de sapatos com solas de madeira
descendo pelas escadas com a tinta paranóica.

quimicamente desejáveis e não é o que todos querem?

não, Piva, deus da sarjeta incandescente dos profetas,
eles querem tuas fotos nos jornais e mais meia dúzia
de poetas ordinários se refestelando sobre tua carne,
aos prantos, desejando a ti uma boa passagem,
e eles – é claro, Piva – ah, mas eles não sabem
das calçadas ensangüentadas, dos tiros noturnos,
e, muito menos ainda, Piva, eles sabem que não é
para ti este mundo, onde se enterram no papel
os poetas eternos: nesse jogo, disso eles sabem,
ficam as moscas e, atemporal, a carne apodrece.

3.7.10

"O sweet spontaneous" (e.e. cummings)

O sweet spontaneous
earth how often have
the
doting

fingers of
purient philosophers pinched
and
poked

thee
, has the naughty thumb
of science prodded
thy

beauty .how
oftn have religions taken
thee upon their scraggy knees
squeezing and

buffeting thee that thou mightest conceive
gods
(but
true

to the incomparable
couch of death thy
rhythmic
lover

thou answerest


them only with


spring)


xxx * xxx


"oh suave espontânea"

oh suave espontânea
terra quantas vezes
os
dedos

idólatras dos
filósofos lúbricos picam
cu
tucam-

te
, têm o polegar pervertido
da ciência espetado
tua

beleza . quantas
vezes religiões não te
põem nos joelhos pontudos
espremendo e

esbofeteando-te que tu tinhas que gerar
deuses
(mas
fiel

ao incomparável
leito de morte teu
rítmico
amante

repondeste-
lhes apenas com

a primavera)


tradução dirceu villa

2.7.10

"roman jakobson"

a vida cotidiana
é apenas um sucedâneo
da síntese do futuro.


(vladimir maiakovski)

agora o câncer é a poesia
da medicina, e não valem
mais os gestos de punho
seco, as mortes políticas,
mata-se finalmente por
vaidade, e como é belo
o amor falso no qual nos
baseamos, e como é bom
transar sem camisinha,
aturar em silêncio a veia
que derrubou os cossacos,
e agora nós só transitamos
entre estranhos talvez com
armas de tiro e que nunca
sabem, tanto quanto nós
não sabemos que ainda
é cedo e pálido crepúsculo,
para esperar o dia frágil
quando não há tiro nu,
conversa-se, droga-se,
e estamos nus no tempo,
e a gosma que deveríamos
apreciar está mais abaixo
e temos medo e por isso
vamos longe, de cabeça,
mas já não há mais tiros
no peito de uma geração
inteira diluída em dúvidas:
estamos perplexos, rindo
do sabe-se lá o quê, a base
fugiu para longe, os peitos
sob a mão não amedrontam
e nem o suicídio é algo raro,
pergunta-se: mas e se não for
maiakovski, por que interditar
a passagem do tempo? - talvez
seja leitura demais, vivemos
o tempo da leitura demasiada,
amplos no aspecto pequeno,
e não sabemos, pobres de nós,
que o tiro já foi dado no tórax
e não nos resta nada mais que
a simples primavera esgotada.

24.6.10

"festa entre artistas"

sempre deixe aberta a porta
do banheiro quando quiser
que alguém por acaso esteja
na porta, ali, do outro lado,
quem sabe até enlouquecido
com a falta completa de amor,
com essa proximidade falsa,
bem ali, do outro lado da porta,
pensando em como seria abri-la
e, apenas para mudar um pouco
os parâmetros, dar de repente
de cara com alguém defecando.

5.6.10

"they liars"

you have to empty
your stomach until
there’s nothing left
but a piece of a rest.

some folks they say:

“when i don’t create,
then i’m not living.”

i think they are liars.

when i don’t create,
then i’m only living.

and living, my folks,
is what fears the most.