minha avó comprou peixe na feira
meu avô e eu comemos felizes
minha avó detestava peixe
e passou o almoço resmungando
palavras incompreensíveis
para o ouvido humano
mas eram palavras amáveis
tenho certeza que eram
só que do jeito lá dela.
no dia seguinte: dia dos pais
de dia remela, saudades, palavras...
de noite o desprezo paciente
todos no fim desprezados
pelo real sentimento de perda
como se a pasta que guarda
nossa única chave de chance
tivesse caído pelo bueiro.
depois desse dia: dia nublado
dia de reconhecer as posses
nada muito bom quando se olha para os lados
entretanto, ainda usamos bigodes
meu avô só ouve a estima do seu próprio coração
demorou meio século para reconhecer a verdade
eu me defino por minha forma de expressão
pouca certeza e muita voltagem
normalmente um furo em olhos sem face.
meu avô pergunta o que foi feito do peixe
eu me incluo enquanto engulo a indigestão
minha avó grita que desapareceu o peixe
não está na tigela, nem no forno, nem no gelo
o peixe não está em lugar nenhum.
meu avô apenas aperta a boca flácida
sem mais sombra de dente na carne
todos dignamente afogados
no copo d’água sobre a pia.
nenhum de nós parece reconhecer o próprio espelho
o fatídico selo
germinal pululante
todos parecem se esforçar em vão
mas existe um mistério invisível
um sumiço vivo entre todos nós.
que coisa mais linda da vida! vou imprimir em times new romam
ResponderExcluiremoldurar com passe par tout e madeira escura
para pendurar na parede da sala de visitas.
te amo e morro de saudades por aqui.
ps: meu coração é grande e pequeno grande e pequeno grande e pequeno.
me fez pensar em buñuel. o discreto charme da burguesia. o poema tá muito bonito.
ResponderExcluir